Papa alerta para “inimigos inventados pelo medo e pela ignorância”

Foto: Lusa

O Papa encerrou hoje o encontro internacional da juventude franciscana em Assis com um apelo à intervenção dos cristãos nos cenários de maior injustiça social e à rejeição dos preconceitos.

“Evitar a cultura do poder e derrubar os muros que separam os seres humanos uns dos outros não é, de forma alguma, trair a família, a cidade ou a tradição, mas sim libertá-las dos seus fantasmas, dos inimigos inventados pelo medo e pela ignorância, da violência com que se quer impor”, desafiou Leão XIV, na homilia da Missa a que presidiu na Basílica de Santa Maria dos Anjos.

Perante os milhares de participantes do ‘GO! Encontro da Juventude Franciscana 2026’, o pontífice convidou a imitar o modelo de santidade oferecido por São Francisco de Assis.

“Ousai acreditar na palavra do Evangelho, tornai-vos humanos com a liberdade de Jesus Cristo, abraçai a irmã pobreza”, afirmou.

A celebração eucarística coincidiu com a festa litúrgica da Transfiguração de Jesus, deixando uma mensagem contra a “resignação” e o “medo”.

“Queridos jovens, devotai-vos à civilização do amor, da qual encontrastes os primeiros rebentos em tantos exemplos de gratuidade, e que transfigura, à imagem de Cristo, inúmeros construtores de paz empenhados, ainda hoje, em servir a vida nos mais trágicos cenários de morte”, apontou o Papa.

Aludindo ao imperativo ‘Go’ (vão!), que inspirou o encontro, Leão XIV convidou os participantes a partir em “direção às margens, onde a injustiça e a prepotência de poucos negam a dignidade e os sonhos de muitos, demasiados, filhos e filhas de Deus”.

“Confiar em Deus é reencontrar, tal como Francisco e Clara, um mundo de irmãos e irmãs a valorizar e servir, não a explorar nem a dominar. Um mundo não para defender, mas para abraçar.”

A homilia recuperou uma mensagem central da encíclica ‘Magnifica humanitas’, alertando para o risco de “de construir um mundo desumano e mais injusto”.

“A espiritualidade franciscana, na qual fostes formados, encontra-se entre as mais focadas em restaurar as relações fundamentais com Deus e com todas as suas criaturas: uma harmonia a salvaguardar e a cultivar, hoje mais do que nunca”, apontou Leão XIV.

O Papa citou o seu antecessor, que identificou a “tentação de ser cristãos mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor”.

“Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano”, indicou, recordando a exortação ‘Evangelii Gaudium’, de Francisco.

A oração universal da Missa incluiu uma prece dedicada aos profissionais da “revolução digital”, pedindo a Deus que estes purifiquem as plataformas tecnológicas de “desigualdades” e “opacidades”.

Antes da bênção final, o jovem Francesco Varone saudou o Papa, agradecendo-lhe pela sua proximidade.

“A sua voz encoraja-nos a não ter medo de escolher o bem e a acreditar que o Evangelho ainda pode mudar o coração do homem”, partilhou o representante da assembleia.

O encerramento da Eucaristia ficou igualmente marcado pelo canto do hino oficial do oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis.

Foto: Vatican Media

Já antes da Missa, o Papa tinha proposto a vivência da fraternidade cristã como resposta aos desafios da Igreja e da sociedade contemporânea.

“Se nos reconhecermos irmãos e irmãs, quantas discriminações e desigualdades poderiam acabar num instante!”, disse Leão XIV aos milhares de participantes do ‘GO! Encontro da Juventude Franciscana 2026’, reunidos na praça da Basílica de Santa Maria dos Anjos.

A reflexão respondeu às inquietações de um jovem siciliano sobre as falhas institucionais do catolicismo e o distanciamento das novas gerações, lembrando o Papa que a comunidade idealizada por Jesus Cristo procura superar as divisões.

“Quando, graças a Deus, este milagre da Igreja continua a acontecer ainda hoje, nas nossas cidades repletas de muros invisíveis que nos separam uns dos outros, é algo surpreendente”, declarou.

O Papa sustentou que a vocação dos cristãos passa por manter viva esta capacidade de acolhimento, num mundo marcado pela “desconfiança”.

“À volta de Jesus, homens e mulheres que, de outra forma, nunca se teriam encontrado nem relacionado, tornam-se irmãos e irmãs”, referiu.

Na sua pergunta, o jovem Luigi evocou a figura de São Francisco de Assis, falecido há 800 anos, recordando que o santo preferiu obedecer e “reparar” a comunidade crente em vez de escolher os caminhos da “heresia”.

Outra pergunta veio de Giovanni, jovem de Bolonha, que abordou as angústias das novas gerações perante as opções existenciais, num tempo dominado pela cultura do provisório e pelo medo de assumir compromissos duradouros.

“Em quase todo o mundo, está a desaparecer a estabilidade das sociedades tradicionais, em que gerações inteiras, ao longo de uma vida, apenas conseguiam ver mínimas mudanças”, apontou o Papa.

“Na fé, desmascaramos a ilusão de que os problemas se resolvem fugindo, traindo ou tentando dar alguns passos por caminhos sempre diferentes, sem nunca irmos longe. Com efeito, é possível multiplicar experiências, contactos e consumos, permanecendo, no entanto, sempre no mesmo ponto. O custo humano é elevado e o vazio interior, profundo.”

O chamamento de Deus nunca aprisiona a pessoa numa “jaula”, conduzindo antes a um dinamismo libertador, tranquilizou Leão XIV, na sua resposta.

“Neste contexto, a coragem de fazer uma escolha definitiva é talvez o ato mais revolucionário”, desafiou o Papa, convidando as novas gerações a arriscarem passos firmes na sua vida e nas suas vocações.

A intervenção incluiu também a partilha da experiência pessoal de Leão XIV ao longo do seu percurso religioso.

“Enquanto vocacionado ao sacerdócio, membro da comunidade agostiniana, missionário, encontrei como que uma luz que me guiou até hoje, até quando tive de dizer ‘sim’ a um chamamento muito especial: o de ser Papa”, referiu, motivando uma salva de palmas dos presentes.

Após o encontro, o Papa cumprimentou os representantes das diferentes ordens franciscanas, no claustro do Convento da Porciúncula.

A visita apostólica de Leão XIV à região italiana da Úmbria terminou com o voo de regresso em helicóptero para o Vaticano.

(Com Ecclesia e Vatican news)

Scroll to Top