Um homem, umas barbas e uns olhos que riem

Pelo padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores / JC

Falava-se à boca pequena, comentava-se nos “mentideiros” da Fonte do Bastardo, nos botequins, no adro da igreja depois da missa, aos portões das vizinhas, onde quer que se ajuntassem pessoas naquela terra. O senhor Argentino, homem bom e querido na freguesia, que morava em frente à venda do Florêncio, abaixo da escola velha, tivera um desgosto tão grande na vida que mandara fechar as portadas das janelas da sua casa e quase nunca mais saiu de lá. É que o filho se tinha tornado comunista e, pior ainda, do MRPP, esse movimento dos rapazes que pintam paredes e de quem todo o católico devia dizer abrenúncio.

Andávamos em meados dos anos 70 e eu, do baixo dos meus sete, oito anos, ansiava por ver, nem que fosse ao longe, esse tal filho do senhor Argentino que espalhava o medo pela freguesia, encantando os filhos de cada um com uma flauta mágica, sobretudo rapazes da Canada do Regelo, esse lugar sempre mais louco e arejado da freguesia.

Vi-o então, num certo dia, o filho do senhor Argentino, ia eu ao lado de meu irmão Hernâni, e ele a descer a Fonte do Bastardo, barbas farfalhudas e uns olhos que sorriam sem querer, não era aquela a cara que eu esperava de um comunista retinto. E eu, porque tenho essa paixão por pessoas e animais injustiçados, comecei, instintivamente e em segredo, a gostar dele.

Vitalino Fagundes foi – podemos dizer – maltratado na sua freguesia, bem mais do que uma vez. Que eu saiba, os seus ideais políticos nunca fizeram mal a ninguém, mas a gente sabe como corre o mundo, sobretudo quando o mundo é pequeno, como a Fonte do Bastardo dos anos 70. Todo aquele que pensasse diferente, como o tio José Professor ou o tio Mateus Leal ou o Vitalino Fagundes, levavam consigo o selo da excomunhão. Um caso anedótico refere que ele ia passando pela despensa do Espírito Santo e, a pedido de alguém, ajudou a acartar uns cestos de pão para o bodo. Foi visto por uma mulher que, quase desmaiando, se benzeu e exclamou: “Credo, Jesus! O Senhor Espírito Santo nas mãos de um comunista!”

Não teve grandes vitórias políticas e deve ter sofrido silenciosos dissabores. Mas Vitalino Fagundes tinha e tem, acho, um espírito superior. E vingou-se da freguesia com distinção: amando-a. Isto uns vinte e tal anos mais tarde. Tinha eu acabado de chegar de Roma a Lisboa, na primeira década deste milénio, entrei num quiosque e desfolhei o jornal “A Bola”. Numa das páginas, em cima, à esquerda, um título fez-me saltar as lágrimas dos olhos: Fonte do Bastardo 3, Benfica 1. Vitalino Fagundes, o “influencer” dos jovens da Fonte do Bastardo, acabara de levar aquele lugarejo de mil almas a campeão nacional de voleibol, ainda por cima ganhando ao Benfica! A Associação de Jovens da Fonte do Bastardo, outrora olhada de soslaio, era agora a bela adormecida, a heroína que movia toda uma população, até o horário da missa de sábado passou para as quatro da tarde para toda a gente ir ao voleibol.

Vitalino Fagundes continua o mesmo, as barbas já brancas, os olhos descaradamente sorridentes e aquela pitada de humor quase inglês que, unida à sua voz nasalada e terceirense, lhe dá uma personalidade única. Às vezes parece mal-encarado, mas hoje, na Fonte do Bastardo, desde a criança mais humilde ao idoso mais entrado, ninguém não gosta dele. Como se processou, numa terra como aquela, essa revolução ontológica, em que ele passou de mal-amado mais-que-amado, é um fenómeno sociológico que merece uma tese de doutoramento.

Ainda não tive uma grande oportunidade para lhe falar de Deus e da fé. Vitalino é ateu, daquele ateísmo que gosta de não se esquecer de Deus nem dos grandes valores do Evangelho. É que não há santos ateus, mas há – e muitos – ateus que são santos ou, no mínimo, exemplos de vida.

Também não lhe perguntei se, hoje, na lonjura dos seus anos de jovem inquieto, ainda sonha com alguns dos ideais que o levaram a sair de si e a entregar parte da vida por uma causa. No fundo, como padre católico, desejo, de coração, que os mantenha intactos.

*Este artigo foi publicado esta sexta-feira no jornal Diário Insular, na rubrica Dorsal Atlântica

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