Por Monsenhor António da Luz*

A mensagem central e essencial da carta do Papa Francisco sobre as Indulgências para o próximo Jubileu Extraordinário da Misericórdia é a confiança na Misericórdia de Deus, o que vale também para o caso específico do pecado do aborto.

Recorde-se o que afirmou o Concílio Vaticano II, na “Gaudium et Spes“, n.º51, em relação ao aborto: “Com efeito, Deus, senhor da vida, confiou aos homens, para que estes desempenhassem dum modo digno deles mesmos, o nobre encargo de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da conceção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis“.

Por ser um “crime abominável”, o aborto é incluído pela Igreja entre os chamados pecados “reservados”, o que quer dizer que a absolvição da pessoa arrependida de ter cometido um tal pecado é reservada à autoridade do Bispo ou a quem for delegado por ele.

Entre outras novidades, o Papa Francisco concede a todos os sacerdotes, durante o Ano Santo da Misericórdia, a faculdade de absolver o pecado do aborto, o que não significa que o esteja a minimizar como tal.

O que ele faz é defender a vida humana e por isso insiste em apontar a profunda injustiça que se comete negando o direito à vida de quem está para nascer, suprimindo um ser humano inocente.

O Papa quer esclarecer que, quer para as mulheres que cometeram o aborto quer para os médicos que foram procurados ou para quem quer que seja que tenha colaborado, em presença de um sincero arrependimento, é preciso mostrar toda a ternura e misericórdia de Deus para ajudar a superar as consequências dramáticas e também traumáticas que um aborto deixa na consciência de cada um.

Há uma grande sensibilidade humana nesta atitude do Santo Padre e na sua decisão. Durante o próximo Jubileu Extraordinário da Misericórdia, então, inclusivamente o pároco, por exemplo, poderá absolver uma pessoa arrependida, sem pedir autorização ao seu Bispo.

É evidente que nem todas as pessoas envolvidas numa prática de aborto têm a mesma responsabilidade. Tudo depende das circunstâncias e da consciência de cada qual. Aqui encara-se o aborto do ponto de vista humano, moral e de fé.

É preciso distinguir sempre o erro e a pessoa que erra e, em relação às mulheres que praticaram o aborto, a Igreja está de coração aberto a acolhê-las no seu arrependimento e, no seu sofrimento, a dar-lhes esta oportunidade de experimentarem o amor de Deus que condena o pecado.

Deus, na realidade, ama sempre o pecador porque é um filho seu que sofre muito precisamente por ser pecador, embora, talvez por falta duma fé esclarecida, não tenha disso grande consciência. Continuam cada vez mais válidas as palavras de Pio XII (antes do Concílio, claro está!): “O maior pecado dos homens do nosso tempo é não ter consciência do pecado!”. Sem a fé nesta realidade, também não há lugar para a fé em Deus. Com a sua decisão, que justificou com razões de misericórdia e compaixão, o Papa não antecipa qualquer mudança na doutrina da Igreja relativamente ao aborto, um ato que continua a descrever como um “gravíssimo mal”. “Um dos grandes problemas do nosso tempo é a mudança da forma como as pessoas se relacionam com a vida. Uma mentalidade muito difusa fez-nos perder a devida sensibilidade pessoal e social para o acolhimento de uma nova vida”. Ele não ameniza a gravidade do aborto: “o drama do aborto é vivido por alguns com uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um gesto semelhante comporta. E acrescenta que “o perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo, quando com coração sincero, se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai.”

Os sacerdotes são, pois, chamados a prepararem-se «para esta grande tarefa sabendo conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença». Por conseguinte, ao contrário do que alguns meios de comunicação social têm sugerido, não se trata de relativizar ou minimizar a gravidade do pecado do aborto.

Com este gesto, o Papa quer recordar a todo o mundo que Deus perdoa qualquer pecado, desde que a pessoa esteja verdadeiramente arrependida e tenha o propósito firme de não reincidir no erro.

Para que Deus perdoe uma ofensa tão séria, o Papa afirma que a pessoa que realizou o aborto deve ter consciência da “gravidade do pecado cometido” e estar verdadeiramente arrependida. Como ele diz, a pessoa deve aproximar-se do sacramento com “um coração contrito, procurando o perdão” para o aborto e esperando a “reconciliação com o Pai”.

O pecado separa o homem de Deus, mas Ele ama-o tanto, que está disposto a perdoar qualquer pecado, de modo que o homem possa ter uma verdadeira relação de amor com Ele. Jesus pagou o preço pelos pecados dos homens com a sua morte na Cruz. Isso mostra o quanto Ele os ama.

Nenhum pecado é tão grande que não possa ser perdoado: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20) Mais uma vez o Papa Francisco que, para muita gente parece um revolucionário irresponsável, mostra que o que é verdadeiramente “revolucionário” na Igreja é o “escândalo” da Misericórdia de Deus nascida da Cruz e da Ressurreição de Jesus Cristo! Mais ortodoxo, impossível! Este é o Evangelho (= a Boa Nova, a Boa Notícia!) que é necessário apregoar, novamente, em todo o tempo e lugar! Para alguém se reconhecer como pecador é preciso ter fé, porque essa é a verdade de cada filho de Adão.

Todavia, por maior que seja o pecado, é infinitamente maior a Misericórdia de Deus. O que a Igreja, com o Papa à frente, tem a dizer hoje às pessoas arrependidas, é o mesmo que Jesus disse outrora à adúltera no Evangelho: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» (Jo 8, 10-11). No Sacramento da Reconciliação, Deus continua a dizer a todos: “Os teus pecados estão perdoados. Vai em paz e não voltes a pecar!

Capelas, 09/09/2015

 

  • Monsenhor António da Luz é Cónego Penitenciário, para a ilha de São Miguel