Quanto vale a consciência de um homem só?

Por Carmo Rodeia

“As guerras que ensanguentam o presente são fruto da idolatria do poder e do dinheiro. Cada vida ceifada é uma ferida no corpo de Cristo. Não nos habituemos ao rumor das armas e às imagens da guerra!”, afirmou este sábado o Papa  Leão XIV na homilia, que encerrou a sua visita relâmpago, e até inusitada à primeira vista, ao Principado do Mónaco, o único lugar europeu, à excepção do Vaticano, a ter a fé católica como a religião de Estado.

Talvez esta seja uma primeira razão para esta visita. Pelo menos no que toca a uma leitura rápida, tomando como bons os números dos últimos relatórios da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre que afirmam peremptoriamente que os cristãos são hoje o grupo mais perseguido no mundo inteiro por causa da sua opção religiosa.

Mas, prosseguindo nas mensagens deixadas por Leão XIV – “a paz não é um mero equilíbrio de forças, mas uma obra de corações purificados, de quem vê no outro um irmão a proteger, não um inimigo a abater”-  evocando o relato evangélico da condenação de Jesus, descortinamos mais uma explicação para esta visita. Num “microcosmo” que é o principado, onde uma minoria de nativos convive com cidadãos estrangeiros, muitos dos quais ocupam “cargos de considerável influência nos setores económico e financeiro” mundiais, o Papa não poupou nos alertas e nas advertências, lembrando que ainda hoje há planos traçados para “matar inocentes” usando “falsas razões”.

Já antes, quando iniciou a visita tinha deixado  um forte apelo à justiça social, advertindo contra as estruturas que criam desigualdades;  lembrando que cada talento, oportunidade ou bem colocado nas nossas mãos tem um destino universal, uma exigência intrínseca de não ser retido, mas redistribuído, para que a vida de todos seja melhor.

Assim, de chofre, com estas três mensagens consegui encontrar razões que tornaram esta visita,  que à partida não percebia, como sendo de uma oportunidade extrema. Afinal, estamos a falar de um país com 2 km2, onde reside o maior número de estrangeiros por m2- os locais são uma minoria- e onde há a maior concentração de dinheiro, de carros, casas e iates de luxo. Onde, pura e simplesmente não há lugar para pobres. Talvez seja este o palco mais adequado para lembrar ao mundo que o modelo económico e social vigente não promove a dignidade humana, cria desigualdades gritantes e impede a redistribuição da riqueza.

De repente a notícia da televisão passava para a guerra que os Estados Unidos, empurrados por Israel, encetaram contra o Irão, desestabilizando o Médio Oriente e arrastando o mundo inteiro para uma crise global sem precedentes.

E, então, surgiu-me a pergunta: quanto vale a consciência de um homem? A pergunta pode parecer estúpida. Cito o presidente dos Estados Unidos, quando há dois meses, questionado por um jornalista do New York Times, em janeiro deste ano, afirmou que a sua consciência era o único limite ao seu poder, enquanto presidente norte-americano, descartando assim o direito internacional como pretexto para atacar outros países. Bem sei que a consciência de um homem e o direito internacional pertencem a esferas diferentes, ainda assim profundamente ligadas. A consciência de um homem, isoladamente, pode ser limitada por crenças pessoais, interesses ou pela cultura em que está inserido. O direito internacional funciona como um parâmetro mais amplo, tentando estabelecer valores mínimos comuns à humanidade, como a dignidade, a paz e a igualdade, corrigindo os desvios da consciência individual quando esta falha ou se agiganta diante do poder. Mas, de imediato me vieram à memória outros exemplos, exatamente contrários. Homens e mulheres, movidos por indignação diante da guerra, do genocídio, da escravidão e das injustiças, que construíram tratados, convenções e tribunais. Sem a consciência moral destes indivíduos, a lei internacional seria apenas um conjunto de palavras sem espírito. Nova dificuldade para encontrar a ponta da meada e a resposta à minha pergunta a tocar a retórica…

O mundo precisa de facto de profetas, mas como dizia o papa São João Paulo II, no final da Guerra Fria, precisa de profetas desarmados , capazes de promover aquela paz “desarmada e desarmante” pedida pelo papa Leão XIV quando foi eleito ainda não tem um ano, a 8 de maio de 2025. Para esta paz tem de vigorar o principio da reciprocidade, tão querido à Doutrina Social da Igreja. Mas infelizmente quem faz a guerra tem votos e quem faz a paz, ou a tenta, morre.

Num mundo tribalizado, liderado pela consciência moral de quem apenas semeia o ódio, e vê no migrante, no estrangeiro, naquele que pensa de maneira diferente ou tem interesses diferentes não coincidentes com os seus, a paz é mesmo uma utopia. Porque a paz constrói-se com humildade e não com arrogância, com paciência e não com tweets, com descrição e não com mediatismo, com racionalidade e não com impetuosidade.

Entramos este domingo na Semana Santa, a maior de todas as semanas. Jesus, inocente, foi envolvido numa espiral de violência, rejeição e injustiça, onde interesses humanos, medo e ódio falaram mais alto do que a verdade e a dignidade da vida. No caminho da cruz, vemos refletido o sofrimento de tantos povos feridos pela guerra, vítimas de decisões que ignoram a justiça e a compaixão. Mas é precisamente nesse cenário de dor que a Paixão nos revela um caminho novo: o da entrega, do perdão e do amor que vence a morte.

Olhando para o mundo, diria que a consciência de um homem pode valer mais que qualquer tratado. Que o diga o milhão de deslocados do Líbano no espaço de um mês.  Mas é uma vergonha e um mal para toda a humanidade, que sairá sempre derrotada.

Boa Semana Santa.

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