O novo paradigma da paz já tem dois mil anos

Por Carmo Rodeia

 

Assinalamos esta sexta-feira os 25 anos dos atentados contra o World Trade Center, em Nova Iorque, onde morreram cerca de três mil pessoas. Um quarto de século depois, o mundo parece, paradoxalmente, mais inseguro, mais dividido e mais armado.

Em apenas quatro anos começaram duas novas guerras com um impacto brutal na vida de todos nós. O regresso de conflitos entre Estados tecnologicamente avançados, a erosão das alianças internacionais e a transformação do equilíbrio de poder estão a alterar profundamente o ambiente estratégico mundial.

O relatório anual do Instituto Internacional de Estocolmo de Investigação sobre a Paz (SIPRI) fala do regresso de uma divisão entre Oriente e Ocidente na Europa, depois da anexação da Crimeia e da invasão da Ucrânia pela Rússia, e do colapso das esperanças de integrar Moscovo numa ordem de segurança europeia pós-Guerra Fria. Ao mesmo tempo, a ascensão da China e a intensificação da rivalidade com os Estados Unidos estão a transformar o equilíbrio global de poder.

A isto soma-se a erosão da ordem nuclear: enfraquecem os mecanismos de controlo de armas, aumenta a pressão sobre o regime de não proliferação e diminui a credibilidade de alguns compromissos de dissuasão. As novas tecnologias militares, incluindo sistemas autónomos capazes de selecionar e atingir alvos sem intervenção humana direta, acrescentam uma dimensão ainda mais inquietante, segundo o referido relatório.

O número de conflitos ativos- 49- e o crescimento das despesas militares dizem muito sobre o tempo em que vivemos. Mas, talvez digam ainda mais os números que não cabem nas estatísticas: milhões de pessoas obrigadas a abandonar as suas casas (estimam-se 112 milhões de pessoas em trânsito), crianças recrutadas para a guerra, vítimas de violência sexual, populações submetidas à fome e ataques contra hospitais e outros serviços essenciais, de que Gaza e o Líbano são exemplos supremos.

Estamos, portanto, perante uma contradição que deveria inquietar-nos profundamente: quanto mais sofisticadas são as nossas sociedades, mais sofisticadas parecem ser também as formas de destruição que somos capazes de produzir.

É neste contexto que ganha particular importância a proposta de uma paz “desarmada e desarmante” defendida, desde o início do seu pontificado, pelo Papa Leão XIV.

Mas o que significa, concretamente, uma paz desarmada? E como pode uma proposta aparentemente tão frágil – baseada no diálogo, na escuta, na diplomacia e na não-violência – responder à brutalidade dos conflitos que atravessam o mundo?

Talvez a primeira resposta seja perceber que não estamos perante uma ideia nova.

Nos últimos dias, o Instituto Católico para a Não-Violência, organismo promovido pela Pax Christi Internacional, reuniu-se em Roma precisamente para aprofundar esta questão: compreender de que modo a não-violência evangélica pode deixar de ser apenas uma dimensão espiritual e tornar-se também um princípio de vida, de ação e de reflexão política e social.

Segundo os relatos do professor Manuel Pinto, que acompanhou localmente o encontro para o SeteMargens, estiveram em discussão exemplos concretos de não-violência ativa, investigação e reflexão teológica, com o objetivo de ajudar a consolidar aquilo que poderá ser um paradigma emergente da Igreja: uma ética católica da paz capaz de responder a um mundo cada vez mais violento.

A conclusão parece simples, mas está longe de ser fácil: a não-violência ativa pode ser o caminho para uma paz verdadeiramente justa.

Não se trata, porém, de passividade, de conformismo ou de cobardia. A não-violência evangélica não significa aceitar a injustiça. Significa recusarmo-nos a reproduzir a lógica do mal que pretendemos combater. É uma forma de resistência moral, espiritual e social que procura interromper o ciclo da violência sem desistir da transformação do mundo.

Jesus é, para os cristãos, a expressão maior dessa proposta.

No Sermão da Montanha, quando fala em oferecer a outra face, em dar a capa a quem tira a túnica ou em caminhar uma segunda milha, Jesus não está a pedir uma submissão humilhante. Está a propor uma forma radicalmente diferente de enfrentar o poder e a violência: retirar ao agressor a possibilidade de determinar a resposta da vítima.

O mesmo acontece quando pede: Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam.

Amar o inimigo não é gostar de quem nos faz mal. É recusar que o ódio tenha a última palavra. É não permitir que a violência do outro determine aquilo em que nos tornamos.

E há ainda o episódio do Getsémani, quando Jesus impede Pedro de usar a espada. Ou, de forma ainda mais radical, a sua atitude na cruz, quando, perante a violência que sofre, responde com o perdão: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”

Olhando para o staus quo, é difícil imaginar uma proposta mais exigente.

Porque a não-violência não elimina o conflito. Jesus nunca fugiu ao conflito. Confrontou as estruturas do seu tempo, denunciou a hipocrisia, enfrentou a injustiça e colocou no centro aqueles que a sociedade marginalizava. O que recusou foi a transformação do adversário em inimigo a destruir.

Talvez seja precisamente aqui que precisamos de voltar a pensar.

Falamos muito de paz, mas muitas vezes confundimo-la com ausência de conflito. Ora, uma paz verdadeira não significa que todos pensem da mesma maneira ou que as diferenças desapareçam. Significa que somos capazes de viver o conflito sem transformar o outro em alguém que deve ser eliminado, seja no debate público, nas redes sociais ou no velho enredo à moda antiga.

É também por aqui que passa, a meu ver, uma compreensão mais profunda da sinodalidade.

A sinodalidade de que tantos desconfiam não é apenas uma questão de estruturas, reuniões ou procedimentos internos da Igreja, que são importantíssimos. É, antes de mais, uma maneira diferente de olhar para o outro. Significa reconhecer que ninguém deixa de ser nosso irmão ou nossa irmã porque pensa de forma diferente, porque é mulher, homossexual, estrangeiro, pobre ou simplesmente porque existe.

Se olharmos para cada pessoa como um problema, dificilmente seremos capazes de nos aproximar dela e a tentação será sempre eliminá-lo. Se a reduzirmos àquilo que pensamos sobre ela, deixamos de a ver na sua inteira humanidade.

A paz começa precisamente nessa forma de olhar.

Por isso, quando o Papa insiste no diálogo, na escuta e na diplomacia, talvez não esteja apenas a propor uma estratégia para resolver guerras. Está a propor uma mudança de paradigma nas relações humanas. Uma outra maneira de compreender o poder, o conflito e até a própria política, dentro da Igreja.

A mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz e a encíclica Magnífica Humanidade parecem inscrever-se nessa mesma preocupação: a necessidade urgente de uma humanização civilizacional, assente numa nova ética das relações e numa consciência de que a tecnologia, por mais extraordinária que seja, nunca poderá substituir a responsabilidade humana.

No fundo, talvez estejamos a tentar descobrir como construir um futuro para o qual o Evangelho já nos aponta há dois mil anos.

Vivemos fascinados pelo que é novo: novas armas, novas tecnologias, novas formas de inteligência artificial, novas estratégias de poder. Mas talvez a verdadeira novidade esteja noutra parte. Talvez esteja em recuperar uma ideia antiga e radicalmente simples: o outro não é um inimigo a abater. É uma pessoa a reconhecer.

A paz “desarmada e desarmante” não é, por isso, uma utopia ingénua. É uma exigência. E talvez seja muito mais revolucionária do que qualquer arma.

Andamos a estudar pouco. O Evangelho continua à espera da nossa leitura. De todos, todos, todos.

 

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