Uma mão cheia, saturada, de vazio

Pelo Padre José Júlio Rocha

 

“Açores fora da guerra de Trump!” eram as palavras, escritas a preto sobre branco, num cartaz segurado por quatro pessoas, ali para os lados da Base das Lajes, no passado dia sete de março. À volta do cartaz jaziam pouco mais de vinte pessoas, crianças incluídas. Chovia. O cenário tinha o seu quê de desolador. Vá lá, esperar-se-iam, pelo menos, uma centena de pessoas para que a manifestação produzisse um pingo de respeito. Assim, vinte pessoas à chuva e vinte e um jornalistas a fotografar deu um ligeiro odor a ridículo. É só imaginar os organizadores do evento entusiasmados com a possibilidade de mil almas se juntarem no Posto Um e assustarem a administração americana; e imaginar, depois, as suas caras tristes, a chuva a pingar-lhes do nariz, meia dúzia de gatos pingados a murmurar, como se tivessem medo, “não à guerra de Trump”, e o resto dos Açores a rir.

Foi o que as redes sociais nos ofereceram: uma monumental e complacente – quando não indignada – gargalhada geral. Os comentários, nas redes, dispararam nas mais variadas direções. Ficou-se com a impressão de que havia mais jornalistas do que manifestantes, o que foi motivo de gáudio ou de indignação por se dar tanta importância àquela nulidade de esquerda. Entre os mais indignados, havia quem vociferasse contra aqueles “contratados”, sempre os mesmos, sempre “esquerdalha”, que não tem consciência do que a Base significou para o desenvolvimento da ilha que, sem ela, ainda estaria no terceiro mundo. Um comentário dizia: “Muito bem. A consciência moral não tem tradução numérica”. A esmagadora maioria dos comentaristas, no entanto, ridicularizava.

Resta saber porque razões se meteram a fazer aquela arruada os suspeitos do costume. Devem, provavelmente, achar que esta é uma guerra estúpida, perpetrada por um estúpido sem dois dedos regulares de testa, para desviar as atenções das crianças de quem ele abusou sexualmente, como vem expresso nos ficheiros Epstein. Devem, além disso, achar, imprudentemente, que esta é uma guerra inútil e perigosa. Inútil porque não vai resolver nada, não vai mudar o regime dos aiatolas, não vai libertar o povo iraniano nem vai trazer a paz ao Médio Oriente. Perigosa porque, para além de ter matado o líder dos xiitas em pleno ramadão, esta guerra vai perpetuar-se durante muito mais tempo do que o previsto, como todas as guerras, com todas as consequências, desde a perda de vidas até uma catástrofe financeira que todos temem, passando, naturalmente, pelo mais que esperado incremento do terrorismo islâmico no Ocidente. Talvez tenham achado, inconscientemente, que já é hora de o mundo acordar e parar os desmandos de um Trump enlouquecido e disposto a dar cabo de tudo o que seja bom senso, verdade, justiça, direito internacional, paz, democracia, e que, qual Nobel da paz, deu a esta operação o título pomposo de “Fúria Épica”, usando uma retórica nazista de louvor do poderio militar, da guerra, da morte, e que começou a operação com um estrondoso “Já ganhámos”, passando depois para um mais comedido “estamos a vencer”, para depois fazer um patético pedido de ajuda para a catástrofe que o estreito de Ormuz adivinhava. É por isso que esses manifestantes talvez pensem, erradamente, que Trump iniciou esta guerra sem saber como nem sabe como a vai acabar. E todos nós estamos a pagar – pensam os manifestantes ingenuamente – o preço da mais hedionda estupidez. Da qual a base das Lajes, neste momento, e independentemente de todo o valor que ela significou para nós, faz parte integrante.

Tudo isso me faz lembrar a velha história alemã do palhaço que foi mandado, vestido de palhaço, à cidade mais próxima a pedir socorro porque um incêndio estava a destruir o circo. Todos, na cidade, se riram dos trejeitos ridículos do palhaço, até que o fogo alastrou também para a cidade.

Afinal, no meio disto tudo, quem é que é ridículo?

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Dorsal Atlântica.

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