Assembleia do Prado Portugal decorre em Angra até quinta-feira. Dois novos sacerdotes irão fazer o compromisso temporário com o Instituto

A identidade sacerdotal enfrenta hoje diversos desafios profundos que colocam à prova a sua autenticidade e coerência, considera o Superior Geral dos sacerdotes do Prado, padre Diego Martín Peñas.
O primeiro “nasce no interior do próprio sacerdote, quando perde o centro em Cristo e se instala uma divisão entre vida e ministério. Nesse caso, corre-se o risco de cair num ministério de natureza funcional (…) que perde a fecundidade da graça”, tornando a ação pastoral eficaz apenas do ponto de vista humano, mas espiritualmente estéril, afirma o sacerdote que acompanha a Assembleia Geral do Prado Portugal, que se realiza até quinta-feira em Angra do Heroísmo.
O sacerdote espanhol, natural de Ávila, que desde 8 de julho de 2025 é o responsável deste instituto secular de sacerdotes, fundado pelo Beato Antoine Chevrier (1826-1879), sacerdote diocesano de Lyon, França, que iniciou uma pequena obra de evangelização dos pobres num salão de baile de má reputação chamado “El Prado”, fala do contexto eclesial atual, especialmente com a redescoberta da sinodalidade, que pode dar origem a interpretações desequilibradas: por um lado, a diluição da identidade sacerdotal; por outro, o ressurgimento de atitudes clericais que reforçam uma visão de poder.
A resposta proposta passa por recuperar a consciência de serviço, pois “a própria razão da existência do sacerdote reside no serviço a Jesus Cristo e no serviço a toda a Igreja”, salienta.
“Trata-se de viver em equilíbrio, reconhecendo-se como irmão entre irmãos, mas também como sinal específico de Cristo no meio da comunidade, assumindo com simplicidade a própria vocação” avança.
A sociedade secularizada constitui igualmente um desafio significativo. Num ambiente marcado pela “aridez espiritual”, o sacerdote pode deixar-se influenciar negativamente ou, pelo contrário, tornar-se testemunha de uma relação viva com Deus. É neste contexto que se reafirma a sua vocação como homem de oração e mestre de oração, alguém que, pela própria experiência, ajuda os outros a descobrir a presença de Deus nas suas vidas e a abrir-se a um caminho de fé mais profundo.
Neste contexto esclarece, a espiritualidade do Prado ganha particular força na sua relação com os pobres, que ocupam um lugar central não apenas como destinatários da missão, mas como verdadeiro espaço de encontro com Cristo. Como afirma o padre Martin Peñas, “os pobres estão no centro porque são para nós um sinal da presença de Jesus Cristo”, “mestres do Evangelho”.
O ideal proposto, e bem expresso pelo fundador- “sacerdotes pobres para os pobres”- é exigente e profundamente evangélico: “ser pobre como Jesus para evangelizar os pobres”. Esta proposta implica uma identificação concreta com a sua condição, já que “uma pessoa pobre tem acesso mais fácil aos mais pobres entre os pobres”.
Aquilo que pode parecer como um jogo de palavras tem um alcance evangélico sem precedentes. Não se trata apenas de praticar gestos de caridade, mas de viver uma verdadeira comunhão, partilhando o Evangelho numa relação de reciprocidade. Os pobres não são apenas destinatários, mas sujeitos ativos desta troca, pois oferecem “o Evangelho vivido”, enquanto o sacerdote traz “o Evangelho pregado”. Assim, a “missão torna-se um encontro transformador, onde ambos são evangelizados”, destaca o responsável.
Por isso, a missão do sacerdote como sinal de esperança é apresentada como um testemunho que brota da própria vida. Antes de mais, é necessário “glorificar Cristo”, ou seja, dar testemunho d’Ele no quotidiano, permitindo que a própria vida fale de forma autêntica.
“Que as nossas vidas, entregues a Ele, falem por nós” — esta expressão resume a força de um testemunho silencioso, muitas vezes mais eloquente do que qualquer discurso, recorda.
A esperança nasce da Palavra de Deus, pois “é a Palavra do Senhor que gera esperança, e é isso que devemos oferecer”.
Num mundo marcado por incertezas, diz, o sacerdote é chamado a ser portador desta esperança, não apenas através das palavras, mas sobretudo através de uma vida coerente, simples e profundamente enraizada em Cristo.
A imagem final sintetiza de forma expressiva toda esta visão: “Coloque um padre santo numa igreja de madeira, aberta aos quatro ventos. Ele atrairá e converterá mais pessoas (…) do que outro padre numa igreja de ouro”. Nesta afirmação destaca-se a convicção de que não são os meios exteriores que garantem a fecundidade da missão, mas a autenticidade de uma vida configurada com Cristo, vivida na simplicidade, na pobreza e no amor.
É à luz desta visão que se compreende mais profundamente a proposta espiritual do Prado. A espiritualidade do sacerdote diocesano, segundo o Prado, apresenta-se como uma proposta profundamente centrada na pessoa de Jesus Cristo, constituindo este o núcleo essencial de toda a vida e missão sacerdotal. Não se trata apenas de uma referência teórica, mas de um verdadeiro caminho de configuração existencial com Cristo, vivido no quotidiano.
Como é sublinhado pelo superior Geral dos sacerdotes do Prado, o sacerdote é chamado a “conformar-se com Ele diariamente, sendo pobre como Ele na manjedoura, morrendo para si mesmo como Ele na cruz e tornando-se bom pão para o alimento dos outros como Ele na Eucaristia”. Esta centralidade transforma radicalmente a identidade do sacerdote, que se define прежде de tudo como discípulo, pois “o sacerdote é, antes de mais, um verdadeiro discípulo, um seguidor de Jesus Cristo”.
Neste sentido, conhecer e amar Cristo torna-se a prioridade absoluta da sua vida, sendo afirmado com clareza que “o estudo do Evangelho é a nossa tarefa diária”. A relação com Cristo não é possível sem a ação do Espírito, que revela a presença do Senhor tanto na Palavra como na vida concreta, especialmente na vida dos pobres, onde se reconhece o Ressuscitado.
O carisma do Prado, embora plenamente inserido na vida diocesana, oferece um contributo específico ao recordar constantemente a centralidade de Cristo e a necessidade de o conhecer na Palavra, na Eucaristia e nos pobres. Trata-se de uma presença humilde no meio dos outros sacerdotes, marcada pelo desejo de fortalecer a fraternidade sacerdotal e de manter viva a consciência de que “os pobres devem ser os principais destinatários da nossa missão evangelizadora”. Não se reivindica qualquer especialização, mas antes uma forma de vida que insiste no essencial do Evangelho.
A reflexão desenvolvida pelo sacerdote do Prado, nesta entrevista ao Sítio Igreja Açores, no âmbito da sua participação na reunião magna dos Padres do Prado portugueses, insiste também na necessidade de superar a separação, historicamente vivida, entre espiritualidade e missão pastoral. Durante muito tempo, estas dimensões foram entendidas como distintas ou até opostas, o que levou a formas de espiritualidade desligadas da realidade ou a práticas pastorais vazias de profundidade. A proposta atual é clara: “estas duas dimensões, espiritualidade e ministério pastoral, devem ser vividas em conjunto na identidade sacerdotal”. A oração não é um momento à parte, mas já ação missionária, pois “quando o sacerdote reza, já está a ser missionário”, sendo ainda reforçado que “a oração faz parte da missão; é o início da missão do sacerdote”. Assim, a espiritualidade dá sentido ao ministério, enquanto o ministério concretiza e molda a espiritualidade, numa síntese que exprime a profundidade e a exigência do sacerdócio vivido segundo o Evangelho.
A reunião do Prado termina na quinta-feira e durante os trabalhos será eleita a nova equipa coordenadora.