Quanto vale uma vida transformada? O compromisso da comunidade

“Movimento Comunidades Vivas” foi lançado esta segunda-feira na ilha Terceira, no âmbito da Semana Nacional da Cáritas. Envolve a Diocese de Angra e a Cáritas da ilha Terceira numa parceria concreta com as entidades que estão no terreno e que lutam contra a pobreza

Foto: Igreja Açores/HS

 

Foi lançado esta segunda-feira, na ilha Terceira, o “Movimento Comunidades Vivas”, um projeto piloto que pretende mobilizar as comunidades locais para uma resposta mais próxima, articulada e eficaz no combate e erradicação da pobreza.

Numa primeira fase, o projeto envolve quatro comunidades: São Mateus, Santa Bárbara, Vila Nova e a cidade de Angra do Heroísmo. Este é o culminar de nove meses de trabalho em formato de laboratório social, marcados por escuta ativa, diagnóstico participado e identificação de forças e fragilidades no terreno, em parceria com organismos sociais, movimentos e obras da Igreja e voluntários.

Ao longo deste processo, foi realizado um mapeamento das necessidades e dos recursos existentes (que irá prosseguir), bem como uma análise das respostas já implementadas. Confirmou-se que existe pobreza visível, mas também pobreza silenciosa e envergonhada, que exige uma abordagem mais atenta e relacional.

O “Movimento Comunidades Vivas” parte de uma convicção clara: a resposta à pobreza tem de nascer da própria comunidade – da sua capacidade de escutar, de conhecer, de identificar situações escondidas e de agir com proximidade e responsabilidade através de um planeamento cuidado. Assume-se como um movimento dinâmico, em permanente construção, aberto a novas comunidades e a novos parceiros. O objetivo é criar um modelo sustentável, replicável noutras realidades e capaz de gerar impacto duradouro.

O compromisso é claro: combater a pobreza a partir da comunidade, construir respostas com rosto e garantir que ninguém fique isolado ou sem apoio. Porque uma sociedade só é verdadeiramente forte quando a ajuda chega antes mesmo de ser pedida e quando todos caminham juntos na mesma direção.

Inspirado pelo espírito de colaboração e corresponsabilidade, o movimento assume como lema a expressão: “Ajuda-me a ajudar.”

Este apelo traduz a essência do projeto: fortalecer quem já cuida, apoiar quem já está no terreno e criar condições para que mais pessoas possam envolver-se.

“O objetivo não é substituir instituições, nem duplicar respostas. Pelo contrário, pretende-se articular com as autoridades civis, com os grupos e movimentos da Igreja e com todas as entidades públicas e privadas, potenciando os recursos existentes e promovendo complementaridade” afirmou Natal Sousa, diretora da Cáritas da ilha Terceira que juntamente com a Diocese são os dois pilares deste Movimento que procura, assim, prosseguir um dos pilares fundamentais da Igreja que é cuidar do próximo.

O modelo do “Movimento Comunidades Vivas” estrutura-se em três eixos fundamentais. O primeiro é a criação e fortalecimento de comunidade, promovendo espaços estruturados de partilha, cooperação e planeamento conjunto, garantindo que os processos não dependem apenas das pessoas, mas se consolidam no tempo. O segundo é a capacitação e o acompanhamento, através de formação técnica e social, apoio de proximidade e criação de instrumentos práticos que ajudem a responder às situações concretas. O terceiro é a articulação e comunicação, reforçando a ligação entre respostas locais e centrais, promovendo boas práticas e dinamizando voluntários.

Planeamento como ato de responsabilidade

Uma das mensagens centrais do lançamento foi a importância de planear o combate à pobreza. Se planeamos tantas dimensões da vida, por que não planear também, de forma estratégica, a sua erradicação? Planear significa conhecer, escutar e alocar recursos em função das necessidades reais, a partir de cada rua, cada bairro e cada história concreta, e não com soluções generalistas desenhadas à distância pois a pobreza merece ser pensada, estruturada e enfrentada com método e compromisso.

O movimento parte da certeza de que existem enormes forças nas comunidades: forças de quem cuida, de quem ajuda, de quem não fica indiferente.

“Essas pessoas merecem ser apoiadas com recursos, formação e acompanhamento” afirmou  ainda Natal Sousa.

O encontro de lançamento reuniu cerca de 70 participantes e marcou o início formal deste Movimento, mas também um momento de co-construção. Foi lançado o desafio de crescimento e multiplicação: se cada pessoa envolver mais uma, o movimento duplica e isso é fundamental pois a erradicação da pobreza exige “compromisso coletivo, consciência da vulnerabilidade comum e a decisão firme de não deixar ninguém para trás”, afirmou D. Armando Esteves Domingues.

“Quero agradecer de forma muito especial aos pastores que, no dia a dia, trabalham de forma mais institucional com a Cáritas e colaboram já em tantos projetos nas nossas comunidades. Acredito que, nos próximos tempos, conseguiremos fortalecer ainda mais esta pastoral mais incisiva, mais próxima e mais presente” referiu o bispo de Angra no evento que lançou este Movimento e que contou com a presença de autarquias, organismos de intervenção social e dezenas de voluntários.

“Acima de tudo, quero agradecer a presença de todos vós e felicitar-vos pelo grande trabalho que realizam nas vossas comunidades. A vossa participação aqui é mais um sinal claro da dedicação e do amor ao próximo que vos move. Estais aqui porque quereis fazer mais, porque quereis estar presentes e porque não vos resignais perante as necessidades. Essa disponibilidade generosa é um verdadeiro testemunho e um sinal de esperança para a nossa Igreja e para a sociedade”, disse ainda o prelado diocesano.

“As comunidades visitadas até agora revelaram uma enorme força: a força de quem cuida, de quem ajuda, de quem não fica indiferente perante a necessidade do outro. São essas pessoas que o movimento quer apoiar com recursos, formação e acompanhamento. Porque fortalecer comunidades significa dar-lhes meios, tempo para planear e capacidade para decidir o seu próprio futuro com maior impacto social” disse por seu lado a dirigente da Cáritas da ilha Terceira.

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