Cerca de 300 jovens, provenientes de sete ilhas dos Açores, participaram na primeira edição da iniciativa diocesana, realizada na Fajã do Santo Cristo, em São Jorge. Um ano depois, os participantes e responsáveis recordam uma experiência que deixou marcas na pastoral juvenil e apontam já caminhos para a próxima edição.
Faz esta terça-feira um ano que a Fajã da Caldeira de Santo Cristo, na ilha de São Jorge, acolheu cerca de 300 jovens oriundos de sete das nove ilhas dos Açores para a primeira Aldeia da Esperança, uma iniciativa promovida pela Diocese de Angra, em parceria com a ouvidoria de São Jorge e o CNE, no âmbito do ano do Jubileu da Esperança que procurou proporcionar aos participantes uma experiência de encontro com Deus, com os outros e com a criação, num dos mais emblemáticos espaços naturais do arquipélago, classificado como Reserva da Biosfera pela UNESCO.
Durante uma semana, entre celebrações, momentos de oração, caminhadas, ateliers e convívio com iniciativas de natureza cultural, os jovens viveram uma proposta pastoral integrada, onde a dimensão espiritual caminhou lado a lado com a preocupação ambiental, a fraternidade e o serviço.
Um ano depois, quem participou continua a recordar aqueles dias como um momento transformador, cuja marca permanece viva na vida da Diocese.
Para o então ouvidor de São Jorge, padre Dinis Silveira, principal entidade co-organizadora, a memória da Aldeia começa muito antes da montagem das tendas.
“Nestes dias tenho recordado toda a preparação, as inúmeras reuniões, a logística, a organização e os desafios do próprio local”, afirma, lembrando “as muitas pessoas, instituições e voluntários que trabalharam afincadamente para que a Aldeia fosse o sucesso que foi”.
“Guardo a chegada dos jovens, o Rosário rezado na praça, a vigília que terminou com a adoração eucarística junto à lagoa, diante de Jesus que nos convidava a lançar as redes, a Eucaristia de envio, os trilhos, os ateliers… guardo um pouco de tudo” afirma o padre Dinis Silveira ao Sítio Igreja Açores.
O sacerdote considera que um dos aspetos mais significativos foi a forma como todo o encontro decorreu.
“O impacto que teve, a civilidade com que decorreu, o respeito ambiental, a limpeza, a ordem e a alegria que trouxe à Caldeira tocaram muita gente.”
“Entre a terra e o céu”
A irmã Adelaide, das Irmãs de São José de Cluny, guarda sobretudo a memória da caminhada orante pelas montanhas.
“Fechando os olhos e transportando-me para a Caldeira, fica a memória daquele momento entre a terra e o céu, onde rezámos e cantámos o louvor pela criação. Tudo era harmonia e contemplava-se o céu, a terra e o mar. Ali sentimos a esperança do Céu.”
Para a religiosa, o maior desafio para futuras edições passa por aprofundar a experiência espiritual de cada participante.
“É importante proporcionar a cada jovem um encontro íntimo com Jesus Cristo, através da Palavra, permitindo que Ele continue a semear no coração de cada um a esperança, a fé e o amor.”
Uma Igreja viva
Também a irmã Mafalda Leitão, das Servas de Nossa Senhora de Fátima, destaca aquilo que considera ter sido uma das imagens mais fortes da semana.
“A memória que levo é a de uma Igreja viva: jovens leigos cheios de alegria, adultos comprometidos, padres, religiosas e um bispo pastor a caminhar com todos.”
Entre os momentos que mais a marcaram está a adoração eucarística junto à lagoa.
“Foi uma experiência incrível de vida eclesial. Não esqueço aquela noite.”
Para o futuro, deixa um alerta.
“A fasquia ficou muito alta. Será essencial preparar tudo com tempo para que todos se sintam verdadeiramente participantes. Foi precisamente esse ambiente familiar que tornou a experiência tão especial.”
A fraternidade fez a diferença
A irmã Olinda Leopoldo, das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, recorda a beleza do lugar, mas sobretudo a atitude das pessoas.
“Houve muita entrega por parte de quem estava na logística e uma grande fraternidade entre todos.”
Também os jovens surpreenderam.
“Havia entusiasmo, disponibilidade e alegria. Via-se que existiu um trabalho de preparação e mesmo aqueles que chegaram menos motivados acabaram por entrar no espírito da Aldeia.”
Na sua opinião, a experiência aproximou igualmente os adultos.
“Vivemos todos no mesmo terreno, na mesma esteira. Esse testemunho de fraternidade foi muito importante para os jovens.”
E, não tem dúvidas de que o entusiasmo mantém-se vivo.
“Há já grupos que pediram informações sobre a próxima edição e algumas paróquias que não participaram estão a começar a organizar-se.”
O padre Jorge Sousa participou com 25 alunos de Educação Moral e Religiosa Católica das Flores, aos quais se juntaram duas jovens de outras confissões religiosas.
“Ambas gostaram muito da experiência”, recorda.
Para o sacerdote, o caminho começou ainda antes da viagem.
“Houve um grande trabalho de preparação nas aulas, com encontros e momentos de meditação. Isso ajudou-nos a preparar o coração para aquilo que iríamos viver.”
No final da Aldeia viveu também um dos momentos mais difíceis da sua vida.
“Quando saí da Fajã e voltei a ter rede, soube que o meu pai estava muito doente. Acabou por falecer pouco depois. Recordar o fim da Aldeia alaga-me os olhos, mas também tornou muito presente a esperança da vida eterna.”
Apesar dessa dor, não hesita em afirmar que esta foi uma das experiências mais marcantes do seu percurso.
“Já participei em Jornadas Mundiais da Juventude, em Taizé, em Caminhos de Santiago e em muitos encontros internacionais. Posso dizer que a nossa Aldeia da Esperança não fica atrás de nenhum deles.”
Segundo o sacerdote, o encontro renovou o entusiasmo pelo trabalho pastoral com os jovens.
“Saí de lá com vontade de continuar a trabalhar com eles. Quero começar já este ano a reunir os jovens do Nordeste- ouvidoria onde serve agora- para preparar a próxima Aldeia. Tenho a certeza de que quem vive uma experiência destas nunca mais olha para a fé da mesma maneira.”
Um dos desafios mais repetidos pelos responsáveis passa precisamente pela preparação da próxima edição.
“Precisamos de ultrapassar a pastoral dos momentos”, afirma o padre Dinis Silveira, atualmente na ilha do Pico, na Unidade Pastoral da Madalena.
“Os jovens devem ser protagonistas da vida da Igreja e não apenas participantes ocasionais.”
“É importante, por isso, que exista uma verdadeira pré-Aldeia, para que os jovens comecem desde cedo a sonhar com aquilo que vão viver.” E deixa também um desejo para o futuro: “Que continue a ser uma Aldeia de esperança e da esperança. Foi essa a marca que ficou e esse espírito merece continuar.”
Enquanto começam já os preparativos para a próxima edição, permanece vivo o desejo de que novos jovens possam descobrir, naquela experiência de Igreja em saída, um espaço de encontro com Cristo, com a criação e com os outros.
A próxima Aldeia, que se designará de Aldeia da Fraternidade, terá lugar na Povoação entre 19 e 23 de julho de 2027.
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