Teólogo integrou a mesa redonda promovida pelo Instituto Católico de Cultura sobre a Vivência Religiosa nos nossos dias

A vivência do religioso acompanhou o destino da evolução da cultura moderna e, por isso, a experiência do religioso hoje “é uma fruição”, afirmou o Pe. Jorge Teixeira da Cunha, Doutor em Teologia Moral, na Mesa Redonda sobre a Vivência Religiosa Hoje, promovida esta quinta feira pelo Instituto Católico de Cultura, em Ponta Delgada e participada por mais de 300 pessoas.

“Hoje já não se vive a religião como no passado, como um conformismo social, mas vive-se por convicção, por uma fruição. A cultura aproximou-se mais da subjetividade de cada um e cada um pergunta-se como pode ou não viver esta fruição” referiu o professor catedrático da Universidade Católica do Porto.

O sacerdote foi o primeiro a usar da palavra na mesa redonda onde também estiveram presentes Maria do Céu Patrão Neves, professora catedrática da Universidade dos Açores, Duarte Chaves, investigador e membro da Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Igreja, Pe. Hélder Miranda Alexandre, reitor do Seminário Episcopal de Angra e o Pe. Ricardo Tavares, do Serviço Diocesano da Pastoral da Cultura.

O Pe. Jorge Teixeira da Cunha destacou que o que está a acontecer hoje, nas sociedades contemporâneas, é “como que uma passagem entre dois mundos”: por um lado a vivência religiosa a partir de uma ordem institucional, própria do Antigo Regime e imposta pelo próprio regime, e uma vivência religiosa mais subjetiva, assimilada naturalmente pelas pessoas.

“Antes a sociedade era um bloco monolítico em que as pessoas eram orientadas para a vivência religiosa de forma institucional; havia uma ordem que impunha um comportamento das pessoas e não havia ninguém que se opusesse á vivência de acordo com essa ordem” referiu o sacerdote.

“Progressivamente aquilo que era uma ordem institucional passou a ser assimilada como algo subjetivo, com várias racionalidades a funcionar no seio da sociedade, que se assumiu mais pluralista” acrescentou frisando que “esta foi a grande mudança”.

“A experiência religiosa hoje é uma fruição, a que acrescentámos um processo de depuração, através do qual desmistificámos a religião e disso resultaram muitas coisas” afirmou o Pe. Jorge Teixeira da Cunha exemplificando com o surgimento do ateísmo, de uma vivência individual da espiritualidade ou a vivência do religioso como algo englobante, que integra vários contributos.

O sacerdote, ex Reitor do Seminário Maior do Porto, deixou ainda uma interpelação direta aos cristãos açorianos para que não “percam a sua identidade”.

“O cristianismo dos Açores é um cristianismo novo, a impressão é que aqui o cristianismo é carismático e pouco institucional e a. sua vivência é na base da espiritualidade” afirmou.

Por isso, concluiu, “o ponto de partida para a evangelização dos dias de hoje tem futuro se se aproveitar o carácter comunitário, espiritual e fraterno desta vivência da fé”.

Maria do Céu Patrão Neves, por seu lado,  enfatizou a questão do sentido como sendo essencial para se perceber as novas expressões de vivência da religião.

“É uma questão do sentido aquilo que nos interpela” e a “vivência espiritual é aquilo que confere sentido à nossa existência; sem sentido a nossa vivência é apenas um mero somatório de eventos” disse a professora da Universidade dos Açores, que integra a direção do Instituto Católico de Cultura, promotor deste iniciativa desenvolvida em parceira com o Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com o apoio da paróquia de São Sebastião, em Ponta Delgada.

Para Maria do Céu Patrão Neves a vivência religiosa na sociedade atual vai falhando porque se perdeu esta noção de busca de um sentido. A professora da Universidade dos Açores considera que vivemos num “mundo profundamente laico e dessacralizado”, marcado pelo “individualismo” e pelo “hedonismo”, a que acresce uma série de “contradições entre aquilo que dizemos e o que fazemos”.

“Vivemos uma crise enorme do exemplo e não há recurso pedagógico mais exemplar que o exemplo” acrescentou a docente que considera que os cristãos devem ser fieis à mensagem do Evangelho, sem facilitismos ou cedências no que é essencial.

O Reitor do Seminário Episcopal de Angra traçou uma radiografia do movimento de jovens católicos na diocese, que mobiliza percentagens muito acima daquilo que é habitual noutras partes do país, nomeadamente ao nível da inscrição na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica e na frequência da catequese. E, neste caso, embora haja uma taxa significativa de abandono após a celebração da profissão de fé, na idade da adolescência, os Açores ainda registam “números muito expressivos”, considerou o Pe. Hélder Miranda Alexandre.

De acordo com dados publicados em 2013, na Revista Didaskalia, a maioria das famílias açorianas é responsável pela iniciação cristã dos seus filhos, batizando-os e inscrevendo-os na catequese. Em 2017, 78% das crianças açorianas frequentava a catequese da infância e 59% dos jovens na escolaridade obrigatória estavam matriculados na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica. Acresce ainda o número expressivo de escuteiros, com cerca de 3500 jovens mobilizados pelos 80 agrupamentos do CNE espalhados pelas ilhas

“Trata-se de números expressivos que temos de ter em conta, sobretudo se olharmos para os jovens no seu todo e o gosto dos que participam nos grupos de jovens revelam pela oração, pela participação em retiros, em momentos de convívio e partilha”, refere o Reitor Pe. Hélder Miranda Alexandre.

O sacerdote lembrou ainda que “o lugar teológico” dos jovens é “a família e a escola” e por isso, seguindo as orientações quer do documento final do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, a fé e a Igreja, quer o documento que saiu do I Congresso Diocesano de Juventude, “a igreja tem de ser capaz de escutar os jovens e perceber o que é que eles querem, dando-lhes protagonismo”. O responsável da Pastoral Vocacional nos Açores deixou, ainda, pistas sobre a necessidade da Igreja olhar para as redes sociais, onde se encontram os jovens, bem como as diferentes expressões artísticas e perceber que é “na autenticidade do testemunho” que pode fazer o contraponto com outras formas de “vivência mais à medida e menos claras” de espiritualidade, referindo-se à mistura de vários aspetos que degeneram naquilo a que se convencionou falar de uma vivência new age.

Duarte Chaves, investigador de História de Arte, que é membro da Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Igreja frisou a importância da evangelização através da arte e da preservação do património. E deu como exemplo o trabalho desenvolvido na defesa da herança franciscana que serve para nos contar a história do cristianismo no arquipélago e até no país. Por outro lado, lembrou que, muitas igrejas que já não servem ao culto continuam a ter uma missão evangelizadora, difundindo a fé, numa perspetiva cultural.

Já o Pe. Ricardo Tavares, responsável pela pastoral da Cultura e do diálogo ecuménico, falou da relação entre a verdade e a tolerância no diálogo entre as várias religiões, fazendo a destrinça a partir de um texto do Papa Bento XVI sobre as religiões místicas e a profecia do Cristianismo.

Esta noite, na Igreja Matriz, no âmbito das Festas do seu padroeiro São Sebastião, o Pe. Jorge Teixeira da Cunha fará uma conferência, a convite do Instituto Católico de Cultura e do Santuário do Senhor Santo Cristo, sobre “O Futuro do Cristianismo : uma reflexão sobre o Evangelho à luz da nossa cultura”. A entrada é livre, a partir das 20h30.