Serreta: a festa começa nos caminhos e cuida-se na retaguarda do Santuário

Famílias, peregrinos e grupos organizados já percorrem os caminhos rumo à Serreta. Este ano, os peregrinos encontram também um Santuário renovado, depois da conclusão da intervenção no retábulo do altar-mor

Foto: RTPA

A estrada entre o Raminho e a Serreta já está aberta e os peregrinos começam a chegar em maior número ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres. Ainda decorre o novenário, mas a caminhada até à Serreta já mobiliza famílias, grupos e também quem prefere fazer o percurso sozinho.

“Temos vindo a ter muita gente daquela zona a peregrinar aqui ao Santuário”, conta o reitor, padre João Pires, em declarações ao Sítio Igreja Açores.

As peregrinações mantêm um caráter espontâneo, embora sejam cada vez mais frequentes os grupos que se organizam para cumprir a caminhada. Este ano, entre os que já passaram pelo Santuário, estiveram uma guarnição do Exército, comandada pelo padre Gaspar Pimentel, e um grupo da Casa de Saúde do Espírito Santo, na ilha Terceira, acompanhado pelo respetivo capelão; padre Miguel Tavares que hoje presidiu à celebração de uma missa que se experimentou pela primeira vez, de manhã.

Mas são as famílias que representam uma parte significativa deste movimento. Muitas têm aproveitado o horário alargado do santuário para fazer a peregrinação com os filhos, sobretudo aqueles que iniciam agora uma nova etapa dos estudos.

“Há famílias que têm filhos que entram na universidade e têm aproveitado o facto de o Santuário estar aberto sempre até à meia-noite para virem fazer a sua peregrinação.”

Para o padre João Pires, há ainda uma dimensão particularmente reveladora nesta tradição: a de quem chega não para pedir, mas para agradecer.

“Encontrei há dias um pai e uma filha e perguntei: vocês vêm aqui pedir? E eles responderam: não, viemos agradecer.”

Agradecer a família, os estudos, o futuro ou simplesmente aquilo que a vida trouxe ao longo do último ano, parece ser o foco da peregrinação.

“Durante um ano passam-se imensas coisas na vida das pessoas, alegrias, sofrimentos, tragédias, doenças, incógnitas, e as pessoas sentem necessidade de vir aqui beber da fonte, da Palavra de Deus” avança o Reitor.

É também por isso que os peregrinos permanecem nas celebrações, mesmo quando as missas se prolongam por cerca de hora e meia.

“As pessoas não ficam cansadas. Vêm mesmo para isto. Querem beber da fonte. É aqui que se fortalecem para a vida.”

Um Santuário aberto até segunda-feira

A disponibilidade do espaço é uma das apostas deste ano. Durante o novenário, o Santuário tem permanecido aberto até à meia-noite e esta sexta-feira reabre para acompanhar o período mais intenso da festa, encerrando apenas na segunda-feira.

O programa prolonga-se pela noite de sábado. Às 16h00 haverá missa presidida pelo padre Bruno Esteves Rodrigues, diretor do Serviço de Catequese, com a presença da Liga Intensificadora da Ação Missionária. Às 20h00 celebra-se a missa da novena e, à meia-noite, a tradicional missa da Meia-Noite, também presidida pelo padre Bruno Esteves Rodrigues, que para o ano será o pregador da novena.

Às 03h00 começa a Vigília Eucarística, que se prolonga até às 06h00, animada pelo grupo de música “Nós com Cristo”.

No domingo, haverá missa às 09h00, presidida pelo padre Jacob e animada pelo Coral de Santa Bárbara. Às 11h00, a celebração será presidida pelo padre João Pires, com pregação do diácono Henrique Lima. A Missa da Festa está marcada para as 16h00 e será presidida pelo padre Júlio Rocha.

Por detrás deste programa está uma equipa que trabalha durante semanas para garantir que o Santuário está preparado para receber os peregrinos.

O trabalho que quase ninguém vê

É nesse trabalho de bastidores que o reitor encontra uma parte importante da sua missão.

“Vejo esta questão de ser reitor aqui do Santuário como se fosse uma espécie de treinador, alguém que coloca os melhores jogadores, digamos assim, os melhores pregadores, os grupos corais.”

A comparação com um treinador traduz uma forma de exercer o cargo em que o protagonismo é dado aos outros. Sacerdotes, grupos corais, movimentos, voluntários e colaboradores assumem diferentes tarefas, enquanto uma equipa assegura, muitas vezes longe dos olhos de quem chega, toda a preparação necessária.

“Dou muito valor àqueles que ninguém vê, ninguém vê, mas que são fundamentais para que tudo isto decorra bem.”

É esse trabalho de retaguarda que permite que o Santuário esteja aberto durante tantas horas, que as celebrações decorram e que os peregrinos encontrem um espaço acolhedor.

“É isto que me faz feliz”, diz o sacerdote, que prefere ver a igreja cheia, os grupos envolvidos e as pessoas a regressarem a casa com uma palavra de esperança do que assumir ele próprio o centro da celebração.

“A igreja está bem viva”, enfatiza.

 

Dois anos para revelar uma beleza que já estava lá

A festa deste ano tem ainda uma particularidade: o retábulo do altar-mor apresenta-se depois de uma intervenção de conservação e restauro que se prolongou por dois anos.

O trabalho começou por responder a questões estruturais, mas, à medida que a intervenção avançava, foram identificadas outras necessidades que exigiram novas ações de conservação.

“Foi quase um trabalho de arqueologia da arte”, explica João Pires.

Mais do que acrescentar elementos, procurou-se recuperar e revelar o que já existia.

“Tudo o que está ali à vista é o que lá estava. É o que os nossos antepassados nos legaram e que é importante preservar.”

O resultado é, para o reitor, “um achado” e motivo de satisfação por considerar que a intervenção respeitou os princípios de conservação e os critérios técnicos e artísticos necessários.

“Acho que se respeitaram todos os cânones da ética, da arte”, diz.

A intervenção foi realizada pela empresa Acro Arte, de São Jorge, e acompanhada pela comunidade. A igreja transformou-se durante meses num estaleiro, mas o processo foi sendo explicado aos paroquianos através de reuniões e momentos de informação.

“Houve transtornos, naturalmente. Durante meses, a igreja transformou-se num estaleiro. Mas houve também diálogo”, afirmou. Para o padre João Pires, esse diálogo foi essencial e transformou a obra num verdadeiro exercício de participação comunitária.

O interesse despertado pelo restauro começa, entretanto, a estender-se aos restantes altares, com a própria comunidade a reconhecer a necessidade de novas intervenções.

A recuperação do altar-mor trouxe também mudanças à ornamentação da igreja. A utilização de flores passou a ser mais controlada, sobretudo para proteger o trabalho realizado no retábulo.

A decisão foi  também explicada às responsáveis pela ornamentação e à comunidade, numa lógica de formação e não de imposição.

“As flores são um meio e não um fim”, resume o sacerdote. A beleza do espaço, considera, deve ajudar a conduzir o olhar para o essencial.

“Há toda aquela beleza artística que, de certa maneira, nos leva ao sobrenatural, ao transcendente, ao mistério, e acaba por nos levar à contemplação.”

É uma pedagogia que o santuário tem procurado desenvolver também através da formação litúrgica, da música e da ornamentação.

“As coisas não podem ser muito impostas de cima para baixo. Vai-se aos poucos e poucos. Tem que se dar tempo às pessoas para poderem processar.”

A preocupação é que as boas práticas adotadas na Serreta possam depois chegar às restantes comunidades.

“Tudo que se der aqui, de bom ou de correto, vai ser replicado nas paróquias” alerta.

Uma festa para levar esperança

Quando pensa no resultado de todo este trabalho, o padre João Pires não fala primeiro do número de peregrinos, das celebrações ou da recuperação do património. Fala das pessoas.

“Gosto de ver as pessoas viverem e estarem satisfeitas e contentes e saírem daqui a dizer que valeu a pena vir à casa do Santuário.” Uma casa que, faz questão de sublinhar, pertence a todos.

“É de toda a Diocese, é de todos os paroquianos, que também sentem esta casa como sua.” Daí que o mais importante é aquilo que cada peregrino leva consigo depois de passar pela Serreta.

“Sentirem que levam daqui uma esperança para a vida, levam daqui uma palavra de consolo, uma luz para poderem responder aos desafios que Deus vai colocando no caminho é para mim, como responsável de uma equipa, o que conta” afirma o sacerdote.

A Festa da Serreta é muito mais do que o programa de um fim de semana. A devoção a Nossa Senhora dos Milagres está profundamente ligada à história religiosa e cultural da ilha Terceira e fez do Santuário um dos principais lugares de peregrinação da ilha.

A tradição mantém-se viva através dos caminhos percorridos a pé, das famílias que regressam todos os anos, dos grupos que se organizam e daqueles que chegam individualmente, movidos pela fé, pela gratidão ou pela necessidade de encontrar um lugar de silêncio e esperança. E a festa não termina no domingo. A Segunda-feira da Serreta, profundamente enraizada na memória coletiva terceirense, prolonga o encontro entre a dimensão religiosa, o convívio e a tradição popular, já com honras de tolerância de ponto para os trabalhadores da administração pública regional e local na ilha.

 

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