“A inteligência artificial não pode ficar nas mãos de poucos”, alerta o professor catedrático que considera que a primeira encíclica do Papa Leão XIV representa um apelo urgente à defesa da dignidade humana perante os desafios da inteligência artificial e da era digital

A encíclica Magnifica Humanitas, a primeira do pontificado de Leão XIV, é vista por José Luís Brandão da Luz como uma atualização da Doutrina Social da Igreja para os desafios do século XXI. Em entrevista ao programa Igreja Açores, o professor catedrático jubilado da Universidade dos Açores destaca o paralelismo entre este documento e a histórica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada há 135 anos para responder às transformações provocadas pela Revolução Industrial.
Segundo o académico, que integra a Comissão Fé e Cultura do Instituto Católico de Cultura da diocese de Angra, Leão XIV identifica a inteligência artificial, a robótica e a sociedade digital como as “coisas novas” do nosso tempo, alertando para os riscos éticos e sociais que acompanham o seu desenvolvimento.
“O problema não é a existência das novas tecnologias, mas a forma como as utilizamos e a sociedade que estamos a construir com elas”, sintetiza.
Brandão da Luz destaca o facto da encíclica recorrer a duas imagens bíblicas para ilustrar os caminhos possíveis da humanidade. Por um lado, a Torre de Babel, símbolo da autossuficiência e da pretensão humana de dominar tudo através da técnica; por outro, a reconstrução de Jerusalém , baseada na participação coletiva e na responsabilidade partilhada. Para o professor, esta segunda imagem traduz a visão do Papa para a era digital: uma construção comum orientada pelo bem comum e pela dignidade humana.
Um dos aspetos mais relevantes do documento, refere, é a crítica à concentração do poder tecnológico. O académico sublinha que a tecnologia não pode ser dominada por interesses económicos ou monopolistas e acompanha o Papa na defesa de uma mobilização conjunta da sociedade para colocar a inovação ao serviço do bem comum, evitando a acumulação do poder tecnológico nas mãos de grandes grupos económicos, capazes de influenciar decisões políticas e sociais sem transparência nem escrutínio público.
“A tecnologia não pode estar subordinada ao monopólio de poucos”, defende Brandão da Luz, acrescentando que Leão XIV propõe mecanismos de regulamentação, auditoria e supervisão ética dos algoritmos e das plataformas digitais.
Outro conceito central da encíclica é o “desarmamento da inteligência artificial”. Na interpretação do académico, a expressão não se refere apenas à dimensão militar, mas sobretudo à necessidade de retirar a IA da lógica da competição desenfreada, da corrida pelo domínio económico, cognitivo e geopolítico. O objetivo passa por impedir que a tecnologia seja utilizada como instrumento de poder e exclusão.
A educação ocupa igualmente um lugar de destaque na reflexão papal. Brandão da Luz considera que Leão XIV alerta para o risco de uma sociedade “altamente informada, mas sem tempo para refletir”. A facilidade de acesso à informação pode gerar dependência, reduzir a capacidade crítica e enfraquecer as relações humanas, essenciais para a construção da solidariedade e da vida em comunidade.
Neste contexto, o Papa defende uma educação para a era digital que ajude as pessoas a interpretar, questionar e discutir a informação recebida, em vez de a consumir de forma passiva.
A encíclica dirige-se não apenas aos católicos, mas a toda a humanidade, sustenta o professor. Tal como outros documentos recentes da Igreja, procura promover um diálogo universal sobre os desafios contemporâneos e responder às correntes transhumanistas que defendem a superação das limitações humanas através da tecnologia.
Para Brandão da Luz, Leão XIV rejeita a ideia de que o valor da pessoa dependa da sua produtividade ou desempenho. Pelo contrário, reafirma que a dignidade humana é intrínseca e não necessita de ser demonstrada. Essa visão reflete-se também na defesa de condições laborais justas, de salários dignos e de uma economia centrada na pessoa e não apenas no lucro.
Na reta final da entrevista, que vai para o ar na íntegra este domingo depois do meio-dia no programa de rádio Igreja Açores, na Antena 1 Açores, o académico destaca o apelo do Papa à construção de uma “civilização do amor”, baseada na justiça, na responsabilidade individual e no respeito pelo próximo. Inspirando-se em Santo Agostinho, Leão XIV recorda que a paz só pode ser alcançada através da prática quotidiana da justiça e da valorização da dignidade de cada ser humano.
Para Brandão da Luz, essa é a mensagem essencial da Magnifica Humanitas: perante o avanço tecnológico sem precedentes, o futuro dependerá da capacidade de colocar a inteligência artificial ao serviço da pessoa humana e não de permitir que a pessoa humana se torne subordinada à tecnologia.
A entrevista pode ser ouvida na íntegra este domingo depois do meio, ficando disponível em podcast em www.igrejaacores.pt .