Dia da Mãe celebrado este domingo recorda vítimas de violência

As mulheres têm “uma forma de pensar e de sentir a igreja que não pode ser escamoteada” e numa igreja de misericórdia, marcada pelo amor, a mulher deve ser mais do que “a figura silenciosa e aconchegante”, afirma a socióloga Piedade Lalanda numa entrevista ao programa de Rádio Igreja Açores que vai para o ar este domingo, Dia da Mãe.

“As mulheres dentro da igreja, ao longo da história sempre tiveram um papel fundamental na educação, na catequese mas nunca tiveram grande oportunidade de ter voz pública” afirma a professora universitária sublinhando que “é tempo de se fazer esse caminho e dar o protagonismo às mulheres”.

“Elas têm uma forma de sentir e de pensar a igreja muito própria e isso tem de ser valorizado” esclarece destacando a importância da valorização do papel da mulher e sobretudo da denúncia dos crimes que contra elas são praticados, como por exemplo a violência doméstica.

“ Durante muitos anos ouvíamos pessoas da Igreja a dizer aguenta a tua cruz, ele é o pai dos teus filhos… esta naturalização de fenómenos gravíssimos que provocavam e provocam o sofrimento, se calhar só contável em segredo de confissão, não pode continuar a acontecer numa Igreja que cuida dos seus, onde se respeita liberdade, e que é uma Igreja de amor”, refere a socióloga que integra a Comissão Diocesana Justiça e Paz.

“Não se trata de dar cargos, mas de reconhecer este papel global das mulheres na sociedade que partilha com os homens” esclarece, acrescentando ainda que a presença das mulheres em órgãos diretivos favorece uma gestão mais justa.

“Imagino que se as mulheres tivessem sido introduzidas nos órgãos diretivos da Igreja se calhar a história teria sido diferente. Por exemplo a presença das mulheres ou das relações familiares na vida dos homens da Igreja teria consequências positivas na construção de uma Igreja mais fraterna e mais transparente”.

Piedade Lalanda é uma das duas convidadas do programa Igreja Açores que será emitido este domingo, depois do meio dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.

A socióloga reflete sobre o papel da maternidade que “hoje é uma escolha”; das desigualdades laborais ainda existentes e que resultam muitas vezes da responsabilidade social que impende sobre a mulher no acompanhamento dos filhos e que a afasta dos cargos de liderança nas empresas; da alteração da prioridade da maternidade por parte de muitas mulheres e dos desafios que se colocam à mulher no sei da família.

“A maternidade não deixou de ter um papel importante para a afirmação da própria mulher. Ela completa a experiência de vida de uma mulher, sem dúvida, mas do ponto de vista social já não é apenas uma questão biológica mas a de ajudar a formar pessoas e a responsabilidade social da maternidade alterou-se”, afirma ainda Piedade Lalanda.

Embora hoje seja ponto assente de que o cuidado dos filhos não é um papel exclusivo da mulher, a “mãe continua a ser a figura de referência quer do ponto de vista do crescimento psicológico quer do ponto de vista da identidade social de uma criança”.

Este domingo, o primeiro de maio, mês de Maria, assinala-se o Dia da Mãe.

A Comissão Episcopal do Laicado e Família (CELF) publicou uma mensagem por ocasião do próximo Dia da Mãe, recordando as mulheres vítimas de violência e todas as “dores” de quem cuida dos seus filhos.

O texto, fala do “sofrimento das mães que sobrevivem a ciclones, das mães que são vítimas de violência, das mães que choram por filhos perdidos, das mães que correm e correm, para cuidar de filhos e netos”.

A Igreja Católica em Portugal saúda ainda todas as mães que “brincam felizes em parques tranquilos, que podem alimentar os seus filhos, dar os melhores cuidados aos que estão doentes e acompanhar o crescimento saudável dos seus netos”.

A mensagem destaca o que denomina como ‘martírio materno’ de tantas mães, “prontas aos maiores sacrifícios” pelos filhos, pela família, pelos outros, “dando a vida” e que, por vezes, não são “escutadas, compreendidas, amadas e apoiadas”.

“O Dia da Mãe também deve ser este incómodo, este pensar no que somos e fazemos, com a nossa vida de todos os dias”, acrescenta o texto, salientando que “não é possível celebrar” este ano “sem falar destas mulheres que carregam alegrias e dores, todos os dias”, que “passam fome, para dar de comer, que não dormem, para velar sonos inocentes”.