Da Esperança à Fraternidade: um ano depois, a semente lançada em São Jorge procura dar frutos

Sete ilhas dos Açores responderam ao desafio lançado há um ano na Caldeira de Santo Cristo, em São Jorge, para uma experiência inédita de Igreja jovem. Dia 21 de julho assinala-se o primeiro aniversário da Aldeia da Esperança. Em 2027, regressará com um novo nome – Aldeia da Fraternidade -, na ouvidoria da Povoação, em São Miguel. A mudança traduz um novo caminho pastoral, centrado na inclusão, no acolhimento e na escuta dos jovens

Foto: Aldeia da Esperança/São Jorge

Há exatamente um ano, centenas de jovens de sete das nove ilhas açorianas iniciavam os trilhos da Fajã da Caldeira de Santo Cristo para viver uma experiência inédita de encontro, oração, natureza, missão e fraternidade, inspirados no ano santo da Esperança. A Aldeia da Esperança nasceu integrada nas celebrações jubilares da Diocese de Angra, mas a sua origem remonta a uma proposta apresentada no Conselho Pastoral Diocesano, inspirada em iniciativas como a comunidade ecuménica de Taizé, em França. Contudo, o enquadramento acabou por evoluir, adaptando-se às características do local escolhido e dando origem a um modelo próprio, profundamente ligado à realidade açoriana, sobretudo às belezas e às contrariedades do espaço escolhido, de difícil acesso, e com muitas limitações por ser reserva da biosfera.

Um ano depois, a experiência continua viva na memória dos participantes, cerca de 300, e prepara já um novo capítulo. O Serviço Diocesano à Juventude anunciou numa entrevista ao sítio Igreja Açores do seu assistente, padre João da Ponte,  que a próxima edição, prevista para julho de 2027, entre os dias 19 e 23 de julho, na ouvidoria da Povoação, na ilha de São Miguel, passará a designar-se Aldeia da Fraternidade. Uma mudança que não é apenas simbólica.

“O Serviço Diocesano à Juventude achou por bem mudar aqui o nome de Esperança para Fraternidade, tendo em conta aquilo que se pretende trabalhar com os jovens ao longo do próximo ano. E tendo em conta também aquilo que eles vão pedindo nessas assembleias diocesanas e na própria Aldeia da Esperança: que haja encontro, que haja inclusão, que haja acolhimento, que haja escuta. Então é isso que nós pretendemos trabalhar ao longo do ano com eles, também através deles, com a ajuda dos jovens”, explica o assistente do Serviço Diocesano à Juventude, padre João da Ponte.

O sacerdote adianta que o percurso preparatório começa já em setembro, durante a Assembleia Diocesana de Jovens, no Pico, de 4 a 6 de setembro, envolvendo representantes das várias ouvidorias e movimentos juvenis da Diocese.

“Aquilo que se pretende é que eles passem a mensagem nas suas ouvidorias, junto dos jovens (…), sempre nesta linha da fraternidade, da inclusão”, afirma.

Para o padre João da Ponte, a Aldeia da Esperança deixou uma “marca profunda” na Diocese.

“A Aldeia da Esperança foi um marco na vida dos jovens que participaram no evento (…) e foi realmente um marco na nossa diocese, foi um sinal de esperança para a nossa diocese porque, através do encontro realizado na Caldeira de Santo Cristo, da interação entre os jovens, do contacto com a natureza, nas várias atividades realizadas (…), foi realmente uma experiência de encontro que acreditamos ter lançado sementes de esperança na nossa diocese.”

Ao longo do último ano, acrescenta, o Serviço Diocesano à Juventude procurou dar continuidade ao que nasceu em São Jorge, através de um acompanhamento mais próximo dos jovens, da realização de um retiro Shalom, em São Miguel, encontros, da Via-Sacra diocesana e de iniciativas vocacionais, algumas delas com realização regular como é o caso dos encontros “Às sextas no Convento” que “têm aproximado os jovens e poderiam ser replicadas em qualquer parte da Diocese”, refere o presbítero que tem sido um dos rostos mais visíveis da Juventude, juntamente com a diretora do Serviço, Gisela Batista. Foi de resto o padre João da ponte que coordenou localmente, em São Jorge, o programa pastoral da Aldeia da Esperança.

“Alguns jovens procuraram o serviço também para uma certa orientação vocacional porque a Aldeia da Esperança teve aqui um foco muito grande, sobretudo na área vocacional e temos de continuar a dar resposta” refere ainda o padre João da Ponte avançando já a informação de que a próxima Aldeia terá um envolvimento direto também dos serviços da pastoral das Vocações e da pastoral Universitária e do Ensino Profissional.

Lília Ferreira, da ilha das Flores, confirma que a experiência continua a ser recordada entre os jovens.

“Um ano após a Aldeia da Esperança (…) ainda se ouve falar na atividade, ainda se lembram as histórias e os momentos. Foi, de facto, um momento muito marcante e demonstra a importância dessa atividade” refere a dirigente dos escuteiros e professora que acompanhou um dos grupos maiores que participaram nesta Aldeia da Esperança.

Também Sofia Ambrósio, do grupo Apressados da Vila, da ouvidoria de Vila Franca do Campo, autores do hino e do logótipo da Aldeia da Esperança, fala da experiência como um “momento transformador”.

“Para além das memórias da Aldeia da Esperança, as lições também se mantêm no meu coração”, refere.

“O contacto com a natureza e principalmente as adorações ao Santíssimo Sacramento foram, para mim, momentos para renovar a alma. Na altura estava a passar por uma fase menos boa e nestes encontros, Jesus permitiu que eu percebesse que este era o meu caminho e que eu deveria continuar sempre a tentar construir uma Igreja mais jovem. Foi um momento muito importante para mim como jovem e como crente.”

Durante este ano, explica, o grupo, que se formou por ocasião da Jornada Mundial da juventude de Lisboa, em 2023, e depois prosseguiu com diferentes atividades, procurou traduzir essa experiência em gestos concretos, nomeadamente através de visitas ao lar de idosos de Vila Franca bem como outras iniciativas comunitárias.

“A experiência de grupo na JMJ e depois a vivência que fizemos, preparando-nos para a Aldeia, fez-nos perceber que o caminho não se faz sozinho; é com a união que se faz a força”, resume.

Na ilha de Santa Maria, o impacto também foi evidente. Foi um dos grupos que mais sofreu para se deslocar e chegar a São Jorge. Uma greve anunciada da Sata , a indisponibilidade de lugares para chegar a tempo a São Jorge, foram dores de cabeça para os organizadores que iniciaram esta viagem também na JMJ de Lisboa e quiseram-na prosseguir nos Açores, aderindo à participação na Aldeia da Esperança logo no primeiro momento da inscrição.

Os jovens recordam agora “o caloroso acolhimento”, “os momentos de convívio repletos de genuína alegria”, “os intensos momentos de maior interioridade e espiritualidade”, concluindo que tudo resultou “numa experiência fantástica, de grande união e amizade, que deixou gotinhas de luz e esperança em cada um”.

Ao longo do último ano, esse entusiasmo traduziu-se na participação em diversas iniciativas promovidas pelo Serviço Diocesano à Juventude, desde o Dia Mundial da Juventude à preparação da Via-Sacra diocesana, bem como em ações concretas nas respetivas comunidades, junto de idosos, na oração pela unidade dos cristãos e em projetos de voluntariado.

Por isso, os jovens de Santa Maria esperam que a próxima Aldeia mantenha aquilo que consideram ter sido a sua maior riqueza: as atividades em contacto com a natureza, as caminhadas e trilhos, o convívio noturno, a presença próxima do bispo diocesano e, sobretudo, o ambiente humano criado entre participantes e voluntários.

“As atividades no geral e as pessoas magníficas” surgem no topo das prioridades para preservar uma iniciativa que descrevem como marcante pela união, amizade e crescimento na fé.

Ao mesmo tempo, deixam contributos concretos para enriquecer a edição de 2027, na ouvidoria da Povoação. Defendem mais tempo livre para convívio entre grupos, equipas de atividades constituídas por jovens de diferentes ilhas para favorecer novas amizades, um reforço das atividades práticas, como a tenda do voluntariado, e melhores condições logísticas, com mais espaço nas tendas e nos balneários. Entre as novas propostas apresentadas figuram ainda um espaço inter-religioso, um fórum sobre os valores cristãos na política, dinâmicas de sensibilização para situações de exclusão, uma atuação do padre Guilherme como DJ, um passeio pela ilha, atividades de aventura, como o Tree Top, e até um momento de lazer nas águas termais de São Miguel.

“A vivência dos quatro dias na Fajã de Santo Cristo tocou-nos profundamente e fez-nos ver a presença de Cristo de uma forma muito bela e especial. Para nós, grupo do Posto Santo, estes dias tornaram possível a realização de um sonho, a criação de um Grupo de Jovens” afirmou ao Sítio Igreja Açores Ana Cristina Silva.

“A aproximação que os jovens sentiram de Deus fez com que eles quisessem continuar a aprofundar a sua fé e quisessem continuar a crescer como grupo cristão. O nosso grupo de jovens “Crescer com Deus’ tem percorrido um caminho ao longo deste ano cheio de momentos de diversão, partilha, oração e vivência cristã com a comunidade. Só peço a Deus que nos continue a guiar e a proteger” prossegue a dirigente da ilha Terceira.

“Para mim, a Aldeia da Esperança foi, como disse o nome, um sinal de esperança. Esperança no futuro, nos jovens e na renovação da nossa comunidade cristã”, concluiu Ana Cristina Silva.

Gabriel Sousa, também do grupo do Posto Santo, revela que “foi a melhor aproximação a Deus” que já teve.

“Das memórias que ficam mantenho no meu coração todos os momentos de partilha com os meus amigos e jovens de outras ilhas, o que fez com que criássemos laços, permitindo uma grande união que se refletiu em todos os momentos vividos durante este ano no nosso grupo” salientou.

“Sem dúvida cada um de nós levará a aldeia da esperança no coração”, enfatiza.

E, enquanto a Diocese prepara este novo ciclo, a ouvidoria da Povoação iniciou já os primeiros contactos para acolher a iniciativa, como anfitriã escolhida ainda em São Jorge.

O padre Francisco Rodrigues, ouvidor, revela que já decorreram reuniões com a Câmara Municipal da Povoação e que se aguarda apenas a confirmação definitiva do local.

“Neste momento, a Ouvidoria da Povoação será a ouvidoria de acolhimento deste evento, com a parceria da Diocese e também da Câmara Municipal da Povoação, garantindo toda a logística necessária para que o evento se realize.”

Além da preparação logística, a prioridade passa por envolver desde cedo os jovens da ouvidoria.

“Em setembro já queremos começar a reunir os nossos jovens a nível da ouvidoria para depois passarmos a sensibilização para além das paróquias.”

O nome mudará para Aldeia da Fraternidade, mas permanece o propósito que lançou a primeira edição em São Jorge: reunir os jovens açorianos, ajudá-los a descobrir a sua missão e fazer da Igreja um espaço cada vez mais jovem, acolhedor, inclusivo e fraterno.

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