Pelo padre José Júlio Rocha

Javier Cercas é um dos mais conceituados escritores de língua espanhola da atualidade. Aos 65 anos foi convidado por Lorenzo Fazzini, diretor da Editora Vaticana, para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia, em agosto de 2023. Dessa viagem de Javier surgiu um livro, “El Loco de Diós en el Fin del Mundo”, que eu considero, definitivamente, o melhor livro que li até 31 de dezembro de 2026, mesmo que para lá faltem dez meses. Terei oportunidade de discorrer sobre esse livro noutra crónica. O que me importa, agora, é uma frase que Cercas proferiu num discurso na sua região natal, a Extremadura espanhola: «Sou partidário feroz do aborrecimento na política».
Não podia estar mais de acordo com Cercas. A política deve constituir, para os cidadãos, um enorme bocejo, um bocejo, digamos, escandinavo. No verão passado estive na Suécia e na Dinamarca e a sensação que dá é que os políticos são mesmo servidores do povo. Mal se dá por eles. Não se ouvem gritos nem insultos assembleias, não há aqueles tiques fascizóides do culto da personalidade, o político não se mede pelos disparates que diz, mas pela capacidade de trabalho e de resolver os problemas. Lá, os políticos entendem o seu papel como uma comissão de serviço ao bem comum, não como uma carreira com louros e pompas.
As aventuras, as batalhas, as grandes emoções, a mim, apaixonam-me. Mas nos livros e no cinema, talvez no futebol. Não na vida política. A superior arte da política visa sobretudo o bem comum dos cidadãos. Se todos os políticos estivessem realmente interessados pelo bem comum de todos os cidadãos, o cenário era diferente: veríamos gente a trabalhar sem querer dar nas vistas, políticas sociais, económicas, educativas, de saúde, etc., que teriam o contributo de várias forças políticas, mesmo que antagónicas, porque não interessariam mais os argumentos tribais do meu partido do que o bem do país. O tribalismo na política tem a tendência a ser medonho.
Feliz o povo cuja história dá sono. Sim, porque a paz e a harmonia social não enchem as parangonas dos jornais. Mas às nossas praças presidem estátuas de cavalos empinados, montados por generais heroicos de heroicas guerras, e a guerra, desde Sun Tzu, é uma arte, e continua a ser louvada como corolário épico, em vez de ser o que sempre foi, o maior fracasso humano. Não há nada de heroico na guerra, a não ser a coragem dos soldados que enfrentam as balas. O resto é um execrável fracasso de tudo o que é humano.
E é a isto que o mundo assiste hoje, com uma passividade inquieta. Regressámos ao tempo dos heróis da guerra, da exaltação do culto da personalidade e dos nacionalismos exacerbados que deram origem às duas guerras mundiais. Quando a guerra se torna o lugar-comum para resolver questões geopolíticas, é tempo de procurarmos abrigo. Mas indigna-me sobremaneira que ninguém trave nem consiga travar os ímpetos criminosos de quem quer resolver todos os problemas do mundo em tempo recorde. Numa vinheta de Quino, o Manolito pergunta à Mafalda: “Se matássemos todos os bandidos do mundo, ficavam só os bons, não era?” Ao que Mafalda responde: “Não. Ficavam só os assassinos.”
A intervenção armada no Irão revela o caos da administração americana. Já, ao que parece, ninguém sabe precisamente o objetivo desta guerra que, convenhamos, já matou o Ayatola, o papa dos xiitas, com todo o peso brutal que isto tem. Se não mudar definitivamente o regime dos Ayatolas, esta guerra vai revelar-se uma catástrofe pavorosa e o Irão tornar-se-á, a nível de terrorismo, dez vezes pior.
“Pois assim”, já dizia Gil Vicente, “se fazem as cousas.”
*Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na coluna Dorsal Atlântica06