Papa condena guerras travadas em nome “do poder e do dinheiro” e rejeita habituação à violência

Foto: Lusa

O Papa Leão XIV encerrou hoje a sua visita ao Principado do Mónaco com uma mensagem clara: a vida não se constrói apenas com dinheiro, mas com valores humanos e espirituais. Numa Missa no Estádio Luís II, o pontífice alertou para os perigos de uma sociedade dominada pela riqueza e pelo poder, e apelou à proteção da vida contra a “cultura do descarte”.

“As guerras que ensanguentam o presente são fruto da idolatria do poder e do dinheiro. Cada vida ceifada é uma ferida no corpo de Cristo. Não nos habituemos ao rumor das armas e às imagens da guerra!”, afirmou o Papa na homilia, diante de milhares de fiéis.

Leão XIV insistiu que “a paz não é um mero equilíbrio de forças, mas uma obra de corações purificados, de quem vê no outro um irmão a proteger, não um inimigo a abater”. Evocando o relato evangélico da condenação de Jesus, alertou que ainda hoje há planos traçados para “matar inocentes” usando “falsas razões”.

O pontífice denunciou a idolatria da riqueza, advertindo que “as coisas grandes e boas desta terra tornam-se ídolos, transformando-se em formas de escravidão não para quem delas carece, mas para aqueles que as têm em abundância, deixando o próximo na miséria e na desolação”. Para o Papa, libertar-se desses ídolos significa recuperar a liberdade frente ao poder, à cobiça e à vaidade.

Leão XIV exortou os católicos a demonstrar “autêntica alegria, que não se conquista com apostas, mas se partilha com a caridade”, promovendo cuidado pelas vidas nascentes e pelos idosos, saudáveis ou doentes. Pediu ainda a intercessão da Virgem Maria para que Mónaco seja “lugar de acolhimento, de dignidade para os pequenos e os pobres, de desenvolvimento integral e inclusivo”.

Nesta visita, o Papa também se dirigiu aos jovens, pedindo que resistam à dependência da aprovação nas redes sociais e preencham o “vazio interior” com oração e relação com Cristo, seguindo o exemplo de São Carlo Acutis. Encorajou-os a dedicar tempo e energia ao serviço dos outros, lembrando que “o bem é mais forte do que o mal” e que o testemunho da fé pode alcançar corações distantes.

Durante o encontro com catecúmenos, Leão XIV destacou que o testemunho cristão exige dedicação e não improviso, pedindo que levem o Evangelho para todas as áreas da vida, incluindo escolhas profissionais, empenho social e político, e cuidado pelos marginalizados.

O arcebispo do Mónaco, D. Dominique-Marie David, agradeceu as palavras do Papa, descrevendo-as como “exigentes e cheias de bondade”, lembrando que a identidade do Principado exige responsabilidade, abnegação e espírito de serviço.

Após a Missa, o pontífice despediu-se das associações eclesiásticas e leigas e dirigiu-se ao heliporto para concluir a sua visita relâmpago. A passagem de Leão XIV pelo Principado destacou-se pelo forte apelo à centralidade da vida humana, à solidariedade e à prática de valores que vão além do mero lucro, com um forte apelo à justiça social, advertindo contra as estruturas que criam desigualdades e pedindo a redistribuição da riqueza.

“Cada talento, oportunidade ou bem colocado nas nossas mãos tem um destino universal, uma exigência intrínseca de não ser retido, mas redistribuído, para que a vida de todos seja melhor”, disse, na saudação inicial dirigida ao povo do Principado.

Leão XIV sublinhou que a composição plural do pequeno Estado o torna num “microcosmo”, onde uma minoria de nativos convive com cidadãos estrangeiros, muitos dos quais ocupam “cargos de considerável influência nos setores económico e financeiro”.

“O Reino de Deus, ao qual Jesus consagrou a sua vida, está próximo, porque está no meio de nós e abala as configurações injustas do poder, as estruturas de pecado que criam abismos entre ricos e pobres, entre privilegiados e marginalizados, entre amigos e inimigos”, acrescentou, desde a varanda do Palácio do Príncipe.

Leão XIV recordou que o Mónaco é um dos poucos países a ter a fé católica como religião de Estado, desafiando a comunidade a ser uma presença que “não oprime, mas eleva”, e a assumir um compromisso especial com a “ecologia integral” e a Doutrina Social da Igreja num contexto “muito secularizado”.

“O dom da pequenez e uma viva herança espiritual empenham a vossa riqueza ao serviço do direito e da justiça, especialmente num momento histórico em que a ostentação da força e a lógica da prevaricação prejudicam o mundo e comprometem a paz.”

 

 

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