Encontro da Pastoral Social, realizado hoje em Ponta Delgada, lançou um alerta contundente para a realidade da pobreza na região, destacando as suas causas estruturais e desafiando a Igreja a assumir um papel mais ativo, próximo e transformador junto dos mais vulneráveis

“O serviço aos pobres é o maior desafio colocado aos discípulos.” A afirmação do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, abriu um encontro promovido pelo Serviço Diocesano da Pastoral Social “Dilexi te- o amor para com os pobres” onde o apelo à urgência da ação dos cristãos foi uma constante. Sublinhando a necessidade de disponibilidade total, o prelado deixou um apelo claro para que ninguém falte na assistência ao irmão, sobretudo na resposta às necessidades concretas dos mais vulneráveis.
Num retrato detalhado da situação nos Açores, a presidente do Conselho Ecomómico e Social dos Açores, Piedade Lalanda, rejeitou uma leitura fatalista da pobreza lembrando que “se trata de um problema estrutural” que deve ser “atacado nas causas” de forma a inverter a tendência dos anos em que “poucos alimentaram a pobreza de muitos”.
A socióloga, que já foi responsável por este serviço da Igreja, destacou indicadores preocupantes, relativos aos Açores.
“Temos uma das mais elevadas taxas de baixa escolaridade do país”, associada à iliteracia e ao abandono escolar precoce. Apesar de medidas como a rede Valorizar, alertou que “mitiga o problema, mas estruturalmente não o resolve”, existindo ainda “um número de jovens que sai do sistema educativo sem a escolaridade obrigatória”.
A pobreza, disse, atinge de forma particularmente dura as famílias.
“Em 2024, incide sobretudo nas famílias monoparentais, com 87,3%”, referiu, acrescentando o paradoxo de os Açores serem uma região “católica” com “a taxa de divórcio mais alta do país”. Também as famílias com crianças enfrentam maior risco, num contexto agravado pela precariedade laboral: “Não se pode pedir a pessoas com instabilidade laboral que tenham filhos”.
Outro dado marcante é o número de trabalhadores pobres: “Temos mais de 11 mil trabalhadores cujos salários não suportam as dificuldades do dia a dia”. A isto juntam-se problemas de habitação, como a sobrelotação, que “pode ser um subproduto do turismo”, e desigualdades de género, com “as mulheres, sobretudo em idades mais avançadas, mais atingidas pela pobreza”.
Apesar de a taxa de risco de pobreza se situar nos 17,3%, Piedade Lalanda alertou: “Se não existissem apoios sociais, seria de 40%”, evidenciando a fragilidade estrutural da sociedade.
Num plano mais pastoral e teológico, o padre José Júlio Rocha aprofundou o significado da pobreza no cristianismo, distinguindo “a pobreza como escolha e modelo de vida” da “pobreza imposta”. A partir da enciclícia Dilexi Te, do papa leão XIV, recordou que “Jesus foi as duas coisas”, nascendo “numa manjedoura porque não havia lugar para ele”, foi migrante e refugiado e viveu sem “onde reclinar a cabeça”.
O sacerdote foi crítico em relação à evolução histórica da Igreja: “Com a ideia de poder, a Igreja deixou de dar testemunho e começou a impor a fé… e perdeu os pobres”. Defendeu que a instituição enfrenta hoje um desafio profundo: “A Igreja precisa de uma conversão estrutural e não está preparada para o fazer”.
Questionando diretamente os presentes, lançou um desafio incómodo: “Estaremos disponíveis para acolher o pobre que está no campo de São Francisco, que rouba para se drogar, e encontrar nele o altar sagrado? Não estamos”. Para o sacerdote, a mudança passa por recentrar prioridades: “A Igreja é toda pastoral social” e deve “debruçar-se sobre os pobres em vez de dar prioridade a outras pastorais, detidas em ritos”.
Também criticou uma visão assistencialista: “O pobre não pode ser objeto da minha esmola”, defendendo uma relação de igualdade e comunhão.
“Quando o pobre for o altar da Igreja e não o barroco ou o incenso, então estaremos no caminho”, afirmou depois de ter alertado para o perigo de um “cristianismo aburguesado” e “por vezes muito afastado das realidades mais duras e periféricas” da sociedade.
Já, no período de debate, Piedade Lalanda retomou esta ideia, reconhecendo que “a Igreja que dava primazia aos mais ricos existiu e continua a existir”, mas alertou: “Isso não combate a pobreza”. Defendeu uma mudança de atitude transversal: “Se um empresário, um professor, um enfermeiro agir de forma diferente, então podemos iluminar o presente”.
A necessidade de uma ação concreta e humanizada foi outro ponto forte, lembrando-se que a prática da compaixão deve ser uma prioridade na pastoral social da Igreja.
“O que dói na dor é não ter um ombro para chorar… a nossa indiferença carrega mais”, rematou o padre José Júlio Rocha.
Durante este encontro, Verónica Rego do Instituto de Segurança Social dos Açores, teve ainda tempo de elencar as linhas mestras da ação social desenvolvida pelo poder público.
No encerramento, Aldina Gamboa, diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social, deixou uma mensagem de esperança e compromisso coletivo: “A vossa presença é um sinal de primavera… que deste encontro brote uma vida nova para a pastoral social”. E concluiu com um apelo direto: “Saibamos estender a mão e abrir o coração… o mundo está a precisar de afeto, e ele não deve impedir-nos de intervir”.














