Por Renato Moura

A comunicação social fez-nos saber coisas relevantes. O Ministro das Finanças britânico, Rishi Sunak, renunciou ao cargo em protesto contra o seu 1.º Ministro Boris Johnson. Justificou: “O público, com razão, espera que o governo seja conduzido de forma adequada, competente e séria. Reconheço que este pode ser o meu último cargo ministerial, mas acredito que vale a pena lutar por esses padrões e é por isso que me demito”. Também o Ministro da Saúde, Sajid Javid, se demitiu, alegando: “Está claro para mim que esta situação não mudará sob a sua liderança [de Boris Johnson] e, consequentemente, ele perdeu a minha confiança”. Corajosos pioneiros de um honroso processo de ética política.

Seguidamente dezenas de detentores de cargos políticos no governo conservador, engrossaram a onda de demissões. Muitos deputados, do próprio partido do governo, pronunciaram-se, livre e frontalmente, pressionando a demissão de Johnson. Consequência: o 1.º Ministro resistente de várias crises e sempre persistente em manter-se no cargo, não teve outro remédio que não fosse o de anunciar a sua demissão.

Conclui-se, mais uma vez, que por lá a disciplina dos deputados não impede o dever de fiscalização dos governantes do seu partido e a pertença ao governo não tolhe o exercício da responsabilidade cívica. Curioso comparar com a tradicional e recente prática em Portugal; e opinar.

Em Portugal discutiu-se uma moção de censura. Independentemente de quem a promoveu e do resultado previsto, a verdade é que o Governo foi sujeito a um conjunto de censuras reais e justificadas, vindas de todas as bancadas da oposição. O ar risonho e galhofeiro exibido pelo 1.º Ministro e muitos membros do governo, é indesculpável, é desrespeitador. Acresce a dificuldade e ausência de humildade no reconhecimento dos erros. Não se pode defender o indefensável.  Contrapôs-se em catadupa de promessas boas. A propósito: “O nosso povo sabe que se algo é demasiado bom para ser verdade, então não é verdade” disse também Sunak; e vale igualmente em Portugal.

A maioria absoluta não justifica tudo. A arrogância que impede a identificação de erros nem sequer aproveita aos partidos de governo. Cedo, ou mais tarde, pagarão por eles. A “primeira pessoa” que nos Açores deteve uma maioria absoluta, tomou as reeleições como satisfação absoluta dos eleitores, deixou de atender às construtivas críticas internas e às justas censuras parlamentares. O partido pagou com longuíssimo afastamento do poder.

Outros repetiram o crasso erro, ou estão a repeti-lo.