O bispo de Lamego afirmou que o tempo de pandemia é “já um tempo de esperança” e lamenta que a sociedade trate as pessoas idosas como “canalha”.

Em entrevista à Agência Ecclesia, D. António Couto afirma a importância de “fazer a experiência” da proximidade às pessoas e da visita aos locais mais isolados para decidir não só com “relatórios e papéis”.

“Tenho dito aos políticos que aqui vêm e falam comigo: façam esta experiência. A Assembleia da República devia fazer esta experiência e depois não sei se fariam a leis que fazem. A política nacional, central, deveria debruçar-se sobre estas realidades, não recebendo papéis e relatórios, porque isso não dói nada”, refere o bispo de Lamego.

Autor do livro ‘O lado de cá da meia-noite’, D. António Couto pede um regresso à Bíblia, um livro “de cultura”, que chama à humanidade e mostra caminhos “intransitivos”.

O bispo de Lamego lamenta que a cultura dominante queira resumir a Bíblia a um livro de fé e indica que, a par da “cultura grega, que continua através dos tempos”, da qual o homem contemporâneo é herdeiro, “há que ter na outra mão a Bíblia, um livro de excelência”.

“O que nos traz a Bíblia é uma voz que vem de fora. Não nasce dos meus desejos, instintos e projetos. É um caminho novo que vem de fora, uma voz que me interpela. É um rosto, como diz Emmanuel Levinas”, recorda.

Perante “a voz ética” que se escuta, “não há tempo para pensar, há que responder, pois é o rosto de um irmão, de um pobre, de uma criança, de um abandonado, é um rosto que fala… Eu não tenho de tomar uma decisão, tenho de responder”, reconhece, contrapondo a cultura dominante que procura “caminhos alcatroados, de modas que mudam”.

“Há muitos caminhos alcatroados, mas os caminhos a fazer – o da estupidez para a inteligência, da maldade para a bondade – são caminhos longos, levam muito tempo porque dá muito trabalho passar do «eu» para o «eis-me». Requer uma disponibilidade que não experimentamos mas este é o caminho apontado pela Bíblia, pelo Talmude judaico e por grandes pensadores da história”, indica.

D. António Couto diz que este é o tempo de “escutar a voz de Deus, mesmo que doa”.

O responsável deseja uma “Igreja mais familiar”, uma “Igreja a fazer-se” em detrimento de o “fazer coisas na Igreja”, e pede que se construam “templos de tempo”, que reconheçam o que é paradigmático na Igreja – “o Evangelho, a evangelização, a caridade”, e não os eventos programáticos.

“Fazer coisas na Igreja é mais fácil, e é o que andamos a fazer. Apostamos quase tudo no fazer coisas na Igreja porque é mais fácil de manter: continuar a limpar o altar, os bancos, lidar com coisas, procurar pessoas para as flores, para dar catequese… Estamos sempre no mesmo, a fazer coisas na Igreja. Os párocos ficam felizes quando têm a Igreja organizada, mas penso que estamos a brincar com coisas secundárias – é preciso muito mais. Onde está a escuta, permanente e ativada, da palavra de Deus, que é o motor?”, questiona.

D. António Couto reconhece uma “enorme porta” que o Papa Francisco deseja abrir com a realização de uma Assembleia de Bispos sobre Sinodalidade, em outubro de 2023, mas receia que resulte num “conjunto de relatórios, todos iguais”: “Temo que não peguemos na Igreja e não a comecemos a fazer”.

“Fazer a Igreja significa que estamos dois aqui, mas podíamos ter connosco uma criança, um velhinho, um doente e todos tínhamos que nos entender. Não podia falar tão rápido, as perguntas teriam de ser outras para alargar o contexto, mais pessoas teriam de intervir. Isto é a comunhão, a Igreja a fazer-se. E este já seria o objetivo. Se conseguirmos juntar diferentes pessoas em idade, culturas, até de credos diferentes – porque temos de abrir a Igreja para o mundo – vamos ter um excelente diálogo e vamos todos de nos respeitar. Isso é a Igreja a fazer-se”, indica.

A entrevista com D. António Couto vai estar no centro do programa ECCLESIA, na Antena 1, este domingo, às 06h00.

(Com Ecclesia)