Por Francisco Maduro Dias

Este tempo de Quaresma de 2026 é profundamente desafiante. Não necessariamente para um cristão, mas para qualquer ser: humano, planta, animal, … musgo!
Almejando, já nem se diria a paz completa, mas a paz possível, parece que tudo se juntou para afirmar que os outros não interessam, nem enquanto simples seres, nem enquanto seres humanos, muito menos enquanto semelhantes.
Será, aliás, um bom princípio partir daqui, dessa ideia de semelhantes e de semelhança, porque não há igualdade entre seres ou coisas, mas semelhança e semelhanças. Cada um é diferente de todos os outros, à sua maneira e ao mesmo tempo. Pode parecer igual, mas não é, e a consciência disso aconselha um olhar mais brando.
Brando e branco. Brando porque suave, com misericórdia, e aberto à curiosidade. Branco porque, como a física óptica nos revelou a partir de Newton, o branco é a união de todas as cores – o Sol parece branco – mas, por outro lado, um objecto parece-nos branco porque reflecte todas elas, reenviando as ondas para o seu redor, e vemo-lo branco por isso também.
Enquanto humanos todos temos olhos, nariz e boca, todos pensamos, sentimos, odiamos e gostamos. Todos temos – tínhamos, pelo menos – esperança e desejo de paz, de alguma paz, para podermos nascer, crescer, multiplicar, cultivar, criar, comprar, vender, trocar e, desejavelmente também, partilhar, embora isso esteja cada vez mais esquecido nos dias de hoje, não obstante as proclamações em contrário.
A ideia do grão – do grão de mostrada da Parábola, se quiserem – deriva da absoluta necessidade de, no meio deste quase completo caos que hoje rodeia as nossas existências, ser preciso encontrar o caminho de alguma paz.
Sendo mais fácil gritar aos quatro ventos contra o que se passa algures no mundo, de preferência lá longe e com papeis para telespectador ver, é cada vez mais relevante cada um, na linha do proposto por Leão XIV, fazer jejum, algum jejum pelo menos, de palavras, cuidando do que queremos efectivamente dizer com elas, e daí a ideia do grão de paz, que se semeia.
A razão é simples e honesta. Cada um pode pouco quanto ao que se passa entre os “grandes” do Mundo, mas pode alguma coisa quanto ao que sai da sua boca, aos gestos que pratica, às opiniões – construtivas? – que possa dinamizar.
E já que o liberalismo nos encaixou, a cada um e cada vez mais, num casulo egocentrado, sejamos egoístas no esforço de ser um grão de paz.
Mas paz activa, praticada! É que o silêncio, a não intervenção, o lavar das mãos, sempre foi visto como um óptimo “instrumento de paz”. Ora, do mesmo modo que não há planeta B, no afirmado pelos ecologistas, também não há espaço exterior, quando nos queremos referir aos humanos e às nossas acções.
A omissão é, sem dúvida, a falta mais relevante, presente e frequente. O mais profundo pecado, segundo os católicos. E é-o de facto. Porque o nosso “deixar andar”, à espera de que, amanhã, o assunto se resolva por si, acaba por desaguar nas enormidades que agora vemos acontecer e nos aterrorizam.
Ser grãos de paz, aperreando as engrenagens dos conflitos, não se constrói nem no silencio, nem na contestação, ou no protesto.
Constrói-se com acção! Com misericórdia e acção! Permanentes e vivas, à nossa volta e olhando em volta.