Silêncio, tradição e identidade: a Quaresma que molda as ilhas açorianas

Romarias quaresmais e procissões de passos são as manifestações mais frequentes durante os 40 dias que nos separam da Páscoa desde as cinzas

Foto: Igreja Açores/Imposição de cinzas

 

O som abranda, os passos tornam-se mais pesados e a ilha de São Miguel entra num tempo diferente. A Quaresma não é apenas um período do calendário religioso: é uma marca profunda da identidade coletiva, herdada de séculos e vivida ainda hoje entre procissões, romarias e momentos de recolhimento.

António Pedro Costa resume essa herança numa expressão que muitos repetem com familiaridade: “Muita gente conhece e considera os micaelenses como os cristãos de Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia”, afirma. A definição aponta para uma espiritualidade intensamente centrada na Paixão de Cristo, numa religiosidade que encontra no sofrimento o caminho para a transformação interior.

Mais do que o aparato exterior, é o silêncio que domina.

“A Quaresma é, de facto, um tempo privilegiado de silêncio”, sublinha. Esse traço revela-se nos rituais, na sobriedade das igrejas, nas promessas cumpridas descalço e nos olhares demorados sobre as imagens que percorrem as ruas.

Ao longo dos séculos, a forte influência franciscana ajudou a moldar esta forma de viver a fé. As procissões nasceram também com uma função pedagógica, lembra António Pedro Costa.

“Os franciscanos que iniciaram esta festa tinham em mente exatamente a catequese. Era ensinar o povo que não sabia ler nem escrever.” A imagem, o gesto, o drama visual tornavam palpável a mensagem religiosa.

Hoje, apesar das mudanças sociais, muitos desses sinais permanecem. Figuras encapuzadas, hábitos escuros, símbolos que recordam a fragilidade humana continuam a impressionar quem assiste.

“Tudo isso faz com que as pessoas parem um pouco, abram o coração e olhem para dentro”, descreve.

Na Ribeira Grande, por exemplo, a procissão dos Terceiros mantém-se como um dos momentos mais identitários. A sobrevivência da tradição deve-se, em grande parte, à ligação histórica à Misericórdia local, que preservou a igreja e a devoção quando noutras localidades ela se perdeu.

A par das procissões, as romarias quaresmais continuam a ser um dos rostos mais visíveis desta caminhada espiritual. Ranchos percorrem quilómetros em oração, num movimento comunitário que atravessa gerações e geografias da ilha.

E os jovens? António Pedro Costa reconhece que a adesão não é a de outros tempos, mas há sinais de esperança.

“Os encapsulados na procissão dos Terceiros são eles que querem participar, porque querem ter essa experiência”, conta. Muitos regressam, movidos pela intensidade do que viveram.

Num quotidiano dominado pelo ruído, a procura pelo silêncio parece ganhar novo significado.

“As pessoas sentem necessidade de se afastar do ruído constante do mundo e de ter momentos para se reencontrar consigo”, observa. Para o investigador micaelense, aquilo que hoje se busca em retiros pagos é precisamente o que a Igreja propõe gratuitamente durante a Quaresma.

Nas ilhas açorianas em geral, a Quaresma pode incluir diversas manifestações religiosas e de devoção: além das procissões, há romarias, oração do terço em comunidade, visitas a capelas e outros atos de fé que percorrem semanas até à Páscoa. Esta vivência expressa um modo particular de prática religiosa comunitária, enraizado na história e nas tradições locais, profundamente marcadas pelo franciscanismo.

A celebração de Passos por exemplo é muito antiga na ilha Terceira.  Registos históricos indicam a realização da procissão com o Senhor dos Passos da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, conhecida como a Igreja do Colégio. Organizada pela Irmandade de Santa Cruz e Passos realiza-se tradicionalmente no segundo domingo da Quaresma e integra uma representação da Via Dolorosa. Também em Angra celebra-se na sexta-feira santa a procissão do senhor Morto, envolvendo as irmandades e confrarias da cidade.

Também na Horta, a procissão que representa o caminho de Jesus com a cruz até ao Calvário é organizada pelas irmandades locais e envolve a imagem do Senhor dos Passos percorrendo ruas da cidade, parando em locais estratégicos (“Passos”) para sermões.Um dos momentos mais comoventes é o encontro da imagem do Senhor dos Passos com a imagem de Nossa Senhora das Dores (ou Soledade), simbolizando o encontro de Jesus com a sua Mãe. Estas procissões, trazidas pelos primeiros povoadores, são rituais de grande devoção popular nos Açores, unindo a comunidade, as autoridades locais e as forças de segurança.

Outra manifestação muito presente é o lausperene. A exposição e adoração contínua do Santíssimo Sacramento (louvor perene) por um período de tempo, frequentemente 24 horas ou mais, envolve a comunidade e é particularmente celebrada no quarto domingo da Quaresma, associado á iniciativa 24 horas com o Senhor.

A quaresma que se inicia na próxima quarta-feira, com a imposição das cinzas, é o período de quarenta dias  dedicado à preparação da Páscoa. Desde o século IV manifesta-se a tendência para a apresentar como tempo de penitência e de renovação para toda a Igreja, com a prática do jejum e da abstinência.

“Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto” (Catecismo da Igreja Católica, n. 540). Ao propor aos seus fiéis o exemplo de Cristo que se retira para o deserto, prepara-se para a celebração das solenidades pascais, com a purificação do coração, uma prática perfeita da vida cristã e uma atitude penitencial.

Scroll to Top