“Muitas vezes são as boas intervenções que evitam intervenções futuras”: novo coordenador do Serviço Diocesano dos Bens Culturais quer reforçar proteção do património

Inventário e sensibilização são prioridades para o líder de uma equipa que integra várias competências e saberes

Foto: igreja Açores/CR

Nomeado há pouco mais de dois meses como diretor do Serviço Diocesano dos Bens Culturais, o arquiteto Filipe Sousa Cunha assume a liderança da equipa com um objetivo claro: reforçar a proteção do património religioso através da inventariação, da sensibilização e da proximidade às comunidades. Integra o Serviço desde 2018, conhece bem os desafios da salvaguarda do património edificado e móvel da Diocese e acredita que o diálogo é o caminho para os ultrapassar.

“O principal desafio é a proteção”, afirma. Para o responsável, essa missão passa inevitavelmente pela realização de inventários, considerados essenciais para conhecer, proteger e valorizar o património existente.

“A questão dos inventários é uma das premissas para se conseguir uma boa salvaguarda”, sublinha.

Atualmente, apenas 21  das 165 paróquias da diocese têm o seu património móvel inventariado. Um número que considera insuficiente, mas que espera ver crescer, apesar das limitações de recursos humanos e financeiros.

“Estamos bem longe daquilo que queremos, mas é esse o desafio”, reconhece. “Nem que seja de uma forma mais simplificada, é importante que o inventário exista. Além do conhecimento que proporciona, é também uma questão de segurança, porque faz prova da propriedade dos bens.”

Nesse sentido, o Serviço tem procurado estabelecer contactos com as autarquias açorianas para encontrar formas de colaboração que permitam acelerar este trabalho.

“Uma das estratégias que temos tentado passa por reunir com as várias autarquias dos Açores para conseguir meios que permitam avançar com os inventários.”

Património exige manutenção preventiva

Entre as maiores preocupações do novo coordenador está o estado de conservação do património edificado. Sublinha que muitos problemas poderiam ser evitados através de uma manutenção regular, sobretudo nas coberturas dos edifícios religiosos.

“Os grandes problemas passam sempre pela manutenção do edificado”, refere.

“Nas igrejas, por exemplo, a falta de limpeza das coberturas ou pequenas anomalias técnicas podem provocar infiltrações que acabam por degradar não só o imóvel, mas também todo o património que existe no seu interior.”

Os infestantes, como pragas, a acumulação de águas e até elementos decorativos, como flores colocadas junto das paredes, podem acelerar processos de degradação. Por isso, insiste na importância da prevenção.

“Muitas vezes são as boas intervenções que evitam intervenções futuras próximas”, afirma.

“Tentamos estar presentes nesses cuidados porque sabemos que, depois de uma intervenção, é muito difícil conseguir voltar a intervir.”

Comissão quer ser vista como parceira

Filipe Sousa Cunha faz questão de afastar a ideia de que o Serviço Diocesano dos Bens Culturais existe apenas para autorizar ou impedir intervenções.

“Nunca quisemos ser um atrito, mas sim uma ajuda”, garante.

Essa proximidade passa por acompanhar os responsáveis paroquiais e prestar apoio técnico sempre que necessário.

“Temos tentado sensibilizar ao máximo. Em muitos casos tem sido um desafio, mas queremos afirmar a nossa presença como apoio e não como uma dificuldade para quem quer realmente fazer.”

A equipa integra especialistas em diferentes áreas e pretende reforçar a sua presença em mais ilhas do arquipélago. Atualmente, os seus membros encontram-se distribuídos entre São Miguel e a Terceira.

“Gostávamos de estar presentes em mais ilhas. Pela nossa condição arquipelágica nem sempre é fácil, mas queremos que essa proximidade seja cada vez maior.”

Igrejas abertas ajudam a proteger o património

Outro dos desafios identificados prende-se com a crescente dificuldade em manter as igrejas abertas ao público.

Para o coordenador, existe um equilíbrio delicado entre garantir a segurança dos bens e permitir que as pessoas possam visitar os templos.

“Promover pode ajudar a cuidar”, defende. “Sei que pode parecer um paradoxo, mas ter pessoas presentes pode também ajudar na salvaguarda do património.”

A solução passa por encontrar formas de visita que conciliem segurança e valorização cultural, recorrendo sempre que possível a sistemas de vigilância ou outras medidas de proteção.

“Talvez tenhamos de pensar nas igrejas também como núcleos visitáveis, permitindo que o património seja conhecido. Dar uso ao edifício ajuda a protegê-lo.”

Na sua perspetiva, a arte continua a ser um importante veículo de evangelização e de aproximação das pessoas às igrejas.

“Em muitos casos, a fé também se promove através da arte.”

Património protegido com diálogo

Ao assumir a coordenação do Serviço Diocesano dos Bens Culturais, Filipe Sousa Cunha acredita que os desafios existentes são exigentes, mas ultrapassáveis.

“O principal desafio é a proteção, mas também a sensibilização”, resume.

E deixa uma convicção sobre a forma como pretende liderar a equipa: “Queremos afirmar a nossa presença como ajuda, como proximidade e como colaboração. Quanto mais isso for visto dessa forma, mais facilmente haverá cooperação e melhor será a salvaguarda do nosso património.”

 

Bispo de Angra nomeia nova equipa do Serviço Diocesano dos Bens Culturais da Igreja

 

Scroll to Top