Publicações: Guerra no mundo ou sofreguidão à mesa são “pecados capitais” de quem rejeita ver no seu coração “o grande campo de batalha”

Foto Agência ECCLESIA/PR, Padre Mário Rui Oliveira
O livro “A Estrela e o Espelho”, do padre Mário Rui de Oliveira, recupera a “cartografia da alma” dos primeiros séculos do cristianismo para identificar os “pensamentos malignos” e o “grande campo de batalha” que impede “ceder” ao “amor desorganizado”.

Num estudo que ajuda a “compreender hoje os pecados capitais”, o padre Mário Rui Oliveira considera o tema “profundamente existencial” e uma “boa proposta para a cultura de hoje”.

“Mesmo que sejamos alérgicos ao tema ‘pecados capitais’, o tema existe também como uma provocação para cada um de nós”, disse o autor em declarações à Agência ECCLESIA.

Para o sacerdote, o “grande campo de batalha” sobre os “pensamentos malignos”, os “pecados capitais”, é o coração de cada um, mesmo que “a gente o queira ofuscar”.

“As guerras fora de nós, no exterior, existem porque, já antes delas, nós fizemos uma guerra ou ficámos derrotados na guerra dentro do nosso coração”, disse o autor que no passado, no Pico, orientou o último turno do retiro do Clero açoriano, justamente sobre este tema.

No livro “A Estrela e o Espelho – Compreender hoje os pecados capitais”, o padre Mário Rui de Oliveira identifica o que pode levar “até ao paraíso, até ao bem”, e também o que deixa cada pessoa colada ao “chão da terra, com o peso da gravidade, com a vaidade”, refém de uma reflexo “desordenado” de si mesma.

Para o sacerdote da Arquidiocese de Braga, para não ceder aos “pensamentos malignos” é necessário um “coração que combata, que leva a sério a luta espiritual e que se reconhece, que faz uma análise do que é a sua alma”.

No livro publicado pelas Edições Paulinas, o padre Mário Rui de Oliveira recupera a figura de Evágrio Pôntico, um monge, padre do deserto do século IV, que é “um grande cartógrafo, um anatomista do espírito” e o primeiro a identificar os “pensamentos malignos” que assaltam todas as pessoas, “mais cedo ou mais tarde”.

“Não são coisas que nascem no nosso coração, não nascem de Deus, estão fora do Espírito. Aquilo que depende de nós, sim, é o permanecer, é ceder, dar lugar a que essas paixões nos dominem”, afirmou.

“Nós vivemos alienados e alheados daquilo que é fundamental. A vida espiritual, a análise e o estudo da alma humana é fundamental hoje para que a pessoa viva em paz, antes de mais, com si própria, com os outros e com o meio ambiente que nos circunda”.

No livro “A Estrela e o Espelho”,  o padre Mário Rui de Oliveira explica os oito pensamentos malignos enumerados por Evágrio Pôntico – a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a tristeza, a acédia, a inveja ou a vanglória e o orgulho ou soberba – e identifica contextos da atualidade onde são refletidos e concretizados.

No século VII, os oito pensamentos malignos de Evágrio Pôntico foram sistematizados pelo Papa Gregório Magno nos atuais sete pecados capitais, que retirou a tristeza, por não a considerar um “ato moral”, mas “uma atitude que permeia o ser humano”.

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Na entrevista à Agência ECCLESIA, o autor comenta cada um dos “pensamentos malignos”, referindo-se à gula como origem de “um espírito de embriaguez, de sofreguidão, de violência”; ao combate à luxúria como “a mais longa de todas as batalhas”, que está na origem, por exemplo, dos abusos sexuais e de poder; à avareza como um “mal social”, que promove uma “relação doentia, patológica, com os bens e sobretudo com o dinheiro”.

Depois dos três “pensamentos malignos” que correspondem às três tentações de Jesus, o autor refere-se à ira como algo “muito violento” que aproxima o humano dos animais; diz que a tristeza e a acédia é uma “doença da alma”, uma “espécie de um desinteresse generalizado pela vida”; coloca a inveja e a vanglória no interior do mundo eclesiástico, “claro que sim”, e um “perigo a combater com muita força” nas sociedades; e refere-se ao orgulho como uma “hipertrofia do eu”, o “vício mais grave” que está na origem de males maiores, como a guerra.

O padre Mário Rui de Oliveira foi ordenado sacerdote em 1997, em Braga, estudou Teologia e Direito Canónico em Roma, onde vive e trabalha desde 2007, no Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, tendo sido nomeado chefe da Chancelaria do mesmo, em 2024.

(Com Ecclesia)

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