Parar, escutar e olhar: Fraústo Ferreira apela a uma nova atenção na educação dos filhos

Conferência “Educar para Crescer” desafia pais e educadores a regressar ao essencial

 

A conferência “Educar para Crescer”, proferida pelo professor José Manuel Fraústo Ferreira, que se realizou este sábado em Ponta Delgada, numa organização do Opus Dei, em São Miguel, convidou pais, professores e educadores a refletirem sobre o papel fundamental da família e da escola na formação das novas gerações. Em entrevista ao site Igreja Açores, o formador destacou a necessidade urgente de recuperar princípios básicos da educação, resumindo-os numa metáfora simples: “Temos de regressar ao letreiro das passagens de nível: parar, escutar e olhar.”

Segundo o especialista, educar começa antes de tudo pela atitude dos próprios pais.

“Os pais têm que parar. Têm que se escutar a si próprios antes de escutar os filhos”, afirmou. Para o professor, muitas famílias vivem hoje num ritmo acelerado que dificulta a reflexão sobre o que realmente significa educar.

“Os pais vivem a correr entre trabalho e responsabilidades e acabam por confundir dar tempo com dar coisas. Mas os filhos precisam, acima de tudo, de presença e de orientação.”

Durante a conferência, Fraústo Ferreira, professor da AESE Business School e com formação em Estudos e Ciências da Educação e Família pela Universidade de Navarra, sublinhou que a educação deve ir muito além do sucesso académico. Na sua perspetiva, o objetivo principal é ajudar os jovens a tornarem-se pessoas responsáveis, livres e com caráter.

“O meu filho não é meu”, explicou o orador. “É alguém que me foi confiado para ajudar a crescer.” Para ilustrar a ideia, recordou uma frase de um pianista que lera recentemente: “Não é por eu ter um filho que sou um bom pai, assim como não é por eu ter um piano que serei um bom pianista.”

O formador defendeu também que cada criança é única e que a educação deve ser personalizada.

“Educamos de forma geral, mas cada criança é irrepetível. Até os gémeos são diferentes”, afirmou. Por isso, os pais são os primeiros protagonistas da educação e têm um papel insubstituível, sendo a família a primeira escola de qualquer criança.

Outro tema abordado foi a importância de compreender os chamados períodos sensitivos, fases do desenvolvimento em que as crianças estão mais predispostas a aprender determinados hábitos, competências e valores. Entre os zero e os quinze anos, explicou o especialista, existem momentos especialmente favoráveis para adquirir virtudes, desenvolver capacidades físicas ou fortalecer valores humanos.

Fraústo Ferreira destacou ainda a importância da coerência entre o que os pais dizem e aquilo que fazem, reforçando o papel do testemunho.

“As crianças ouvem, mas sobretudo veem. Aquilo que os pais fazem marca muito mais do que aquilo que dizem”, recordou.

Além da dimensão intelectual, o orador salientou que a educação deve integrar várias dimensões da pessoa: o corpo, a mente, a vontade e as emoções. A formação da vontade, associada ao esforço e à perseverança, foi apresentada como um elemento essencial que muitas vezes está ausente tanto na escola como em casa.

O especialista alertou também para desafios atuais da sociedade, referindo que muitas famílias e escolas enfrentam dificuldades, desde a desmotivação dos professores à falta de disciplina e autoridade. A solução segundo o investigador passa por uma colaboração mais forte entre família, escola e sociedade.

Nesse sentido, defendeu a criação de “movimentos concêntricos de pessoas que querem ajudar”, promovendo formação para pais em paróquias, centros educativos e comunidades. “Educar é escutar, conhecer, compreender e ajudar os filhos a serem pessoas”, concluiu.

A conferência pretendeu, assim, lançar um convite à reflexão e à ação, recordando que educar exige tempo, dedicação e uma renovada consciência da responsabilidade partilhada entre pais, professores e toda a sociedade.

 

 

 

 

 

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