Renascer das cinzas

Por António Pedro Costa

Foto: António Pedro Costa

 

Algo terá acontecido por estes dias em França. Um dos países mais laicos da velha Europa acordou e uma multidão incontável abeirou-se do Papa Leão XIV, num dos muitos sinais do extraordinário fervor popular em torno daquela visita. O entusiasmo levou alguns observadores a perguntarem se a visita do Papa poderia marcar uma nova etapa no despertar religioso já visível no notável aumento de batismos de adultos na França.

Através da televisão a sensação com que fiquei diante das imagens que chegaram foi de que a secularizada França renasceu das cinzas e encontrou-se consigo própria. Paris, a cidade que tantas vezes se apresenta ao mundo como capital da razão, da liberdade e da secularização, apareceu subitamente coberta por uma multidão. Milhões de pessoas nas ruas ao longo da visita. Jovens. Famílias. Idosos. Peregrinos. Católicos vindos de longe. E, no centro de tudo, o Papa Leão.

Mas foi uma praça que contou talvez a história mais eloquente. Na Praça da Concórdia, onde durante a Revolução Francesa a guilhotina ceifou milhares de vidas, fiquei impressionado com as 800 mil pessoas reuniram-se para a Missa. O lugar onde a França revolucionária executou reis tornou-se, séculos depois, lugar de oração.

É uma dessas coincidências da história que parecem escritas por um romancista. Ali estiveram Luís XVI e Maria Antonieta. Ali caiu a lâmina que pretendia inaugurar uma nova era. E ali, muito tempo depois, uma multidão voltou a reunir-se, não para assistir à morte, mas para celebrar a vida.

E depois vieram os jovens. Na vigília, dezenas de milhares encheram o Estádio de França. O mesmo estádio que conhece o ruído dos grandes acontecimentos desportivos foi transformado numa imensa assembleia de oração. E então aconteceu uma coisa extraordinária. Milhares de jovens começaram a cantar em latim a Salve Regina, uma coisa que nunca imaginei. Nesta França entre uma geração que cresceu num continente onde a religião parece, tantas vezes, pertencer ao passado. E, no entanto, aquelas palavras antigas saíram das bocas de uma multidão jovem com uma força que não parecia arqueológica, mas viva.

Talvez uma das imagens mais poderosas da visita foi uma menina de 13 anos, a Eva, cantando diante do Papa, e percebeu-se o quanto Leão XIV ficou impressionado. Um estádio inteiro transformado em igreja. E, por trás deles, a longa memória de uma nação.Porque a França não é apenas a República que conhecemos. Foi contada a verdadeira história da França, num espetáculo deslumbrante que ultrapassou as últimas olimpíadas. No Estádio viu-se Clóvis e o seu batismo. Houve São Martinho, São Dinis e os mártires. Houve os mosteiros, as catedrais e os santos. Houve São Luís IX, que trouxe para Paris a Coroa de Espinhos de Cristo. Houve Joana d’Arc, que entrou na história como poucos personagens conseguem entrar. Houve os mártires da Revolução. Houve, finalmente, uma pequena carmelita de Lisieux, Teresa, que faria da sua vida escondida uma das maiores histórias espirituais do século XX.

Essa história foi evocada diante dos jovens. Não como uma aula de História, mas como uma espécie de memória viva. Como se, por algumas horas, a França tivesse aberto o seu enorme álbum de família e mostrado aos seus filhos de onde vinha.

Durante décadas, a França foi apresentada como um dos grandes laboratórios europeus da secularização. A religião foi empurrada para a esfera privada. As igrejas esvaziaram-se. A linguagem cristã deixou de ser compreendida por muitos. A França é o país mais laico da Europa, onde está proibido que se ensine religião católica nas escolas e que os funcionários usem uma cruz sobre o pescoço ou uma medalha da Virgem. No entanto, de repente, Paris enche-se de gente.

Não foram apenas idosos. Não foram turistas religiosos, mas foram muitos jovens que cantaram. Cantaram em latim.

Talvez seja cedo para saber o que tudo isto significa. Uma multidão não muda, por si só, uma sociedade. Uma visita papal não resolve séculos de conflitos entre a Igreja, a República e a cultura francesa. Mas a história também é feita de imagens.

A imagem da Praça da Concórdia cheia de fiéis ficará. O Estádio de França em oração. Uma menina de 13 anos diante do Papa. E milhares de jovens cantando Salve Regina na língua na língua oficial da Igreja Católica, que muitos consideram uma linguagem dos antepassados. Por alguns dias, a França secularizada não deixou de ser secularizada. Mas mostrou que ainda se lembrava de cantar para acompanhar a visita que terminou em Lurdes onde 200 mil reuniram-se para louvar Maria ali aparecida.

 

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