Por Carmo Rodeia

Pelo menos 700 migrantes morreram afogados esta semana em três naufrágios na costa da Líbia, afirmou este domingo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

“A situação é caótica, não podemos ter certeza dos números, mas receamos que pelo menos 700 pessoas poderão ter morrido afogadas em três naufrágios esta semana”, num dos quais terão morrido mais de 500 pessoas, segundo o porta-voz do ACNUR Federico Fossi, citado pela agência France Presse.

A Europa e o mundo continuam em choque com as tragédias que têm acontecido no Mediterrâneo e com o desespero dos refugiados – a maioria deles, vinda da Síria –, que são explorados por traficantes de pessoas.

O papa Francisco este fim de semana, durante uma audiência onde recebeu 500 meninos e meninas acolhidos em centros para migrantes, na estação de caminho de ferro da Cidade-Estado, lembrou que “Os migrantes não são um perigo, mas estão em perigo”.

Na sala Paulo VI, o Papa ouviu Sayende, um menino nigeriano, que pediu orações pelos seus familiares e amigos que “morreram na água”.

É absolutamente confrangedor ver como a Europa não está a lidar com este problema, que se arrasta há tempo demais.

Os atuais governos europeus estão como que paralisados, revelando-se incapazes de lidar com o problema e os mais afoitos lidam com ele da pior maneira: erguendo muros, fomentando o medo e a xenofobia.

A vaga de refugiados que acode através de diferentes rotas ao coração da Europa é um daqueles problemas complexos que desafia qualquer raciocínio simplista.

Talvez por isso os nossos “engenheiros” da auto proclamada ´Europa das Pessoas´, mas que é cada vez mais a `Europa das coisas´ tenham tantos problemas em encontrar uma solução humana para um problema humano.

Aliás, se pensarmos bem, os atuais líderes europeus só se conseguem pôr de acordo em coisas instrumentais: regulam a altura das tomadas que temos em casa; impõem-nos regras de pesagem e de funcionamento dos autoclismos; definem o tamanho mínimo aceitável para a fruta que pode e não pode ser comercializada; implicam com a rotulagem num desassombro de utilidade que nos comove e sensibiliza. Mas sobre as pessoas, sobre o nosso destino coletivo; sobre os valores que devem presidir às nossas opções de fundo nem uma palavrinha.

Admito que esteja a ser injusta porque palavras há muitas; se calhar até demais. O que há é poucos gestos e, sobretudo, poucos gestos de misericórdia que reflitam o amor ao próximo.

Nas vagas de refugiados encontra-se gente que foge da morte violenta, mas também gente que foge de sociedades que se deixaram degradar ao ponto de não oferecerem a possibilidade de alimentar a sua população.

A atual “crise de refugiados” é apenas o sinal do perigoso e inquietante mundo novo, que se abre à nossa frente.

“Uma pessoa que fecha o coração não tem o coração humano”, lembrou o Papa como lembraria qualquer pessoa de bom senso. Mas esta é uma virtude que anda desaparecida dos nossos atores políticos. Vivemos o falhanço da inteligência política das lideranças europeias, numa espécie de défice intelectual. E quando assim é torna-se difícil.