Por Carmo Rodeia

A fome no mundo está a crescer há três anos consecutivos, tendo afetado 821,6 milhões de pessoas em 2018, segundo um relatório assinado por várias agências da ONU divulgado esta segunda-feira.

Uma em cada nove pessoas no mundo, em 2018, não tinha o suficiente para comer em 2018, segundo os dados do relatório anual “O estado da segurança alimentar e nutrição no mundo”, documento assinado por várias agências internacionais que lutam contra este flagelo que começou novamente a ganhar dimensão .

A desnutrição afeta a Ásia- 513,9 milhões de pessoas, mais de 12% da população; a África- 256,1 milhões de pessoas, cerca de 20% da população e a América Latina e Caraíbas – 42,5 milhões de pessoas, menos de 7% da população .

A perspetiva de ter um mundo sem pessoas desnutridas até 2030, um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável inscritos na Agenda 2030 da ONU, apresenta-se como “um enorme desafio”. São as instituições que lidam com o problema que o dizem.

Há mais outro número que choca: cerca de 149 milhões de crianças com menos de cinco anos têm um crescimento deficitário. E um em cada sete bebés no mundo, cerca de 20,5 milhões, nasceu, em 2018, com baixo peso.

Em contrapartida, no ano passado, cerca de 338 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar apresentavam sinais de excesso de peso e um em cada oito adultos no mundo (672 milhões de pessoas) eram obesos. Quase todos na América do Norte, onde há uma maior prevalência desta doença. Da fome à abundância, das restrições ao excesso mas sempre a mesma causa: desinformação e falta de políticas publicas adequadas.

Será possível e realista sonharmos com um mundo sem fome? Só se nos abstrairmos da falta de vontade política que grassa no mundo.

“Quando falta a solidariedade, todos estamos cientes hoje de que as soluções técnicas e os projetos, mesmo os mais elaborados, não são capazes de enfrentar a tristeza e a amargura de quem sofre por não conseguir alimentar-se de maneira suficiente e saudável”, afirmava o Papa Francisco na mensagem do ano passado, em outubro, para assinalar o Dia Mundial da Alimentação.

A ciência, a tecnologia, o ódio, e a guerra avançam mas não há maneira de ultrapassar este flagelo da fome, obtendo idênticos avanços em humanidade e solidariedade.

“Falta realmente vontade política” dizia o Papa Francisco. E de vergonha, digo eu!

“É preciso querer de verdade acabar com a fome, mas isto não acontecerá se, em última instância e antes de tudo, não houver a convicção ética, comum a todos os povos e às diferentes visões religiosas, que coloca no centro de qualquer iniciativa o bem integral da pessoa”, concluía o Papa Francisco.

De facto, há uma dimensão estrutural que o drama da fome esconde: a desigualdade extrema, a má distribuição dos recursos do planeta, as consequências das mudanças climáticas ou os infindáveis e sangrentos conflitos que devastam muitas regiões. Os mais poderosos, que têm poder para fazer a diferença, dirão que são invenções, quem sabe dos chineses ou simplesmente dos marxistas.

Mas o problema da fome é como outros tantos problemas a nossa incapacidade de transformarmos o sofrimento do outro no nosso próprio sofrimento.

De nós, os pobres esperam uma ajuda eficaz que os tire da sua prostração, e não meros propósitos ou convénios que, depois de estudar detalhadamente as causas da sua miséria, tenham como único resultado a celebração de eventos solenes, compromissos que nunca se concretizam ou vistosas publicações destinadas a engrossar os catálogos das bibliotecas.

O que se passa no mundo passa-se também em Portugal. Em 2016 uma em cada 14 familias revelava um problema grave no acesso a alimentos. Há 400 mil pessoas que dependem dos bancos alimentares para viver. Há 2 milhões de pessoas a viver mal, muito mal. Sobretudo nas zonas urbanas.

Estender uma mesa e dar de comer a toda a gente que passe é bom. E para nós que estamos familiarizados com o Espírito Santo e a abundância deste império do Amor é natural. Mas é curto. Se pensarmos que só um ano tem mais 364 dias…