Romaria da Comunidade de Nossa Senhora de Fátima reúne cerca de 500 peregrinos: caminhar para reencontrar Deus

Ainda antes do nascer do sol, quando a madrugada açoriana guarda aquele silêncio que parece ampliar cada passo e cada pensamento, a Romaria da Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, em Ponta Delgada, começa a desenhar-se nas estradas. Entre quase meio milhar de peregrinos, há histórias simples que ajudam a perceber o sentido profundo do caminho que este ano pára no miradouro do Pisão, perto da Ribeira Chã, como que num aviso de que a estrada nunca acaba porque somos peregrinos uma vida toda.
Patrícia Varão e agora a filha Maria João, de 11 anos, não falham. A filha vai na frente e é uma das meninas da Cruz. A mãe, mais atrás, diz com orgulho: “desde que me lembro venho sempre nesta romaria”. Não são da paróquia de Fátima mas é como se fossem. Não falham a preparação, o “mais importante” e depois o caminho.
Pertencem à paróquia de Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa, e para ela a romaria “é um retiro, um parar dos afazeres e termos um tempo só para nós, com Deus… introspeção e reflexão.”
Na voragem dos dias, onde tudo parece urgente e imediato, a romaria oferece exatamente o contrário: silêncio, oração e disponibilidade interior para escutar. É nesse espaço que muitos dizem reencontrar Deus com mais facilidade.
“Pedras no caminho… e um castelo para construir”
Ao longo do percurso, os participantes são convidados a viver pequenas dinâmicas espirituais. Este ano, cada romeiro recebeu uma pedra com um poema, na primeira paragem para retemperar forças, do corpo e da alma.
“As pedras estão no caminho. Guardemo-las todas porque podemos construir um castelo”, explica uma das dinamizadoras, na partida do Centro pastoral Pio XII, onde o grupo de cerca de 500 peregrinos- a esmagadora maioria mulheres, mas também alguns homens e muita gente nova-.
A metáfora é simples e poderosa: cada pedra representa desafios, dificuldades ou momentos de crescimento.
“Que cada pedra seja a descoberta de um dom… um dom para dar; que sejamos capazes de perceber onde nos encaixamos pois grãos de areia constroem uma linda praia”, acrescenta.
A caminhada, assim, transforma-se numa reflexão sobre o lugar de cada um na comunidade e na própria vida.
Uma Igreja que caminha
Para o pároco, padre Fernando Teixeira, o ancião da comunidade à qual se encontra ligado desde sempre embora já não caminha fisicamente mas esteja mas esteja espiritualmente presente, esta romaria é mais do que uma tradição religiosa: é uma imagem viva da Igreja em movimento.
“Aproveitem a caminhada, fortaleçam-se e no regresso ás vossas comunidades sejam fermento, ajudem a transformar a vossa paróquia, sejam amigos”, disse em jeito de caderno de encargos para uma jornada que só terminará ao por do sol com a eucaristia.
“Sem dúvida, cada Romaria é uma Romaria, cada ano uma experiência, uma vivência”, afirma por seu lado o padre Norberto Brum, o grande dinamizador destes romarias quaresmais.
Este ano, sublinha, a caminhada ganha um significado particular dentro do percurso pastoral da diocese.
“Procuramos renovar e atualizar esta graça batismal e reafirmar aquilo que é o dom que temos: sermos filhos de Deus e termos um Deus que caminha connosco.”
A iniciativa também rompe com a ideia tradicional de romarias exclusivamente femininas.
“É uma Romaria diferente, uma vez que tem homens, tem mulheres… é uma forma de sentirmos esta Igreja como comunidade, como povo que caminha e que se vai renovando dia-a-dia”, explica.
Entre as novidades deste ano está também a dinâmica simbólica do vaso partido.
Durante a celebração do perdão, um vaso foi quebrado para representar a fragilidade da vida humana. Cada participante colocou ali as suas intenções. No final, os fragmentos serão colocados num vaso novo.
“É a nossa vida muitas vezes fragmentada… e depois aparece um vaso novo. É esta transformação que Deus vai fazendo em nós”, descreve o sacerdote.
Um convite a caminhar
Antes da partida, também o bispo de Angra, que se encontrava no centro Pastoral Pio XII, deixou uma mensagem simples aos peregrinos, centrada na ideia do caminho.
“Quanto mais caminhamos, mais longe vamos… é triste o cristão que para”, disse. E recordou que o encontro com Cristo acontece precisamente nessa caminhada da vida.
“Quanto mais caminhardes, mais o encontrareis”, afirmou, incentivando todos a fazer do percurso exterior também um percurso interior.
Para muitos participantes, esta é uma experiência vivida pela primeira vez. É o caso da irmã Hirondina Mendes, da Congregação de São José de Cluny.
“É uma experiência muito interessante, muito profunda, que convida à oração”, afirma.
Para a religiosa, a romaria torna-se também um tempo de viver mais intensamente a espiritualidade da Quaresma.
“É um momento de espiritualidade, de interiorizar a fé… de partilhar os nossos sofrimentos com os sofrimentos de Cristo e da humanidade.”
O ambiente vivido entre os participantes também a impressionou.
“É uma emoção muito forte… cada um vem com os seus pedidos e problemas, mas todos recorremos a um só Senhor, único Deus.”
E deixa uma reflexão que ecoa entre muitos peregrinos: “Há uma sede de Deus nesta humanidade… e é interessante ver tanta gente a procurar essa fonte verdadeira.”
Entre as “romeiras” está também Bárbara Simões, natural de Trás-os-Montes e estudante de medicina. Para ela, a experiência é novidade.
“É uma experiência muito diferente, é desafiante”, diz.
Mas o que mais a surpreende é o ambiente entre pessoas de idades tão diferentes.
“Sinto uma grande irmandade… esta diferença geracional é uma novidade.”
A caminhada coincide também com um momento pessoal de redescoberta espiritual.
“Eu comecei a aderir à Igreja recentemente… está a ser uma redescoberta.”
Um povo que caminha
Organizada pela Comunidade de Nossa Senhora de Fátima, esta é já a sexta edição da romaria comunitária, que reúne mulheres, homens, jovens e crianças.
Sob o tema “Batizados na Esperança”, a iniciativa integra o caminho pastoral rumo aos 500 anos da Diocese de Angra, convidando os fiéis a renovarem a sua fé e o compromisso cristão.
Mas, no fundo, o que define esta romaria não é apenas o número de participantes ou a distância percorrida.
É aquilo que acontece no interior de cada peregrino. Entre pedras simbólicas, silêncio, oração e partilhas ao longo da estrada, cada passo parece recordar uma verdade simples: às vezes é preciso caminhar devagar para reencontrar o essencial.
















