Senhor Santo Cristo da Caldeira reúne várias gerações e confirma ligação dos jovens à festa

Há uma semana que todos os caminhos vão dar à Caldeira da Fajã de Santo Cristo, em São Jorge

Foto: Igreja Açores/DS (Arquivo)

A Caldeira da Fajã de Santo Cristo, em São Jorge, viveu este domingo o dia grande da festa em honra do Senhor Santo Cristo, uma das principais manifestações religiosas da ilha e a celebração que encerra o ciclo das grandes festas de verão.

O Santuário Diocesano voltou a receber peregrinos, romeiros, famílias e visitantes de várias ilhas, numa celebração marcada pela fé, pela tradição e pelo convívio, mas também pela procura crescente daquele espaço como lugar de silêncio e de encontro com Deus.

A missa para os peregrinos foi celebrada pelas 9h00, seguindo-se, às 11h00, a missa solene, que culminou com a procissão e o tradicional sermão da praça. A pregação esteve a cargo do padre Manuel António das Matas, reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo da Caldeira, no âmbito do tema do ano pastoral “Cristão, que dizes de ti mesmo?”, com uma reflexão centrada no Batismo e no compromisso cristão.

Ao longo dos últimos dias, a Caldeira foi recebendo pessoas que chegaram através do trilho, muitas delas em peregrinação, outras para acampar e participar no programa religioso e no convívio que caracteriza estes dias.

Para o ouvidor de São Jorge, padre Vítor Medeiros, esta participação demonstra a força que a festa continua a ter junto da população.

“Também eu em família fiz o trilho e já encontrei muita gente a participar nas celebrações, gente a acampar”, afirma o sacerdote, destacando a presença de pessoas de diferentes comunidades.

Apesar das exigências do percurso, a motivação mantém-se, seja pela devoção, pela tradição ou pela vontade de viver um momento de ação de graças.

“Parar e guardar o fim de semana para estar com o Senhor” é, para o ouvidor, uma das dimensões mais significativas desta peregrinação.

A festa assume ainda uma particular importância junto dos jovens, que continuam a revelar uma forte ligação ao Senhor Santo Cristo da Caldeira.

O padre Vítor Medeiros considera que essa ligação deve ser valorizada pastoralmente, reconhecendo que, nesta altura do ano, muitos jovens querem estar na Caldeira.

“Os jovens estão muito ligados a esta festa e por isso outras alternativas são difíceis de concretizar nesta altura”, explica.

Para o sacerdote, a participação juvenil deve ser compreendida à luz das novas formas de encontro e de sociabilidade dos jovens, que procuram momentos marcantes e experiências partilhadas.

“A juventude vive de momentos marcantes e temos de respeitar esta dinâmica”, afirma, considerando que o Senhor Santo Cristo da Caldeira é um desses momentos, tal como os convívios, os encontros de escuteiros ou os retiros.

A presença dos jovens na Caldeira constitui, por isso, uma oportunidade pastoral que a Igreja deve saber acompanhar, em vez de tentar substituir por modelos de participação mais formais.

“Às vezes queremos impor ritmos, reuniões, mas temos de aproveitar estas manifestações espontâneas que estão enraizadas na sua cultura”, defende.

O próprio percurso até à Caldeira pode assumir uma dimensão de fé. O trilho dispõe de uma Via-Sacra, permitindo que a caminhada seja acompanhada pela oração.

“Só esta possibilidade de fazer o caminho, ainda por cima rezando, já é um grande contributo”, sublinha o ouvidor.

A procura da Caldeira não se limita, contudo, à festa. O espaço tem vindo a afirmar-se como um lugar procurado para retiros, momentos de oração e experiências de espiritualidade, beneficiando da paisagem e do silêncio próprios da fajã.

O reitor do Santuário, cónego Manuel António das Matas, tem destacado esta dimensão, considerando que a conjugação entre natureza e espiritualidade cria condições particularmente favoráveis à interioridade.

Entre as iniciativas realizadas recentemente destaca-se a “Aldeia da Esperança”, que reuniu cerca de 300 jovens de todas as ilhas, com particular impacto na adoração do Santíssimo Sacramento. Também o retiro dos sacerdotes da Diocese, realizado em abril, encontrou na Caldeira um espaço de oração e fraternidade.

A tradição do Senhor Santo Cristo está profundamente ligada à identidade religiosa de São Jorge. Segundo a tradição popular, a imagem terá sido encontrada por um pastor numa lagoa e, depois de transportada para o povoado, regressaria ao local da fajã, dando origem à convicção de que “o Santo Cristo quer estar lá em baixo na Caldeira”.

O culto, transmitido ao longo de gerações, continua a mobilizar a população e a atrair peregrinos de outras ilhas, nomeadamente do Pico.

Para o padre Vítor Medeiros, a experiência da Caldeira passa também pela capacidade de fazer silêncio e de escutar.

“Deixem-se ouvir pelo Senhor, mas façam silêncio para escutar este Deus que nos fala”, pede.

Num espaço onde a natureza e a espiritualidade se encontram, o sacerdote considera que “o silêncio fala mais alto”.

A festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira encerra, assim, as grandes festas de verão de São Jorge, mantendo viva uma tradição religiosa que continua a atravessar gerações e a encontrar, particularmente entre os jovens, novas formas de expressão.

Na Diocese de Angra, o ciclo das grandes festas de verão prossegue no próximo domingo, na ilha Terceira, com a Festa da Serreta, em honra de Nossa Senhora dos Milagres.

 

Senhor Santo Cristo da Caldeira encerra grandes festas de verão em São Jorge

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