Romarias Quaresmais arrancam sábado com 53 ranchos em São Miguel e apelo forte à esperança

Movimento de Romeiros elegeu o título da Carta Pastoral de D. Armando Esteves Domingues para mote das Romarias: Batizados na Esperança

Foto: Igreja Açores/CR

As estradas e atalhos de São Miguel voltam a encher-se de oração e cânticos já este sábado, com o arranque das Romarias Quaresmais de 2026. Ao todo, sairão este ano 53 ranchos na ilha, num número ligeiramente inferior ao habitual, considerado “mais fraco” pela organização, mas ainda assim revelador da vitalidade de uma tradição secular profundamente enraizada na identidade açoriana.

Neste primeiro sábado partem 11 ranchos: Cabouco, São Pedro de Ponta Delgada, Candelária, Várzea, Santa Bárbara, São Roque, Ribeirinha, Ribeira Quente/Furnas, Milagres, Calhetas e ainda o rancho de Toronto, que sai e entra do Santuário do  Senhor Santo Cristo. Para além de São Miguel, há também romarias em São Jorge, na Terceira e na Graciosa.

Sob o lema “Batizados na Esperança”, as romarias deste ano arrancam oficialmente a 21 de fevereiro e apresentam-se como um tempo forte de conversão, oração e compromisso cristão.

Foto: Igreja Açores/CR

Bispo propõe 14 intenções marcadas por forte dimensão social

D. Armando Esteves Domingues, desafiou os romeiros açorianos a orientarem a sua caminhada espiritual por 14 intenções de oração, numa proposta que cruza a tradição micaelense com as grandes feridas do mundo contemporâneo.

Logo na primeira intenção surge o apelo à oração “pelo Santo Padre, o Papa Leão XIV e todas as suas intenções”, alargando-se depois à paz no mundo e à concórdia entre os povos.

Mas é sobretudo na dimensão social que a mensagem episcopal ganha relevo. O prelado pede oração pelas famílias — especialmente as que atravessam dificuldades —, pelos idosos, doentes e vítimas de tempestades, pelos jovens que caíram nas drogas e outras dependências, pelas vítimas de violência doméstica e por todos os que vivem situações de pobreza, desemprego ou exclusão.

Há ainda intenções pelas vocações, pelos sacerdotes, religiosos e leigos empenhados nas comunidades, bem como por todos os romeiros doentes ou em provação. A lista culmina com um desejo-síntese: que todos os cristãos da Diocese de Angra sejam fiéis ao Batismo e a Cristo, “a nossa Esperança”.

Segundo os responsáveis do movimento, esta mensagem distingue-se de outras épocas por uma abordagem “muito social, virada para o mundo atual”, tocando realidades que afetam diretamente as famílias açorianas — desde as dependências ao álcool, passando pela violência doméstica e pelas fragilidades que se instalam nos lares.

Foto: Rádio Renascença (Arquivo)

Preparação espiritual, física e cívica

Os ranchos estão há mais de três semanas em reuniões semanais de preparação. A organização sublinha três dimensões essenciais: espiritual, prática e física.

Na vertente espiritual, o recente retiro no Nordeste forneceu bases de formação que cada irmão mestre adapta à realidade do seu rancho. A oração, o estudo da Bíblia e a devoção a Nossa Senhora continuam a marcar o ritmo das preparações.

Mas há também uma forte componente cívica. Os romeiros pernoitam em salões e casas de família, o que exige sentido de responsabilidade e bom comportamento.

“Queremos continuar a fazer o que sempre foi bem feito”, sublinha Rui Melo, presidente da Comissão Administrativa que organiza este ano as Romarias em nome da Direção do Movimento, reforçando que a romaria não se esgota na peregrinação: começa na Páscoa e prolonga-se no quotidiano, na forma de viver em família, no trabalho e na comunidade.

“A romaria é uma vida”, afirma. Caminhar pode deixar dores físicas, mas oferece alimento e alento espiritual para todo o ano. Não se procuram homens perfeitos, mas pessoas disponíveis para, todos os dias, tentarem viver os valores do Evangelho.

Foto: José Maria Sousa/IA

Uma escola de vida que transforma

Entre os muitos testemunhos destaca-se o de José Maria Sousa, mestre do rancho dos Milagres, Arrifes, há cerca de 35 anos e romeiro há 48. Este ano sairá com cerca de 45 irmãos — menos do que os 55 do ano passado —, com idades entre os 9 e os 72 anos.

Para José Maria Sousa, explicar o encanto da romaria “não é fácil por palavras”. Fala de silêncio, introspeção e união fraterna. “É uma semana extraordinária”, diz, descrevendo os caminhos descampados onde o silêncio permite rever a própria vida e assumir um firme propósito de mudança.

Como mestre, assume a responsabilidade de coordenar, mas insiste em ser apenas “o irmão José Maria”. A preparação prática é hoje, garante, muito mais cuidada do que no passado, o que faz da romaria “uma verdadeira escola de vida”.

E os frutos prolongam-se no tempo: “Quem já foi uma vez na romaria nunca mais é a mesma pessoa”, assegura, convicto de que a experiência transforma atitudes e reforça o respeito pelo próximo.

Esperança, apesar das dificuldades

O ano passado ficou marcado por chuva intensa e temperaturas que chegaram aos quatro graus no Nordeste. Para 2026, os romeiros esperam melhores condições meteorológicas, conscientes de que o clima também influencia o ânimo da caminhada.

Mas, acima de tudo, esperam renovar a esperança. Pedirão pela paz no mundo, pelas famílias em sofrimento e por todos os que enfrentam dificuldades.

“A romaria é uma caminhada de fé, de oração, de penitência e de sacrifício, com um firme propósito de mudança de vida”, recorda o mestre.

Ao longo dos caminhos voltará a ecoar a jaculatória que atravessa gerações:

“Seja sempre bendita e louvada a sagrada Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

No compasso lento dos passos e das Avé-Marias, tradição e atualidade voltam assim a encontrar-se, numa peregrinação que é, para muitos, mais do que um percurso de uma semana: é um modo de viver o ano inteiro.

As Romarias Quaresmais de São Miguel ãso uma tradição secular (desde o séc. XVI) e uma das mais importantes expressões de fé nos Açores, onde ranchos de homens percorrem a ilha a pé durante a Quaresma, visitando igrejas e ermidas de Nossa Senhora em oração e penitência.

Os romeiros trajam com xaile, lenço, bordão e terço, contornam a ilha no sentido dos ponteiros do relógio (com o mar à esquerda), visitando cerca de 100 locais de culto ao longo de uma semana.

Esta tradição surgiu como resposta religiosa a catástrofes naturais (sismos e erupções vulcânicas) no século XVI, buscando proteção divina. Decorre entre  o primeiro sábado da Quaresma e a Quinta-Feira Santa.

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