Há mais de três décadas que quatro casas de acolhimento, em Ponta Delgada, oferecem mais do que um teto a crianças e jovens marcados por situações de negligência, maus-tratos ou incapacidade parental. Geridas pelo Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos, acolhem jovens entre os 4 e os 26 anos e o objetivo passa por reconstruir afetos, devolver estabilidade e preparar cada um para uma vida autónoma

Quem chega ao bairro percebe que as residências são praticamente todas iguais, na construção e na tipologia. Alinhadas ao longo do caminho, distinguem-se pela cor das barras das paredes e pelas cores das janelas, mas dificilmente alguém encontra ali a imagem tradicional de uma instituição de acolhimento.
Entramos na primeira das quatro casas geridas pelo Centro Social e Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos, na Fajã de Baixo, que serve sobretudo para acolher os pais que visitam as crianças, os jovens que querem ter momentos de lazer ou os serviços técnicos e administrativos e até a sala de reuniões serve para que as crianças ou jovens que queiram estudar de forma mais recatada o possam fazer. Não há dormitórios impessoais nem grandes alas. Há salas de estar, cozinhas, quartos personalizados e uma rotina pensada para que cada criança encontre, em cada casa, aquilo que muitas vezes nunca teve: um ambiente familiar.
Desde 2009, quando a gestão das casas transitou das Irmãs do Bom Pastora para o Centro Social e Paroquial, na sequência de um protocolo com o Instituto da Segurança Social, Aldina Gamboa tem sido uma das principais responsáveis por este projeto. Vice-presidente da instituição, conhece praticamente todas as histórias que passaram por aquelas portas e resume a missão numa frase simples: “A maior urgência desta terra é educar famílias.”

As quatro casas pertencem à Segurança Social e foram cedidas para esta finalidade em 1995. Inicialmente ficaram sob a responsabilidade das Irmãs do Bom Pastor, que se instalaram na Fajã de Baixo depois do encerramento do instituto que mantinham no Livramento. Em 2009, a tutela passou para o Centro Social e Paroquial da Fajã de Baixo.
“Foi uma aventura. Nenhum de nós tinha experiência nesta área, mas como cristãos não podíamos dizer que não” diz Aldina Gamboa que com o marido levou por diante esta missão, abraçada pela Igreja da Fajã de Baixo, na altura em que o padre Vítor Arruda era o pároco.
Ao longo destes anos passaram por estas casas dezenas de crianças. Houve tempos em que, numa das casas, acolhiam recém-nascidos e bebés até aos seis anos. Hoje, vivem nas quatro casas crianças dos quatro os 26 anos. Uma delas tem necessidades especiais e, na grande maioria, há sinais de doença mental.
Uma das maiores mudanças aconteceu na filosofia de acolhimento
Durante muitos anos existiam casas exclusivamente para raparigas. Hoje o modelo é diferente: as casas são mistas e há uma regra que dificilmente é quebrada: “Irmãos não se separam.”
Essa opção obriga muitas vezes a reorganizar espaços, mas evita acrescentar um novo trauma a crianças que já perderam praticamente tudo, reconhece Aldina Gamboa que no momento da reportagem se faz acompanhar por dois dos quatro técnicos que acompanham estas crianças: dois psicólogos e duas assistentes sociais. André Botelho e Beatriz Silva vão secundando o que diz Aldina e até acrescentando pormenores com a sua experiência presente. São eles que estão diariamente com os jovens e a proximidade é tanta que quando nos deslocamos de casa em casa, para ver os espaços, é para eles que correm os mais pequenos em busca de um abraço ou as mais velhas partilhando um problema ou uma foto do telemóvel.

Atualmente vivem nas casas jovens provenientes de toda a ilha de São Miguel, de outras ilhas dos Açores e até do estrangeiro. Entre os casos mais marcantes está o de uma jovem estrangeira que veio passar férias aos Açores, acabou por ficar acolhida e hoje representa um exemplo de sucesso escolar e de integração.
A maioria das crianças chega através das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Quando existe acordo da família, o acolhimento é feito administrativamente; quando esse consentimento não existe, o processo segue para decisão judicial.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, poucas destas crianças estão sinalizadas para adoção. A prioridade continua a ser, sempre que possível, recuperar a família biológica.
As razões que levam uma criança ao acolhimento mudaram muito nas últimas décadas.
Se antigamente predominavam situações associadas à pobreza extrema, alcoolismo ou à morte de um dos progenitores, hoje os técnicos encontram uma realidade diferente.
“A pobreza económica já não explica tudo. Há muita pobreza de espírito”, observa Aldina Gamboa.
Negligência, maus-tratos físicos e psicológicos, absentismo escolar, doença mental e ausência de competências parentais são hoje os motivos mais frequentes, acrescenta André Botelho.
Para Aldina Gamboa, existe uma inversão de prioridades na sociedade.
“Criou-se o mito da família ideal, mas muitas vezes com valores invertidos e sem uma hierarquia de prioridades. Isso destruiu muitas famílias. e onde não há amor nem sentido do outro é difícil garantir uma vivência saudável”, refere.
As marcas emocionais são profundas.
Beatriz Silva, técnica da instituição, explica que muitas crianças vivem conflitos difíceis de compreender, seja por falta de afecto seja por maturidade sócio-parental.
Há irmãos acolhidos enquanto outros permanecem com os pais. Existem crianças que fazem vídeochamadas para casa e acabam revoltadas ao perceber que os pais tiveram novos filhos enquanto elas continuam institucionalizadas. Essa revolta manifesta-se frequentemente através da violência entre pares ou da auto-mutilação, referem os técnicos.
Nem é sequer para chamar a atenção. Muitas têm esses comportamentos porque a sua auto-estima é muito baixa. A descompensação psicológica, a falta de balizas e o desnorte de afectos faz com que muitas vezes as crianças se sintam revoltadas ou até culpadas.
Também as visitas revelam, por vezes, as fragilidades familiares.
“Muitas vezes, o mais importante para os pais é o saco de guloseimas que levam, quando aquilo de que os filhos mais precisam é de afeto” sublinha ainda Beatriz Silva.
Nas quatro casas trabalham atualmente 25 profissionais, entre ajudantes de lar, funcionários de serviços gerais, a que se somam os técnicos superiores. Durante a noite permanecem sempre funcionários em todas as casas.
Cada jovem tem um Plano de Intervenção Individual, definido e avaliado regularmente por uma equipa multidisciplinar.
Segundo André Botelho, técnico da instituição, praticamente todas as crianças beneficiam de acompanhamento psicológico e muitas são seguidas em pedopsiquiatria.
A intervenção estende-se muito para além da saúde.
As visitas às crianças obedecem às determinações do Tribunal e, sempre que possível, os pais acompanham consultas médicas e outros momentos importantes. Curiosamente, nota André Botelho, muitos valorizam mais a presença nas consultas do que na escola.
“Nunca tive um pai que me acompanhasse a uma reunião escolar” salienta.
Há estudo acompanhado, explicações com voluntários, biblioteca para incentivar hábitos de leitura, atividades de ocupação dos tempos livres e reuniões periódicas para avaliar objetivos pessoais.
“Fazemos isto mês a mês para vermos a evolução e modificarmos estratégias se for caso disso”, explica.
A autonomia é uma palavra repetida por todos.
Os jovens permanecem normalmente até aos 18 anos, podendo continuar enquanto frequentarem estudos ou formação, mas só até aos 25. O objetivo é que saiam preparados para viver sozinhos, gerir uma casa, trabalhar e construir uma vida estável.
“Não queremos formar ilhas”, resume Aldina Gamboa.
“Queremos que saiam daqui com autonomia e capacidade para viver em sociedade. E muitos saem.”
O trabalho não termina nas crianças.
Sempre que existe possibilidade de reintegração, a instituição procura fortalecer as competências parentais.
Entre as iniciativas destaca-se o Projeto VINCA, criado para ajudar famílias vulneráveis a adquirir hábitos de economia doméstica, organização familiar e cuidados parentais.
O regresso à família é sempre o primeiro objetivo, mas raramente acontece de forma imediata.
Quando existem vários irmãos acolhidos, o retorno faz-se à medida que a família demonstra condições para receber cada criança. Nem sempre todos regressam ao mesmo tempo, situação que gera incompreensão e sofrimento.
Na opinião de Aldina Gamboa, muitos processos prolongam-se excessivamente antes de se concluir que a família biológica não reúne condições para reassumir a parentalidade. Por isso, adianta: o trabalho de defesa das crianças é importante mas temos de atuar junto das famílias.
“Este é o grande desafio”, refere.
“É um ciclo que se repete. Enquanto não conseguirmos educar famílias, reforçar valores e desenvolver competências parentais, continuaremos a receber crianças que carregam os mesmos traumas.”
Nas quatro casas da Fajã de Baixo, esse trabalho faz-se todos os dias, discretamente, longe dos holofotes. Não se limita a alimentar, vestir ou escolarizar. Procura devolver infância a quem a perdeu demasiado cedo e preparar adultos capazes de construir aquilo que nunca tiveram: uma família saudável.
Centro Social e Paroquial da Fajã de Baixo: mais de meio século a cuidar e educar com coração





