“Não podemos viver apenas de ritualismo”: Padre David Palatino desafia cristãos açorianos a redescobrir o Batismo como compromisso de vida

XIV Jornada Bíblica dos Açores realiza-se hoje no Pico; amanhã e depois na ilha Terceira

Foto: Padre Davi Palatino /SF

As Jornadas Bíblicas das Ilhas do Faial, Pico e Terceira terminam esta sexta-feira com um apelo claro à renovação da identidade cristã a partir do Batismo. O orientador do encontro, o padre David Palatino, sacerdote do Patriarcado de Lisboa, defende que é tempo de ultrapassar um modelo centrado apenas no sacramentalismo e assumir uma vivência mais consciente, fraterna e comprometida da fé.

“Temos de passar de um cristianismo de tradição para um cristianismo de convicção”, afirmou o biblista, sublinhando que uma parte significativa dos portugueses que se dizem católicos “são apenas batizados”, sem que isso se traduza numa prática coerente do ponto de vista ético, moral e comunitário.

O convite para orientar estas jornadas partiu do padre Teodoro Medeiros, antigo colega de estudos em Roma e diretor do Serviço Diocesano da palavra e Apostolado Bíblico. Para o presbíetro a experiência tem sido “muito bonita”, quer pelo aprofundamento exigido na preparação, quer pelo contacto com os participantes.

“Cada vez vemos mais gente com sede de aprender, sobretudo tudo aquilo que diz respeito à Sagrada Escritura”, destacou, referindo que as sessões foram marcadas por forte participação e questões “muito pertinentes”, deixando mais desafios do que respostas fechadas.

Integradas no chamado “triénio do anúncio”, as jornadas deste ano centram-se no Batismo como ponto de partida de uma caminhada cristã mais longa. Tendo a comunidade cristã primitiva como referência, o presbítero de Lisboa propõe uma mudança de perspetiva: “Mais do que perguntar ‘cristão, que dizes de ti mesmo?’, talvez devêssemos perguntar: ‘o que é que Deus diz de nós?’”. Para o padre, é dessa consciência — a de sermos filhos muito amados de Deus — que nasce a verdadeira identidade cristã e a corresponsabilidade na construção da Igreja.

“O Batismo não é apenas um rito do passado. É a nossa dignidade principal e o que nos identifica. Mas isso tem de ser visível na forma como vivemos a fraternidade”, afirmou, evocando o critério deixado por Jesus no Evangelho: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.

Segundo o padre David Palatino, a condição de discípulo não se mede pela quantidade de tarefas realizadas na Igreja, mas pela capacidade de estar com Cristo e de viver em comunhão com os outros.

Reconhecendo que há comunidades onde a fraternidade é vivida de forma exemplar, admite que, em muitos contextos, este compromisso falhou. Ainda assim, acredita que a comunhão continua a ser o maior foco de atração para quem está afastado da fé.

“Para quem nunca fez uma experiência cristã forte, é a fraternidade vivida que mais interpela”, sublinhou.

O sacerdote não evita uma autocrítica à instituição. Durante décadas, considera, a Igreja privilegiou excessivamente a dimensão sacramental e hierárquica, tornando-se quase uma “fábrica de sacramentos”.

“Hoje estamos a pagar um bocadinho essa fatura”, reconheceu. Sem desvalorizar a importância dos sacramentos, defende uma Igreja menos centrada na lógica de prestação de serviços religiosos e mais assumida como mistério de comunhão, participativa e corresponsável.

Interpelado sobre a crescente procura de outras espiritualidades, muitas vezes por parte de pessoas batizadas, o sacerdote entende que a Igreja precisa de oferecer propostas mais qualificadas.

“Hoje, com tanta diversidade de ofertas, não basta organizar eventos. É preciso qualidade, profundidade e competência”, diz apontandao como exemplo as experiências de retiro marcadas pelo silêncio, pela oração e pelo contacto profundo com a Palavra de Deus, defendendo que essas dinâmicas deveriam integrar mais a vida ordinária das comunidades.

“Muitas vezes o Evangelho perdeu sabor porque não apresentamos a sua verdadeira essência. Andamos à volta, mas não entramos no coração”, afirmou, defendendo uma pastoral mais cristocêntrica, enraizada na leitura e meditação da Palavra, na criação de espaços de silêncio e numa formação sólida.

Para o orientador das jornadas, o caminho passa também por um trabalho em equipa mais efetivo, envolvendo sacerdotes e leigos, valorizando dons e carismas e evitando fechamentos em pequenos grupos. “Precisamos de ser mais arrojados, mais criativos, mais competentes. A sede espiritual não desapareceu do coração humano. Talvez seja tempo de mudar paradigmas.”

À medida que as jornadas se encerram nos Açores, fica o desafio lançado às comunidades das ilhas do Faial, Pico e Terceira: redescobrir o Batismo não apenas como um acontecimento do passado, mas como um compromisso presente, vivido em fraternidade, profundidade espiritual e corresponsabilidade na missão da Igreja.

As XIV Jornadas Biblicas dos Açores realizam-se hoje no Pico e amanhã e depois na ilha Terceira.

Arrancaram as XIV Jornadas Bíblicas dos Açores centradas na vocação batismal

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