No dia em que começa O Ano da Vida Consagrada, o Sítio Igreja Açores ouviu o responsável pela Confederação dos Institutos Religiosos de Portugal em São Miguel, o Pe Pedro Coutinho.

Missionário em várias paragens em missões ad gentes, o Padre Pedro como é conhecido é sacerdote do Coração de Jesus (dehoniano) e atualmente é ouvidor da Lagoa, em São Miguel

 

Sítio Igreja Açores- A CIRP em São Miguel está empenhada em projetar a vida consagrada promovendo ações de sensibilização junto dos mais jovens. Como é que essas ações vão ser desenvolvidas?

Pe Pedro Coutinho- Nós estamos organizados por equipas de diferentes congregações e institutos tanto masculinos como femininos. Levaremos fisicamente a vida consagrada às paróquias e às escolas. Preparámos materiais para distribuir e apresentações da vida consagrada adaptados às idades. AS crianças e os jovens poderão dialogar e conviver com os religiosos e experimentar a sua simpatia!
 
Sítio Igreja Açores- Vivemos o ano da Vida Consagrada. Há um claro défice de vocações, sobretudo para a vida religiosa consagrada. Em seu entender a que é que isso se deve?

Pe Pedro Coutinho– A sociedade secularizou-se e não entende a linguagem do seguimento radical de Cristo. Faz confusão falar da sexualidade vivida no dom de si e na missão quando o significado se perdeu: faz confusão falar na vida doada que se torna fecunda, da liberdade ofertada no serviço que se aceita, no ser rico sem nada possuir…

O pior é que isto é o mais profundo da vida cristã. De repente, esta forma de vida, tornou-se uma flor no deserto, de raro perfume embora que tanto mais atrai quanto é rara e desconhecida. Diríamos que é demasiado de fora deste mundo tão bela e inacreditável. Mas ela é a joia da coroa da Igreja.

 

Sítio Igreja Açores – Hoje as famílias são mais pequenas. Há um pouco a ideia de que “dar um filho à igreja é perdê-lo”. Acresce também que a família vive menos os valores cristãos. Isso condiciona uma escolha do jovem?

Pe Pedro Coutinho- Muito. Quando a família crente se entrega ao Evangelho, os jovens recebem um estímulo maravilhoso para poderem ouvir o chamamento interior e de lhe responder com um coração livre mas apoiado num empurrão dos pais que simplifica tudo. Se eles encontram oposição das pessoas que mais amam, resfriam no seu entusiasmo. São também as comunidades cristãs que aninham as vocações ou que as combatem. Quantos desanimam por não encontrar compreensão nem apoio mesmo nos párocos? Foi esta grande fé o porto de abrigo de muitas gerações de açorianos que a levaram aos quatro cantos do mundo.
Sítio Igreja Açores- Ou a não opção por este caminho de serviço e de entrega radica noutras causas?

Pe Pedro Coutinho- Os consagrados têm a missão de despertar o mundo, como diz o Papa Francisco. Se o mundo não os ouve é porque o apelo é muito fraco ou porque as pessoas estão surdas. Penso que o problema está nos dois lados. O apelo torna-se inaudível se não for enérgico mas é preciso que não se lute contra a surdez crónica de muitos.

Há que considerar também o impacto negativo da falta de testemunhos credíveis dos consagrados. Os consagrados felizes e apaixonados por Jesus Cristo cativam porque a felicidade é atraente e respira-se pelo coração e arde no olhar mesmo naqueles e naquelas que no silêncio servem o Senhor, ao contrário do que muitos pensam. Basta ver as pessoas maravilhosas dos conventos de clausura.

Sítio Igreja Açores- Nos Açores há ainda algumas vocações sacerdotais, mas praticamente nenhumas para a vida religiosa consagrada. Porquê?

Pe Pedro Coutinho- O sacerdócio é mais visível e socialmente mais reconhecido. Longe da vista, longe do coração, diz o provérbio. Quantas vezes se fala positivamente da vida consagrada nas nossas famílias e nas nossas paróquias? Vem mencionada nas nossas homilias, nas reuniões com as crianças e os jovens, nas aulas de religião e moral? Aianda acreditamos e oramos pelas vocações? Estaremos motivados para fazer sagradolausperene pelas vocações como algures na diocese de Coimbra?
Sítio Igreja Açores- As congregações também não se abrem muito. Há, de resto, a convicção de que a vida religiosa é uma vida muito fechada. Isso influencia e determina escolhas….

Pe Pedro Coutinho- Sim, é verdade que não basta ser, também é preciso parecer e aparecer. Esta flor rara cultiva-se também no jardim das famílias e das paróquias. Faz falta o “catequista vocacional” mas esta flor rara tem de ser cultivada no jardim das nossas famílias, nas paróquias, estimada e acolhida como dom maravilhoso dado pelo Espírito que sopra onde quer… mesmo no deserto
Sítio Igreja Açores- Como é que se pode inverter esta tendência?

Pe Pedro Coutinho– Expliquemos a vida consagrada como “paixão”. Temos que fazer a experiência, provar e ver na consagração do batismo estes valores para depois passarem a ser assumidos de maneira radical e apaixonada. A vida consagrada é paixão. Ninguém se apaixona por quem não conhece. Estamos apaixonados por Cristo nas nossas famílias? Cultivamos essa paixão? Tratamos a vida consagrada como pedra preciosa de rara beleza e de grande valor? Penso que temos de ousar acreditar mais na vida consagrada, de estimá-la positivamente e de lhe dar o valor das joias de família.
 
Sítio Igreja Açores- Sempre houve períodos de maiores vocações e outros de menores. Aparentemente vivemos um dos piores períodos para as vocações. De que forma este ano da vida Consagrada pode chamar a atenção para “o inverno” de vocações?

Pe Pedro Coutinho– Gostava mais de chamar-lhe encruzilhada. É verdade que é preciso purificar certas formas de viver a vida consagrada que fizeram muito mal: ” o último combóio”, a vida religiosa como “fuga depois da frustração de matrimónio falhado” ou ” refúgio de pecadores”. Isso já não existe, graças a Deus. As pessoas têm de saber e de conhecer consagrados e consagradas felizes e realizados no dom da sua vida. Só os testemunhos poderão ser mestres.

Sítio Igreja Açores- E se as vocações genericamente são poucas, no campo masculino tenho ideia de que são menores, e muitas vezes tardias. Há alguma explicação para isso?

Pe Pedro Coutinho- Sim são muito menos. As pessoas hoje amadurecem mais tarde. Entregar a vida num momento de grande emoção é fácil. Ser fiel por toda a vida é de heróis. Não se pode fazer sem maturidade humana e espiritual nem no matrimónio quanto mais…

Sítio Igreja Açores- Que apelo/mensagem deixa aos mais jovens neste ano da vida consagrada?

Pe Pedro Coutinho- Não tenhas medo de arriscar e de dar o melhor de ti mesmo. Só quem entrega o Coração poderá fazer a experiência de um amor grande e apaixonado: Jesus é essa paixão. Ela dura eternamente.