Comacchio. Pequena cidade, a descansar as suas casas antigas na margem do Adriático, a sul de Veneza e, tal como a Sereníssima, sulcada de canais, mas com a vantagem de os podermos apreciar sem apanhar com algumas toneladas de turistas de óculos escuros, camisolas berrantes e calções impreterivelmente bege a cair-nos em cima…

Comacchio era vizinha de neblinas longas e pardas, onde ciprestes e campanários furavam, numa paz solene, o céu baixo e cinzento. Havia uma beleza naquelas planícies, uma lonjura nos barcos que entravam e saiam pelos canais pachorrentos. O horizonte era uma espécie de distância.

Em 1992 estive por lá uma semana, no Natal, a ajudar Don Giancarlo, pároco naquela cidade. Era eu ainda um padreco mal acabado e Don Giancarlo, senhor de sua bondade, acolheu-me com um daqueles sorrisos de avô bem disposto. Em certas idades da nossa vida acontecem pessoas que nos obrigam a precisar de ser como elas. Don Giancarlo era uma casa de portas abertas. Estação de comboios, daquelas antigas, por onde passam as pessoas, onde está sempre alguém a chorar, aonde chegam e de onde partem comboios. O único lugar estável onde tudo se move. Don Giancarlo era um lugar. Pela sua casa, que, como ele, não tinha portas fechadas, passavam pedaços da cidade quase toda. Gente entrava e saía, deixava comida para quem tivesse fome, levava comida se tivesse fome. Gente para desabafar, falar, ouvir um conselho precioso. E Don Giancarlo, a descansar o cotovelo numa espécie de mesa escondida da casa, olhava o interlocutor num interesse inusitado, quase com o desgosto de não poder ser, ele todo, a solução para o drama de quem lhe chorava à frente. Dele saíam as palavras que só a bondade mais larga sabe segredar, e que sempre faziam bem.

Rezava como uma criança, breviário eventualmente mais velho do que as pirâmides do Egipto, sentado num canto da Igreja, perto do sacrário, cheio de gestos longos e ternos. E a ler como quem segreda.

Ainda o vejo com aquele casaco azul ferrete a cair por ele abaixo, bolsos cheios de chocolatinhos para os miúdos que o cercavam quando passava pelas sessões de catequese. Desassossegava as salas, estragava as lições às catequistas.

Como quem cultiva um canteiro de flores delicadas, Don Giancarlo plantava a bondade e cuidava dela, deixava-a crescer. Tinha sempre tempo. Vá-se lá saber como quando ou porquê, esse homem extraordinário fazia o milagre – julgo que mais extraordinário do que o da multiplicação dos pães – de nunca ter pressa e ter sempre mais uns minutos para quem o pedisse. Don Giancarlo estava. E pronto.

Julguei, mais do que uma vez, vê-lo só, no meio de gente, os olhos caídos, uma certa tristeza talvez por pensar que, não tão raramente, as pessoas que muito dele precisavam, mais cedo o esqueciam. E – vá lá! – a bondade tem os seus dias de tristeza, mesmo se doce como certas manhãs mansas e sombrias de outono. Disse-me que gostava de ser como Jesus. E eu ainda acho que é uma das coisas mais bonitas que alguma vez um padre me terá dito.

Hoje, agora, aqui, acho extraordinário que, no meio de tantos ofícios encargos e provisões; tantas celebrações, homilias e reuniões; tantos papéis, protocolos e obrigações; tantas contas, vestes, teologias; tanto de tudo… como é ser como Jesus?

 

Pe Júlio Rocha