Papa alerta para crises “esquecidas” e sai em defesa da dignidade “inalienável” dos migrantes

Foto: Vatican Media
O Papa evocou hoje, no Vaticano, as crises humanitárias que devastam o Haiti, Mianmar e várias regiões de África, pedindo respeito pela dignidade “inalienável” de cada pessoa, com referência especial aos migrantes.

No seu discurso de Ano Novo ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, Leão XIV alertou para a “dramática situação” que se vive no Haiti, “marcada por todo o tipo de violência, desde o tráfico de seres humanos a exílios forçados e sequestros”.

“Faço votos de que, com o apoio necessário e concreto da Comunidade internacional, o país possa, o mais rapidamente possível, dar os passos necessários para restabelecer a ordem democrática, pôr fim à violência e alcançar a reconciliação e a paz”, declarou, numa intervenção pronunciada no Palácio Apostólico, perante diplomatas dos cinco continentes.

O Papa recordou também a situação na região africana dos Grandes Lagos, “assolada por violências que ceifaram inúmeras vidas”, e a guerra no Sudão, “transformado num vasto campo de batalha”, além da instabilidade no Sudão do Sul.

Em relação à Ásia, Leão XIV manifestou preocupação com a “grave crise humanitária e de segurança que aflige Mianmar, ainda mais agravada pelo devastador terramoto do passado mês de março”, apelando ao acesso rápido à ajuda humanitária.

Um dos pontos centrais da intervenção foi a defesa dos direitos dos migrantes e refugiados.

“Não se pode ignorar, por exemplo, que cada migrante é uma pessoa e que, como tal, possui direitos inalienáveis, que devem ser respeitados em todos os contextos. Além disso, nem todos os migrantes se deslocam por opção”, disse Leão XIV.

Renovo o desejo da Santa Sé para que as ações que os Estados empreendem contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos não se tornem pretexto para prejudicar a dignidade dos migrantes e refugiados.”

Leão XIV alertou ainda para os riscos da corrida ao armamento impulsionada pelas novas tecnologias, especificamente a inteligência artificial, defendendo a necessidade de dar seguimento ao Tratado New START sobre armas nucleares.

“A inteligência artificial é uma ferramenta que requer uma gestão adequada e ética, bem como quadros normativos centrados na proteção da liberdade e na responsabilidade humana”, afirmou, advertindo contra o perigo de um “sonho” de produzir novas armas cada vez mais sofisticadas.

O Papa concluiu o seu discurso com uma nota de esperança, citando exemplos positivos como os Acordos de Dayton, a Declaração de paz entre a Arménia e o Azerbaijão e a melhoria das relações entre o Vietname e a Santa Sé, classificando-os como “rebentos de paz, que precisam de ser cultivados”.

Foto: Lusa/EPA

No discurso, o Santo Padre mencionou o que considera  ser uma crise do sistema multilateral e das Nações Unidas, denunciando a substituição da diplomacia do diálogo por uma “diplomacia da força”, com apelos específicos sobre a situação na Venezuela.

“Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia”, declarou o Papa, propondo como inspiração o exemplo dos santos venezuelanos José Gregorio Hernández e Carmen Rendiles, canonizados em outubro de 2025.

Perante os embaixadores de mais de 180 Estados, incluindo Portugal, reunidos no Vaticano para a troca de votos de Ano Novo, o pontífice abordou crise no país sul-americano, “na sequência dos recentes acontecimentos”, após a intervenção dos EUA.

Leão XIV sublinhou a necessidade de “construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país”.

“O aumento das tensões no Mar das Caraíbas e ao longo da costa americana do Pacífico também suscita grande preocupação. Gostaria de renovar o meu urgente apelo para que se procurem soluções políticas pacíficas à atual situação, tendo em mente o bem comum das populações e não a defesa de interesses de parte”, disse.

O discurso alertou para a “fragilidade do multilateralismo no plano internacional”.

“Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados”, lamentou o pontífice.

No ano em que a ONU celebra o seu 80.º aniversário, o Papa pediu esforços para que as Nações Unidas “não só espelhem a situação do mundo atual – e não a do pós-guerra –, mas também sejam mais orientadas e eficientes na prossecução não de ideologias, mas de políticas que visem a unidade da família dos povos”.

“A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a II Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”, advertiu.

Leão XIV denunciou a violação sistemática do direito internacional humanitário, sublinhando que o seu respeito “não pode depender das circunstâncias e dos interesses militares e estratégicos”.

“Não se pode silenciar que a destruição de hospitais, infraestruturas energéticas, habitações e locais essenciais à vida quotidiana constitui uma grave violação do direito internacional humanitário. A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”, afirmou.

O Papa desejou que o multilateralismo recupere o seu papel de mediação para “prevenir conflitos, de modo que ninguém seja tentado a sobrepor-se ao outro pela lógica da força, seja ela verbal, física ou militar”.

A intervenção abordou ainda o significado da missão diplomática, que passa por “resolver conflitos através da força da razão e de uma determinação constante em trabalhar pelo bem comum”.

(Com Ecclesia e Vatican News)

 

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