É o número de pobres na Europa, segundo a Confederação Europeia da Cáritas.

Pobres com rosto e identidade, que a crise e as políticas de austeridade ainda tornaram mais pobres.

Os números, respeitantes a uma análise feita em Itália, Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, Roménia e Chipre, foram conhecidos no final da semana que passou e dão conta de que a resposta encontrada pelos governos para a crise traduziu-se numa “transferência de dinheiro dos pobres para os ricos”.

Segundo dados da Pordata, relativos a 2013, residem nos 28 países da União Europeia 507 milhões de cidadãos o que significa que 26,2% da população que reside nestes países é pobre. Ou seja, 1 em cada 4 europeus é pobre.

Os objetivos assumidos na chamada “Estratégia de Lisboa”- maior coesão social para falar no mais elementar- estão longe de serem concretizados.

Os pobres deveriam ser 96,4 milhões até 2020, isto é, menos 20 milhões, mas pelo contrário estão a aumentar.

O estudo sobre as consequências da crise europeia e da intervenção da ‘troika’ nas populações dos países da União Europeia mais afetados pela crise económica, apresenta os “impactos humanos da crise e das políticas de austeridade”. Os dados mostram que um “número crescente de pessoas luta contra a pobreza e as desigualdades” e que a crise “tem afetado o acesso aos serviços sociais e de saúde”, prejudicando “a difícil situação das crianças e das suas famílias”.

Segundo a Cáritas, a pobreza infantil afeta 28% dos menores da União Europeia, há 24 milhões de desempregados e 9,9 milhões de pessoas vivem em situação de “privação material grave”.

Estamos perante indicadores muito alarmantes. De um lado, um aumento da pobreza infantil; do outro uma “pobreza estrutural” que se instala e tem “boas” perspetivas de se prolongar.

Se somarmos a isto a incapacidade de sobrevivência das pequenas empresas; o desemprego e a emigração de jovens qualificados; o abandono dos idosos; os cortes nos serviços de apoio – educação e saúde-, que deixam os frágeis da sociedade ainda mais frágeis, julgo que devemos questionar-nos se o medicamento utilizado para curar a despesa pública não matou o paciente, uma vez que a pobreza e as desigualdades crescem a olhos vistos. E não é só junto dos “preguiçosos do sul”.

Na Alemanha, de que alguns são tão “invejosos”, há uma destruição do estado social que resultou da aplicação de um pacote de reformas que flexibilizaram as leis laborais, criando mais de 7,4 milhões de micro-empregos, postos precários e mal pagos que explicam a existência de um número crescente de trabalhadores pobres em cidades alemãs como Leipzig (25% de pobreza urbana), Dortmund (24,2%), Duisburgo (23,5%), Hanôver (22,6%), Bremen (21,3%) e Colónia (20%). A descapitalização da segurança social significa, igualmente, que 13% da população com mais de 65 anos se encontra abaixo do limiar da pobreza, com tendência para aumentar.

Até Bismarck, conservador e antissocialista, se sentiria mal nesta Europa. Que precisa de ajuda… e, ainda mais, de estadistas que combatam em nome de uma maior justiça social.