Este domingo termina a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, uma oportunidade que levou a Conferência Episcopal Portuguesa a lançar a Carta Ecuménica Europeia em Portugal

A nova Carta Ecuménica, publicada esta semana em Portugal no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, representa “um chamamento à paz” e “um roteiro exigente de compromisso espiritual e social para as igrejas europeias”.
A afirmação é de Francisco Almeida Medeiros, coordenador da Comissão Diocesana do Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, que sublinha a urgência de um testemunho cristão conjunto num continente marcado por conflitos, tensões identitárias e desafios migratórios.
Segundo o responsável, o documento ― dirigido tanto à Conferência das Igrejas Europeias como ao Conselho das Conferências Episcopais da Europa ― coloca as comunidades cristãs “no caminho da paz, com coragem para ouvir, reconciliar e servir juntas”. Num mundo “marcado por conflitos, alguns bélicos e muitos de palavra”, a Carta recorda que a humanidade “tem de reconhecer a sua condição de criatura” num tempo em que a tecnologia e o poder político parecem sugerir o contrário, afirma o advogado que é o entrevistado do programa Igreja Açores este domingo e que vai para o ar depois do meio-dia na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra.
Para Francisco Medeiros, temas como a paz, as migrações e a justiça social “têm de ser colocados em cima da mesa sem medo”. E lança a pergunta: “Se as igrejas não conseguem caminhar juntas, como pode a Europa aprender a viver junta?” A Carta reforça, por isso, o apelo ao acolhimento, proteção, promoção e integração de migrantes e refugiados, lembrando que estes não podem ser vistos como um problema, mas como pessoas.
O coordenador reconhece que as feridas históricas e desconfianças entre confissões ainda pesam, alimentando caricaturas, superioridades morais e divisões. Mas defende que a unidade deve nascer “da conversão, da purificação das motivações e do coração aberto”, evitando um ecumenismo meramente simbólico e sem impacto real.
“A unidade não significa apagar diferenças nem cair num cadinho onde tudo se mistura”, afirma.
“Cresce quando rezamos juntos, quando ouvimos uns aos outros, quando servimos e até quando sofremos juntos”, diz ainda.
Este dinamismo, acrescenta, exige humildade e autenticidade: “Se cada um não aceitar perder um pouco do seu ego, ficamos todos na mesma.”
A cruz, recorda, é o critério fundamental da unidade: despojamento, renúncia, fidelidade e rejeição de qualquer lógica de poder ou domínio cultural.
“A unidade nunca pode ser colonização” afirma numa entrevista que pode ser também ouvida em podcast aqui no Sítio Igreja Açores ou nas plataformas sociais Itunes e Spotify.
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos termina este domingo com uma celebração que, este ano, contará novamente com a participação da Igreja Presbiteriana Portuguesa. Mas Francisco Medeiros sublinha que o diálogo ecuménico “não é um tema de calendário, é um caminho”, que requer perseverança e gestos concretos ao longo de todo o ano.
Recém-chegado à coordenação, adiantou que pretende começar por realizar “um levantamento sociológico das comunidades cristãs existentes nos Açores”, mapeando origens, composição, necessidades e ações sociais. Só então, explica, será possível aprofundar relações de proximidade e desenvolver iniciativas conjuntas, especialmente no campo social e caritativo, com atenção particular às famílias migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Com cerca de 7 mil migrantes de quase 100 nacionalidades a residir no arquipélago, e com a presença crescente de comunidades evangélicas, ortodoxas e de outras tradições religiosas, a Comissão pretende igualmente reforçar o diálogo inter-religioso. “O diálogo faz-se para conviver”, afirma, destacando a importância de identificar estes grupos e trabalhar com todos “para o bem comum”.
À entrada do primeiro ano de um triénio dedicado ao anúncio, Francisco Medeiros espera que a aprovação da Carta Ecuménica de 2025 sirva de impulso para um compromisso mais profundo com o diálogo e a cooperação.
“O essencial é ensinar a caminhar com outras confissões e religiões sem julgar ninguém”, conclui. “Qualquer igreja fechada em si própria não constrói a paz — e esse é o propósito fundamental.”
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