“Ser avó é ser luz”: a missão de quem ama, orienta e nunca esquece

Domingo a Igreja celebra o VI Dia dos Avós. O Papa, na mensagem para este ano, inspira-se em Isaías e pede aos jovens para não abandonarem os idosos

Foto: Conceição Duarte

À distância de centenas de quilómetros, Conceição Duarte, natural da ilha Terceira, encontrou uma forma muito própria de matar as saudades dos netos. “Quando estou com ele digo-lhe: ‘Deixa a avó cheirar-te’. Trago aquele cheiro comigo. Quando o perco, sei que está na altura de regressar.” É assim que esta avó de dois netos – dois rapazes, um de quatro anos e outro de quatro meses- descreve a intensidade de um amor que, apesar da distância, se alimenta da presença, da oração e da memória.

As palavras de Conceição ganham um significado especial numa altura em que a Igreja celebra o VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, no próximo domingo, por se assinalar a festa liturgica de Santa Ana e São Joaquim, avós maternos de Jesus.

Na mensagem deste ano, o Papa Leão XIV desafia as famílias e toda a sociedade a “retomar o bom hábito de visitar os idosos”, recordando que “eu nunca te esquecerei” é a promessa de Deus a cada pessoa.

Para Conceição Duarte, que vive a a idade de avó à distância, a solidão não faz parte do seu quotidiano.

“Sinto falta, mas não sinto solidão. Todos os dias peço a Deus por eles. Confio.”

As videochamadas ajudam a diminuir a distância, mas nem sempre são fáceis para um menino pequeno.

“O mais velho, que tem quatro anos, acha piada mas não lida bem com as videochamadas. Fica ali, a querer abraçar-nos e não consegue.”

Por isso, cada reencontro é vivido intensamente e cada despedida é diferente.

Catequista há muitos anos e profundamente devota do Espírito Santo, Conceição Duarte que está sempre ligada “às coisas da Igreja”, acredita que ser avó é uma experiência completamente distinta da maternidade.

“Ser avó é como se fosse uma segunda oportunidade para darmos tempo. Temos uma sabedoria diferente, uma disponibilidade interior diferente. Temos tempo e temos tempo de qualidade, porque só eles importam.” E, para essa afirmação, contam os dias da sua própria maternidade, apenas com uma filha.

“Também dava colo à minha filha, mas adormecia-a e punha-a no berço porque tinha o resto da vida para terminar. Agora nada é mais importante do que eles. Não há casa, não há roupas, não há comida… eles e só eles.”

Por isso, diz várias vezes ao longo da conversa com o Sítio Igreja Açores, que este amor devolve alegria e energia.

“Não é mais nem menos do que um filho, mas é uma alegria. Acendeu de novo um fogo.”

Talvez, diz, seja por isso que compreende agora melhor a frase da mãe, que confidenciava não conseguir explicar o que era ser avó.

Para Conceição, os avós têm uma missão muito própria: ajudar a formar o coração dos netos.

“O papel dos avós é orientar”, afirma.

Recorda uma caminhada com o neto, quando passaram por pessoas em situação de sem-abrigo.

“Em vez de dizer que aqueles senhores ficaram assim porque não tiveram juízo, posso explicar que não têm uma casa como ele, nem alguém que os ame, nem dinheiro para comer. Assim aprende a valorizar aquilo que tem” afirma com uma certeza de quem considera que o principal papel dos avós é despertar para os valores.

“Foi isso que eu aprendi com a minha avó materna. O serviço, este espírito de serviço em mim, vem dela”.

Na sua opinião, muitas vezes os pais não conseguem abordar estes temas.

“Os pais evitam, às vezes porque não há tempo ou porque querem poupar as crianças. Nós, avós, temos tempo para explicar estas coisas, que também demoram e exigem disponibilidade para responder uma e outra vez.”

É também através das pequenas palavras do dia a dia que procura construir a auto-estima do neto.

“Digo-lhe muitas vezes: ‘Eu adoro-te’. Valorizo as coisas que ele faz. Quero que ele se sinta amado.”

Hoje, diz com uma gargalhada, que ele já lhe responde da mesma forma.

A fé ocupa igualmente um lugar central nesta relação.

Catequista e devota do Espírito Santo, Conceição acredita que as crianças compreendem Deus através das experiências mais simples.

Comprou recentemente o livro O Espírito Santo para Pequeninos e começou por ensinar ao neto a oração do Anjo da Guarda.

“Reza sempre antes de te deitares, mesmo que ninguém te mande.”

Depois procurou explicar-lhe quem é o Espírito Santo.

“Perguntei-lhe: ‘Quando rezas ao Anjo da Guarda sentes uma coisinha no coração?’ Disse-lhe que o Espírito Santo é isso. Quando sentes uma alegria muito grande, uma impressão boa no coração… talvez seja assim que uma criança de quatro anos consegue compreender.”

Para Conceição Duarte, transmitir a fé faz parte da missão dos avós.

“Naturalmente que sou crente e ensino-lhe estas coisas. Os avós orientam e ensinam aquilo para que, muitas vezes, os pais não têm tempo nem disponibilidade.”

Apesar de continuar a trabalhar – “oh, ainda me faltam 10 anos para me reformar”- garante que o tempo passado com os netos tem prioridade absoluta.

“Quando estamos com eles, o mundo pára. Nada mais interessa. Estamos ali por inteiro”.

É precisamente essa presença total que considera ser a essência de ser avó.

“Se calhar é isso que explica ser avó e ser avô” sublinha.

No fim, resume tudo numa frase que transporta consigo a herança recebida dos próprios avós.

“Ser avó é ser luz. É isso que eu quero ser para os meus netos, porque foi isso que eu recebi dos meus avós.”

Foto: Vatican news/Ecclesia

Um apelo que ecoa nas famílias

Na mensagem para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, o Papa Leão XIV recorda que os idosos nunca devem sentir-se esquecidos e desafia os mais novos a visitarem os seus avós, levando-lhes proximidade, tempo e carinho.

O Papa escreve na mensagem que “o amor de Deus, que, pelo contrário, não esquece ninguém, oferece-se como um ato de justiça e uma resposta ao anonimato, no qual, com demasiada frequência, a vida humana acaba por perder-se”.

“Sobre a existência de muitos idosos, em particular, parece estender-se um véu que esbate as feições dos rostos e relega ao esquecimento. É o que acontece nas casas onde reina a solidão, e também naqueles asilos onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida ao número da sua cama ou à sua patologia”, ressalta.

A história de Conceição Duarte mostra precisamente isso: que a distância pode dificultar os abraços, mas não diminui o amor. Entre orações diárias, histórias, colo, ensinamentos e a alegria dos reencontros, continua a cumprir aquela que considera ser a maior missão de uma avó.

“Quando a gente se vê é abraços sempre. Estar com eles ajuda-nos a carregar baterias. Saber que ele está bem e que as minhas orações chegam até ele. Quando estou com eles estou a 500%. Depois volto à minha vida… mas levo-os sempre comigo.”

Foto Lar de idosos

De acordo com os dados mais recentes dos Censos e de entidades oficiais, cerca de 517.146 pessoas com 65 ou mais anos vivem sozinhas em Portugal. Entre estas, 43.074 encontram-se em situação de isolamento ou vulnerabilidade extrema, identificadas pela operação Censos Sénior da Guarda Nacional Republicana (GNR).

Ao mesmo tempo, mais de 100 mil idosos vivem atualmente em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), distribuídas por cerca de 2.700 lares e residências sénior em todo o país. A elevada taxa de ocupação destas instituições, que varia entre 70% e 90% da capacidade, evidencia a crescente pressão sobre a rede de apoio à população sénior.

Na Região Autónoma dos Açores, o envelhecimento da população acompanha a tendência nacional. Estima-se que existam cerca de 39 mil pessoas com 65 ou mais anos, segundo dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA).

Deste universo, cerca de 6.500 idosos vivem sozinhos, enquanto entre 2.500 e 3.000 encontram-se institucionalizados em lares (ERPI) distribuídos pelas nove ilhas.

Os dados revelam ainda que as famílias unipessoais representam aproximadamente 13% do total das famílias açorianas, sendo que 64% dessas famílias são constituídas por pessoas com 65 ou mais anos.

A gestão das estruturas residenciais nos Açores é assegurada maioritariamente por Misericórdias e Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), muitas delas com ligação à Igreja, em articulação com o Instituto de Segurança Social dos Açores. No entanto, o envelhecimento demográfico, aliado às características geográficas do arquipélago, tem contribuído para uma procura crescente por vagas, originando listas de espera em várias instituições.

Especialistas alertam que estes números reforçam a necessidade de investir não apenas em lares e residências para idosos, mas também em serviços de apoio domiciliário, programas de combate ao isolamento social e políticas de envelhecimento ativo, capazes de permitir que um maior número de idosos permaneça nas suas comunidades com qualidade de vida e segurança.

Leão XIV convida os jovens a visitarem os avós

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