Antropóloga social e docente, desafia modelo escolar em conversa na Sacristia de São José

Na última conversa realizada na Sacristia da igreja de São José, em Ponta Delgada, Maria Emanuel Albergaria defendeu que a educação deve assumir-se como uma força transformadora da sociedade, criticando o modelo escolar tradicional e apelando a uma maior integração entre cultura, arte e comunidade.
“A educação é algo mais lato do que a escola. É um ecossistema onde todos temos uma quota parte”, afirmou.
Perante uma audiência marcada pela presença de educadores, antigos alunos e colegas, Maria Emanuel Albergaria apresentou uma reflexão sobre o papel da educação na construção de um mundo melhor, tema que tem guiado o seu percurso profissional.
“É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”, sublinhou, citando um provérbio africano frequentemente utilizado no seu trabalho no Plano Nacional das Artes. Para a oradora, a educação ultrapassa os limites da escola e da família, envolvendo toda a comunidade.
Durante a sua intervenção, EmanuelAlbergaria criticou o que considera ser um modelo educativo ainda preso à lógica da industrialização.
“A escola transformou-se mais numa fábrica. Tem uma organização rígida, pouco espaço para a flexibilidade e para a experimentação”, afirmou, defendendo a necessidade de “quebrar muros” e tornar o ensino mais aberto e participativo.
A especialista destacou também a importância do erro no processo de aprendizagem: “Precisamos experimentar e errar, porque é com o erro que se aprende. Não podemos continuar a educar com medo de falhar.”
Outro ponto central foi a ligação entre educação e cultura. “A cultura é educação e a educação é cultura. Têm de andar de mãos dadas”, disse, apontando a presença de artistas nas escolas como uma estratégia com potencial transformador. Segundo explicou, o contacto com as artes permite aos jovens desenvolver novas formas de expressão e autoconhecimento.
A intervenção incluiu ainda críticas à excessiva valorização dos exames. “Os exames servem sobretudo para selecionar os que já são privilegiados. Há outras formas de avaliar, como o portefólio e a entrevista”, defendeu.
Sobre a dimensão espiritual e o papel da religião na escola, Albergaria reconheceu a sua relevância, mas num contexto plural. “Hoje temos de perceber que não há uma religião, há muitas. Todas devem ser respeitadas”, afirmou, acrescentando que a espiritualidade continua a ser essencial para evitar “o vazio” na vida das pessoas.
Num tom assumidamente otimista, a oradora destacou exemplos positivos que tem acompanhado no terreno, reforçando a convicção de que a mudança é possível. “Vejo muitas coisas a acontecer. Acredito nas pessoas e nas comunidades”, disse.
A sessão terminou com um apelo à ação coletiva: “Se queremos transformar o mundo, temos de começar pela educação — e isso é responsabilidade de todos.”
A Conversa na Sacristia é uma iniciativa da Igreja de São José , em Ponta Delgada, que se assume como uma plataforma de diálogo com o mundo.