Pelo Padre José Júlio Rocha

“O Louco de Deus no Fim do Mundo”, de Javier Cercas, é um testemunho único, vindo de fora, sobre a Igreja de hoje e os seus desafios. De facto, a Igreja também precisa aprender com o mundo e abandonar a autorreferencialidade com que, por vezes, se veste. Quando falo de autorreferencialidade refiro-me à atitude de quem tem sempre razão e não precisa aprender mais. Dou, como exemplo, a Reforma Protestante, o “caso Galileu”, ou o próprio “Modernismo” do século XIX. Em qualquer destes acontecimentos a Igreja, sentindo-se ameaçada, condenou e, sobretudo, renunciou a uma lição, uma aprendizagem, uma forma de se melhorar. Numa palavra, a autorreferencialidade é a Igreja não dialogar com o mundo. Tudo isso mudou – ao menos na aparência – com o Vaticano II.
Javier Cercas tem uma opinião pesada sobre a Igreja: «A história da Igreja é, de alguma forma, a história da perversão do cristianismo.» Porque diz ele isso? Porque o poder perverteu a Igreja. Não é o único que pensa assim. Jesus foi, para ele, um perigoso dissidente. Toda a Sua vida foi uma renúncia ao poder. Andava com pobres, publicanos e prostitutas, nas periferias de Israel, e a Sua presença, a Sua vida, causaram distúrbios na podridão do mundo onde vivia. Nos primeiros 300 anos, a Igreja viveu uma profunda fidelidade ao Evangelho. No entanto, o “constantinismo”, a liberdade da Igreja concedida por Constantino, instaurou o poder na Igreja, onde os papas se equiparavam aos imperadores e os bispos aos príncipes. Ora, segundo Cercas, quem tem poder quer conservar esse poder e esta é a fonte dos maiores males da Igreja. Com o Vaticano II e com a Sinodalidade, a Igreja parece querer regressar às origens, mas precisaria de muitos Papas Francisco.
Do ponto de vista teológico, Javier Cercas concede-nos uma experiência extraordinária. Cercas é o “louco sem Deus” que persegue o “louco de Deus” até à Mongólia, para lhe perguntar se, de verdade, a sua mãe vai encontrar, no céu, o seu pai, quando morrer. O louco sem Deus é o louco de Nietzsche, que, de lanterna na mão, salta para o meio do povo e grita: «Deus morreu! Fomos nós que O matámos!» É o grito de um século inteiro pela liberdade e pela vida, que só se consegue com o rebentar de todas as amarras que impeçam o eu de ser Eu, pleno, livre, sem cima nem baixo, sem norte nem sul, sem referências: o super-homem das massas. Uma das máximas do louco Nietzsche é a de que o cristianismo é uma religião de escravos, que renuncia à vida, à vida plena. Mas o que Nietzsche condenava era uma certa e precisa visão da Igreja. Cercas compreendeu isso como um profeta: afinal, o cristianismo é um grito de revolta contra a morte, Jesus mandou a morte para o inferno para nunca mais voltar e a Igreja precisa regressar a esta ideia de que ela é a celebração da vida em toda a sua beleza e dimensão, que ultrapassa os limites da morte e a vence.
O que mais impressionou Cercas na Mongólia foram os missionários, poucas dúzias. Não foram para ali impor a fé, não falam de Deus, de Jesus, da Igreja. Apenas servem, ajudam, amam, estão à disposição dos mais pobres dos pobres num país pobre. Quando as pessoas, impressionadas com o seu exemplo, lhes perguntam porquê, então chegou a hora de falar de Jesus e do Amor. Francesca, jovem médica italiana que deixou tudo para se meter na Mongólia a amar e a servir, impressionou o nosso homem. A Igreja das periferias, geográficas ou existenciais, pouco tinha a ver com a Igreja de Espanha, da Igreja da Inquisição, da Igreja franquista.
Já de regresso aos corredores do Vaticano, Cercas declarou, meio a sério, meio a brincar, aos muitos amigos que lá fez, cardeais incluídos: «Tenho uma solução para todos os problemas da Igreja: que todos os católicos se tornem missionários.»