Primeiro debate promovido pelo Instituto Católico de Cultura, com o apoio do Santuário do Senhor Santo Cristo e da RTP Açores, sobre a encíclica Fratelli Tutti alerta para a importância da amizade e da fraternidade como o caminho para a construção de uma paz sólida

A fraternidade universal mais do que um sonho é uma meta alicerçada no principio da reciprocidade e da amizade sociais, concluíram os três palestrantes da primeira conferência, de um ciclo de três, promovidas pelo Instituto Católico de Cultura, numa parceria com o Santuário do Senhor Santo Cristo e o patrocínio da RTP Açores,  e que foi para o ar esta terça-feira, sobre a responsabilidade da Igreja num mundo global apartir da chave de leitura proposta pela Encíclica Fratelli Tutti, publicada pelo Papa Francisco em plena pandemia.

José Manuel Pureza, vice-presidente da Assembleia da República e investigador; Maria do Céu Patrão Neves, professora catedrática de Ética e Filosofia e o padre José Júlio Rocha, doutor em Teologia Moral, analisaram esta terça-feira a encíclica Fratelli Tutti, um dos documentos mais revolucionários do pontificado de Francisco.

“O Papa propõe uma leitura critica do atual modelo de vida e propõe uma nova visão: um mundo a partir de um sonho: sonhemos com uma nova humanidade, todos irmãos e todas as irmãs e fá-lo com um enorme realismo” afirmou José Manuel Pureza.

“Esta Encíclica ensina-nos uma espécie de síntese daquilo que devíamos ter aprendido com a pandemia: o que nos está a defender não é o mantra do individualismo, mas o cuidado com o outro” esclareceu o investigador que é deputado do Bloco de Esquerda e um católico confesso.

“Há um convite a uma transposição de competências e valores da esfera individual para um plano macro, isto é, a importância da amizade social na escala entre povos e nações”.

“Na encíclica há alguma coisa de utópico, mas o caminho de mil quilómetros faz-se de passos. Este caminho é utópico, mas é um caminho que toca muitas feridas do mundo de hoje” e “muito está por concretizar socialmente”, referiu, por seu lado, o padre José Júlio Rocha, assistente diocesano da Comissão Justiça e Paz.

Ao sublinhar a importância da parábola do Bom Samaritano, que atravessa todo o documento, o sacerdote, que é membro fundador da Associação Ibérica para o estudo da Moral, afirma que hoje há um desafio enorme que se coloca à sociedade: “o próximo, aquele a quem deves amar é qualquer homem, porque qualquer homem não é um homem qualquer”.

“A humanidade que o Papa Francisco propõe não se pode medir pela diferença mas pela amizade e fraternidade”, destaca ainda.

“Trata-se de uma transformação que tem de ser feita passo a passo e que exige compromisso”, refere, por outro lado, ainda, Maria do Céu Patrão Neves.

“Com este texto, o Papa Francisco recupera uma verdade da nossa fé: todos somos irmãos e nesta irmandade o Papa pensa sobretudo na fragilidade humana”, diz a professora catedrática.

“Ele pugna por um mundo sem fronteiras; é um hino à transformação e à mudança, não só de vida mas de cultura; um mundo sem muros, assente na fraternidade universal,  com novos modelos, que nos convoca a todos”, sublinha.

“A riqueza da humanidade é feita a partir da diversidade” refere ainda José Manuel Pureza.

“Nesta encíclica há o recurso a um método de revisão de vida e o Papa apela a uma alteração profunda”, insiste.

“Não há salvação possível a nível individual: ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém”, conclui o investigador que é deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia da República.

No debate, que conta com o apoio do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres e da RTP Açores, o Instituito Católico de Culturta pretende discutir o resultado dos estilhaços provocados pela pandemia e os caminhos que podem constituir uma oportunidade para nos reinventarmos e ajudarmos a construir um mundo melhor.

O documento “revolucionário” é, mesmo, “ uma síntese do pensamento de Francisco acerca da Fraternidade e da amizade Social.”

Nela cabem: um diagnóstico sobre a situação no mundo, centrado em problemas absolutamente essenciais para a afirmação de um profetismo da Igreja: os migrantes e refugiados, os populismos, o racismo, as novas formas de escravaturas, o  tráfico de seres humanos,  a violência sobre mulheres e crianças,  a pena de morte – e também, de novo, o drama ecológico, sem esquecer o diálogo inter-religioso como o caminho da Paz.

Por contraste ao status quo, o documento propõe que a fraternidade e a amizade social sejam lidas com chaves como o respeito pelos direitos humanos, a busca incessante da paz, a proposta da amabilidade, a valorização da função social da propriedade ou o perdão. E faz sugestões concretas como a da eliminação da pena de morte no mundo, a constituição de um fundo contra a fome financiado pelas despesas militares, do fim das armas nucleares e da prisão perpétua, a reforma “quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”.

O Diálogo Inter-religioso aparece, neste contexto, como “um desafio gigantesco”.

“O diálogo só tem lugar a partir da firmeza de convicção e humildade no relacionamento e na gestão das expetativas”, afirma José Manuel Pureza.

“Qualquer religião que não seja semeadora de paz está a falsificar a sua essência. E, por isso, desse ponto de vista, este pontificado é uma luz muito brilhante no diálogo inter-religioso”, afirma ainda o padre José Júlio Rocha.

Os três convidados do Instituto Católico de Cultura salientaram o amor e a fraternidade como uma espécie de “grito” que faz falta na construção de uma nova humanidade.

A próxima conferência, sobre as consequências económicas e sociais da pandemia, realiza-se no dia 15 de junho e tem como oradores João César das Neves economista e professor da Universidade Católica Portuguesa; Mário Fortuna, presidente da Cãmara de Comércio e Industria de Ponta Delgada e professor de economia na Universidade dos Açores e Gualter Furtado, presidente do Conselho Económico e Social dos Açores.