
O Papa presidiu hoje, na Basílica de São Pedro, à Missa com os cardeais reunidos em Consistório extraordinário, apelando a um discernimento que supere interesses de grupo e se foque no bem da Igreja.
“Não estamos aqui para promover agendas, pessoais ou de grupo, mas para confiar os nossos projetos e inspirações ao juízo de um discernimento que nos ultrapassa”, disse Leão XIV, numa homilia proferida no Altar da Cátedra.
A reflexão abordou a origem da palavra Consistório (consistere), associando-o ao ato de “parar” num mundo marcado pelo frenesim.
“Todos nós parámos para estar aqui: interrompemos por algum tempo as nossas atividades e renunciámos a compromissos importantes. Este é um gesto profético no contexto da sociedade frenética em que vivemos”, afirmou o Papa, sublinhando que este silêncio é essencial para “não correr o risco de andar às cegas”.
Leão XIV destacou que o Colégio Cardinalício, embora rico em competências, “não é chamado a ser, em primeiro lugar, uma equipa de especialistas, mas uma comunidade de fé”.
Recuperando a imagem evangélica da multiplicação dos pães, por Jesus, o pontífice reconheceu que, perante uma “humanidade faminta de bem e de paz”, os responsáveis católicos podem sentir-se “incapazes e desprovidos de meios”.
A homilia reiterou que a missão dos cardeais é ajudar o Papa a identificar os recursos que Deus oferece, por mais humildes que pareçam.
“Nem sempre conseguiremos encontrar soluções imediatas para os problemas que temos de enfrentar. Todavia, em qualquer lugar e circunstância, poderemos sempre ajudar-nos mutuamente – e, em particular, ajudar o Papa – a encontrar os ‘cinco pães e dois peixes’ que a Providência nunca deixa faltar, onde os seus filhos imploram ajuda”.
Lembrando que a responsabilidade partilhada com os cardeais é “grave e pesada”, Leão XIV concluiu a homilia com uma oração de Santo Agostinho, dirigida a Deus: “Concedei-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes”.
Após a celebração, os cerca de 170 cardeais presentes regressam à Sala do Sínodo para duas sessões de trabalhos, que se focam hoje nos temas da sinodalidade e da evangelização, escolhidos na tarde de quarta-feira.
“Estou aqui para escutar”, disse Leão XIV na abertura de reunião com o Colégio Cardinalício

” O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio”, afirmou o pontífice no discurso inaugural, proferido na Sala do Sínodo.
Perante cardeais dos cinco contientes, Leão XIV sublinhou que a missão da Igreja não se faz por “proselitismo”, mas por “atração”, recuperando uma visão partilhada pelos seus antecessores Bento XVI e Francisco.
“A unidade atrai, a divisão dispersa. Para sermos uma Igreja verdadeiramente missionária, ou seja, capaz de testemunhar a força atrativa da caridade de Cristo, devemos em primeiro lugar pôr em prática o seu mandamento: que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei”, declarou.
O Papa desafiou os seus conselheiros mais próximos a um “caminho colegial”, valorizando a diversidade de proveniências e culturas presentes no Vaticano.
“Somos um grupo muito variado, enriquecido pelas nossas múltiplas proveniências, culturas, tradições eclesiais e sociais. Somos chamados, em primeiro lugar, a conhecer-nos e a dialogar para podermos trabalhar juntos ao serviço da Igreja.”
O primeiro consistório do pontificado de Leão XIV, eleito em maio de 2025, foca-se em quatro eixos temáticos: a missão no mundo atual (Evangelii Gaudium), o serviço da Cúria às Igrejas locais (Praedicate Evangelium), a partir de documentos do Papa Francisco; a sinodalidade e a liturgia.
Para favorecer o aprofundamento, o Papa solicitou que os contributos se centrassem nas prioridades para os próximos dois anos.
“Não temos de chegar a um texto, mas sim levar por diante uma conversa que me ajude no serviço em prol da missão de toda a Igreja. Escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar-se mutuamente; expressar apenas o ponto principal e de forma muito breve”, explicou.
Leão XIV convidou os cardeais a escolher duas das quatro temáticas propostas, para debate mais alargado, a partir de uma pergunta-guia.
“Olhando para o caminho dos próximos um ou dois anos, que atenções e prioridades poderiam orientar a ação do Santo Padre e da Cúria sobre a questão?”
Leão XIV reiterou que o objetivo deste Consistório não é a redação de um documento final, mas sim a consolidação de um estilo de governo colegial.
“O caminho é tão importante quanto a conclusão”, defendeu Leão XIV, insistindo na urgência de uma “Igreja missionária” que saiba questionar se “há vida” nas suas comunidades.
“A razão de ser da Igreja não é para os cardeais, nem para os bispos, nem para o clero. A razão de ser é anunciar o Evangelho”, declarou o pontífice.
Num discurso marcado pela gratidão e pela proximidade, o Papa reagiu à escolha do Colégio Cardinalício, que elegeu os temas da sinodalidade e da evangelização como as prioridades para este encontro. Para Leão XIV, estes dois eixos são indissociáveis na busca de como ser “uma Igreja missionária no mundo de hoje”.
“Queremos ser uma Igreja que não olha apenas para si mesma, que olha mais além, para os outros”, frisou, destacando que o objetivo é anunciar o “querigma” (o anúncio essencial da fé) com “Cristo no centro”.
Depois da intervenção, os presentes dividiram-se por grupos de trabalho, em mesas-redondas, à imagem do que aconteceu na XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, em 2023 e 2024, no Vaticano.
“21 grupos contribuirão para a escolha que faremos, mas, como é mais fácil para mim pedir conselhos àqueles que trabalham na Cúria e vivem em Roma, os grupos que apresentarão os seus resultados serão os nove provenientes das Igrejas locais”, precisou Leão XIV.
Ao contrário dos consistórios ordinários (habitualmente para a criação de novos cardeais), estas reuniões extraordinárias são momentos de consulta alargada. O Papa Francisco convocou dois encontros semelhantes durante o seu pontificado: em 2014, sobre a família; e em 2022, sobre a reforma da Cúria Romana.
Entre os eleitores do Conclave de 2025, que escolheu Leão XIV, estiveram quatro portugueses: D. Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima; D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação; e D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal.
O Colégio Cardinalício conta atualmente com 245 membros (122 eleitores e 123 com mais de 80 anos), de 92 países.
(Com Ecclesia)