Leão XIV deixa alertas em encontro com responsáveis políticos, evocando crise que afeta país africano

O Papa iniciou hoje a sua visita aos Camarões com um apelo ao fim da violência nas regiões em conflito, no país africano, e um alerta contra a corrupção que “desfigura a autoridade”.
“As tensões e a violência que afetaram algumas regiões do noroeste, do sudoeste e do extremo norte causaram grandes sofrimentos: vidas perdidas, famílias deslocadas, crianças privadas da escola, jovens que não vislumbram um futuro. Por trás das estatísticas, há rostos, histórias e esperanças feridas”, lamentou Leão XIV.
O primeiro discurso do pontífice no país, perante autoridades políticas, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático, decorreu no Palácio Presidencial, em Iaundé, após um encontro privado com o chefe de Estado, Paul Biya.
O Papa rejeitou o recurso à violência para superar os conflitos e defendeu uma paz “desarmada”, baseada no amor e na justiça, advertindo as elites governantes para as suas responsabilidades éticas.
“Para que a paz e a justiça se afirmem, é necessário quebrar as correntes da corrupção, que desfiguram a autoridade, esvaziando-a de legitimidade. É necessário libertar o coração daquela sede de lucro que é idolatria”, indicou o Papa.
O presidente dos Camarões, Paul Biya, no poder desde 1982, foi reeleito em 2025 para um oitavo mandato.
Leão XIV sustentou que governar significa “ouvir realmente os cidadãos” e valorizou o papel da sociedade civil, das organizações juvenis aos líderes tradicionais, na pacificação social e na mediação local.
“Gostaria de sublinhar com gratidão o papel das mulheres. Muitas vezes, infelizmente, elas são as primeiras vítimas de preconceitos e violências, e, no entanto, continuam a ser incansáveis artífices da paz”, acrescentou.
Na intervenção inaugural desta visita, Leão XIV apelou à transparência na gestão dos recursos públicos e instou os governantes a um “exame de consciência” para restabelecer a confiança popular nas instituições.
Os Camarões enfrentam uma crise nas suas províncias anglófonas, onde grupos separatistas combatem as forças governamentais, num conflito que agravou as deslocações forçadas e a insegurança na região da bacia do Lago Chade.
“A segurança é uma prioridade, mas deve ser sempre exercida no respeito pelos direitos humanos, aliando rigor e magnanimidade, com especial atenção aos mais vulneráveis”, observou Leão XIV.
A intervenção destacou a variedade territórios, culturas, línguas e tradições, nos Camarões.
“Esta variedade não é uma fragilidade: é um tesouro. Constitui uma promessa de fraternidade e um sólido fundamento para a construção de uma paz duradoura.”
O Papa manifestou ainda preocupação com a emigração jovem, falando numa “hemorragia de talentos maravilhosos para outras regiões do planeta”, e os perigos da exclusão social.
“É o único modo de combater os flagelos da droga, da prostituição e da apatia, que devastam demasiadas vidas jovens, de forma cada vez mais dramática”, advertiu.
Na sua saudação, Paul Biya falou de um contexto internacional “complexo” e disse que a visita do Papa é um sinal de “esperança”.
O chefe de Estado elogiou a tolerância religiosa no país africano, destacando o “contributo precioso” da Igreja Católica, num país onde esta comunidade representa 29% da população.
Esta quinta-feira, o pontífice visita Bamenda, no noroeste, uma região anglófona devastada desde 2013 pelos conflitos no país, que provocaram milhares de mortos e quase 500 mil deslocados internos.
As facões separatistas que atuam nas regiões anglófonas anunciaram, esta terça-feira, um cessar-fogo temporário por ocasião da visita do Papa.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar os Camarões, onde São João Paulo II esteve em 1985 e Bento XVI em 2009.
Uma visita marcada por “um significado pessoal”, com a passagem por locais ligados a Santo Agostinho

Numa breve saudação aos cerca de 70 profissionais da comunicação social que o acompanham, o pontífice fez o balanço dos primeiros dois dias do seu périplo africano, iniciado na segunda-feira, na Argélia.
“[Foi] uma oportunidade maravilhosa para continuar a construir pontes e a promover o diálogo”, indicou o pontífice.
De acordo com o portal de informação do Vaticano, o Papa evocou a sua deslocação à Grande Mesquita de Argel como um dos momentos de maior relevo da visita, sublinhando a mensagem de coexistência pacífica que o encontro conseguiu transmitir à comunidade internacional.
“Embora tenhamos crenças diferentes, formas diferentes de rezar e de viver, ainda podemos viver juntos em paz. Promover esta imagem é algo de que o mundo precisa hoje, e que podemos continuar a oferecer juntamente com o nosso testemunho, enquanto prosseguimos nesta caminhada apostólica”, precisou.
O antigo responsável mundial da Ordem de Santo Agostinho recordou de forma particular a sua passagem pela Basílica de Nossa Senhora de África, na capital, e pela Basílica de Santo Agostinho, em Annaba (antiga Hipona), onde o doutor da Igreja foi bispo no século V.
Para Leão XIV, a figura e a espiritualidade de Santo Agostinho mantêm uma enorme atualidade, constituindo um apelo à procura da unidade e do respeito perante a diversidade, que deve ser oferecido ao mundo.
“É uma figura que vem do passado e nos fala da tradição, fala-nos da vida da Igreja nos primeiros séculos do seu desenvolvimento. [A sua visão é] a da busca de Deus e o esforço para construir a comunidade, procurar a unidade entre todos os povos e o respeito mútuo apesar das diferenças”, assinalou.
O pontífice enalteceu o facto de a esmagadora maioria da população argelina, de confissão islâmica, venerar o legado de Santo Agostinho, honrando-o como “um dos grandes filhos da sua terra”.
Nas declarações a bordo do avião, o Papa deixou ainda uma palavra de gratidão às autoridades governamentais argelinas pelo acolhimento, destacando a disponibilização de uma escolta militar durante o sobrevoo do espaço aéreo do país.
“É um sinal da bondade, generosidade e respeito que o povo argelino e o governo argelino quiseram demonstrar à Santa Sé e a mim pessoalmente”, referiu.
A concluir a sua intervenção, Leão XIV saudou a comunidade católica do país magrebino, descrevendo-a como “pequena, mas muito significativa”, antes de agradecer o serviço prestado pelos jornalistas na cobertura da viagem.
(Com Ecclesia e Vatican News)