Por Carmo Rodeia

Sempre tive uma especial admiração por gente culta e sábia, mas simples. Felizmente, ao longo da vida, tenho sido uma privilegiada porque, quer no convívio diário quer em ocasiões pontuais, o meu caminho tem sido iluminado por gente assim: que associa o saber ao conhecimento prático e em cada gesto, em cada sinal, em cada olhar  sabem de cor, como diz a canção do Paulo Gonzo, a resposta inteligente e assertiva sobre cada aspecto da vida. Muitas dessas pessoas aliam ao conhecimento profundo de várias temáticas especificas das suas áreas de investigação profissional o conhecimento do mundo, sendo capazes de ter uma opinião sustentada, sensata e equilibrada de tudo o que as rodeia, o que ainda me entusiasma mais e desperta em mim a vontade de aprender e crescer com elas. São pessoas com mundo, e geralmente pessoas inteiras. Não perfeitas, mas inteiras, na sua maioria com um coração grande capaz de acolher num abraço cada novo hóspede que chega, mesmo quando tem opiniões diferentes.

Esta segunda feira, o Papa Francisco enviou uma carta aos jovens , antecipando a exortação pós sinodal sobre a Juventude através da qual confia aos mais novos uma missão: “levar o Evangelho da paz e da vida aos nossos contemporâneos, muitas vezes distraídos, presos pelos interesses terrenos ou imersos num clima de aridez espiritual. Precisa-se de pessoas simples e sábias, humildes e corajosas, pobres e generosas”.

Francisco pediu, ainda, a intercessão de Nossa Senhora para que ajude todos os fiéis, especialmente os jovens, a percorrerem o caminho da paz e da fraternidade fundadas no acolhimento e no perdão, no respeito do outro e no amor que é dom de si.

De facto, só um coração em paz e cheio de amor pode ser misericordioso.

Vem-me à cabeça a parábola do filho pródigo, inscrita no Evangelho de Lucas. A narrativa traz à luz do dia uma família humana igual à de tantos nós, que apresenta uma problemática relação entre irmãos, condicionada pela inveja; um vínculo filial como aquele que nos une aos nossos pais e aos nossos filhos e sobretudo alerta para a certeza de que dentro de cada um de nós há sempre assuntos por resolver que depois condicionam as nossas relações, sentimentos sufocados, sofrimentos mitigados e, sobretudo, um espaço que precisa da cura de Deus. E até que nos deixemos curar temos uma imensa dificuldade em viver em fraternidade e a deixar-nos mover apenas condicionados pela gratidão que constrói e reconstrói o mundo seja nas relações familiares seja nas relações com os outros que nos são próximos. E, por vezes, esquecemo-nos do verdadeiro sentido da misericórdia. Não se trata de dar ao outro o perdão porque ele o merece mas porque nos compadecemos dele. É este excesso de amor que falta nas nossas vidas, por vezes. E não são raros os momentos em que nos deixamos abater, em que fazemos julgamentos com base na aparência ou pura e simplesmente ignoramos a dor que provocamos com a nossa indiferença.

Reli há pouco tempo o livro “Papa Francisco – Conversas com Jorge Bergoglio”, feito em 2010 na sequência de vários meses de conversas do então arcebispo de Buenos Aires com os jornalistas Sergio Rubin e Francesca Ambrogetti, onde o Papa lembra que só quem teve de pedir perdão, pelo menos uma vez na vida, é capaz de o dar. E prosseguia: “Para mim há três palavras que definem as pessoas e constituem um compêndio de virtude- diga-se de passagem que não sei se as tenho- e que são: com licença, obrigado e perdão. A pessoa que não sabe pedir licença, atropela, vai em frente com a sua, sem se importar com os outros, como se os outros não existissem. Em contrapartida, quem pede licença é mais humilde, mais sociável e mais integrador. O que dizer de quem nunca diz obrigado, ou sente no seu coração que nada tem a agradecer seja a quem for? Existe um refrão espanhol que é bem eloquente: o bem nascido é agradecido. A gratidão é uma flor que nasce em almas nobres. E, finalmente, há pessoas que acham que não têm de pedir perdão. Estas são vítimas do pior dos pecados: a soberba. Por isso, aos que não dizem estas três palavras falta-lhes algo na sua existência. Foram podados antes de tempo, ou mal podados pela vida”.

A sabedoria, aliada à simplicidade, que tece um coração de misericórdia, embora devesse, não está ao alcance de todos. Diria mesmo mais: são virtudes raras que só muito poucos possuem. E, felizmente, alguns têm-me ajudado a crescer e continuam a fazê-lo. Pena é que não sejam todos…