“A Aldeia da Esperança mostrou-nos que a Igreja jovem está viva”

Um ano depois, organizadores e voluntários recordam a experiência que marcou a juventude açoriana e acreditam que o caminho iniciado na Caldeira de Santo Cristo, em São Jorge, deve continuar

Foto: celebração eucarística de encerramento da Aldeia da Esperança

Um ano depois da primeira edição da Aldeia da Esperança, realizada entre 20 e 25 de julho de 2025, na Caldeira de Santo Cristo, em São Jorge, permanece viva a convicção de que a iniciativa deixou uma marca profunda na pastoral juvenil da Diocese de Angra. Quem ajudou a organizá-la e quem a viveu como voluntário fala de uma experiência transformadora, capaz de criar laços entre jovens de diferentes ilhas, fortalecer a fé e despertar um renovado sentido de pertença à Igreja.

Para Graça Amaral, membro do grupo coordenador do Jubileu, representante do Conselho Pastoral Diocesano – órgão que lançou o desafio da realização da Aldeia – e uma das fundadoras do grupo Apressados, da Vila, a experiência confirmou aquilo que muitos esperavam, mas poucos imaginavam viver com tanta intensidade.

“A Aldeia da Esperança mostrou-nos que a Igreja jovem está viva”, resume, ao recordar uma semana que considera uma das mais marcantes de toda a sua caminhada com a juventude, apesar da participação em inúmeros encontros, retiros e Jornadas Mundiais da Juventude.

Numa das paisagens mais isoladas dos Açores, onde a ausência de rede de telemóvel obrigou todos a desligarem-se do quotidiano, os jovens encontraram espaço para algo diferente. Rodeados pelo mar, pela montanha e pela beleza da Caldeira de Santo Cristo, descobriram tempo para Deus, para os outros e para si próprios.

Mais do que um encontro juvenil, Graça Amaral considera que a Aldeia foi uma verdadeira experiência de Igreja. As amizades criadas entre jovens das sete ilhas representadas, a partilha da vida comunitária, os momentos de oração, os ateliês, as reflexões sobre a santidade, a vocação e a missão, bem como a proximidade dos sacerdotes, animadores e do bispo diocesano, fizeram da semana uma oportunidade de crescimento humano e espiritual.

Entre todas as recordações, permanece particularmente viva a adoração ao Santíssimo Sacramento junto à lagoa da Caldeira.

“Foi um momento que jamais esquecerei”, afirma, recordando o silêncio profundo, a procissão e as lágrimas de muitos participantes, sinais de uma experiência espiritual que dificilmente se explica apenas por palavras.

Também Conceição Duarte, voluntária da paróquia de Porto Martins, ilha Terceira, guarda esse momento como um dos mais marcantes de toda a semana.

“Foi lindo. O Senhor exposto logo de manhã… contribuir para que aqueles jovens pudessem ser tocados… e depois a adoração na lagoa. Foi um encontro inimaginável”, recorda.

A voluntária fala da Aldeia como uma experiência profundamente transformadora, não apenas para os jovens, mas também para todos aqueles que estiveram ao serviço da organização.

“A Aldeia foi transformadora… eu vou-me deixando transformar”, confessa, acrescentando que regressará à próxima edição.

Para Conceição Duarte, aquilo que permanece um ano depois é sobretudo “uma sensação de pertença”, construída através do encontro entre pessoas que aprenderam a viver durante vários dias desligadas do mundo.

“Ficou o encontro uns com os outros e com Nosso Senhor… sempre desligados do ruído do mundo”, resume.

A voluntária destaca igualmente a alegria vivida pelos consagrados e sacerdotes presentes, considerando que a temática da vocação foi uma das dimensões que mais marcou os participantes.

“A alegria dos religiosos notava-se. Conheci pessoas incríveis, desde quem estava na cozinha até quem assegurava toda a parte tecnológica. Foi belo, foi magnífico.”

Até quem estava destacado para garantir a segurança acabou por ser tocado pela experiência, recorda ao destacar  uma conversa com os agentes da Polícia de Segurança Pública presentes na Caldeira.

“Disse-lhes que aqueles jovens nunca mais iriam olhar para a polícia da mesma maneira. Um deles respondeu-me: ‘Senhora, nós também já não somos os mesmos’.”

Para Graça Amaral, uma das maiores conclusões deixadas pela Aldeia é a certeza de que existe uma juventude disponível para assumir responsabilidades na Igreja quando encontra espaços de confiança, acompanhamento e participação.

Por isso, defende que o caminho não pode terminar com o fim de cada edição.

A responsável considera essencial manter encontros ao longo do ano, promover momentos de avaliação e continuar a envolver os próprios jovens na construção do projeto, algo que, refere com satisfação, já começou a acontecer na preparação da próxima edição.

Na sua perspetiva, a esperança possui uma dimensão muito abrangente, capaz de integrar todos os desafios da vida cristã. Ainda assim, estabelece uma ligação natural entre os dois conceitos- esperança e fraternidade, nome dado à próxima Aldeia- , inspirando-se no pensamento do Papa Francisco.

Se a primeira edição teve como eixo o cuidado da Casa Comum, acredita que a próxima poderá aprofundar a fraternidade e a amizade social, promovendo uma verdadeira cultura do encontro.

“Tenho esperança de que a próxima Aldeia da Fraternidade seja ponte na construção de uma cultura de encontro, que ultrapasse o individualismo e promova a atenção ao outro.”

Entre quem preparou o projeto durante meses e quem o viveu no serviço discreto do voluntariado, existe uma certeza comum: a Aldeia não terminou quando os jovens deixaram a Caldeira de Santo Cristo.

Permanece nos trilhos percorridos, nas amizades construídas, na descoberta da natureza como lugar de encontro com Deus e, sobretudo, na vontade de voltar.

“Já disse aos meus catequisandos que para o ano temos de ir a São Miguel” conclui Conceição Duarte.

A Aldeia da Esperança foi um projeto da Diocese de Angra que mobilizou cerca de 300 jovens de sete ilhas do arquipélago, que durante uma semana estiveram na Fajã da Caldeira de Santo Cristo, na ilha de São Jorge, numa experiência de encontro com Deus, com os outros e com a criação, num dos mais emblemáticos espaços naturais do arquipélago, classificado como Reserva da Biosfera pela UNESCO.

Um ano depois, a Aldeia da Esperança continua a proporcionar “memórias boas”

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