Por Cón. Hélder Miranda Alexandre

O caminho da vida é semelhante à estrada de um viajante que avança com uma lanterna na mão. O caminho só se conhece na medida em que se avança, advertido através da luz, para as subidas e descidas, ou para os buracos e para as pedras do caminho. No entanto, nem sempre os empecilhos são verdadeiros obstáculos. Há pedras que fazem cair, porque rolam hipocritamente debaixo das solas dos sapatos, e outras que fazem subir, porque obrigam a levantar os pés. Tudo depende aonde se quer chegar e do modo como se reage. Há dois anos sofri um grave acidente que me fez valorizar este simples caminhar, que afinal não é assim tão simples, como presunçosamente pensava. O que temos por adquirido e seguro não obriga a pensar. Por isso, tive de aprender a caminhar como uma criança. Sou eternamente grato aos que estiveram por perto.

A lanterna do caminhante não permite que se veja muito longe, por muito forte que ela ilumine. Por isso, a fé que recebemos dos nossos avós ilumina, mas com limites e até certo ponto. A Palavra de Deus e a Tradição dão fundamento a este dom supremo. Sem dúvida que o Espírito Santo é fonte e expressão de fé, mas pode-se sempre obscurecer a claridade dos vidros da lanterna. Com tanta fuligem que por aí se encontra, não é possível ver muito longe. Corremos o risco de fazer planos que terminam num buraco.

No Pentecostes, o Espírito Santo não apareceu em forma de papéis de carta, mas em formas de línguas de fogo, e o fogo apaga, felizmente, o papel inútil. As festas do Espírito Santo que efusivamente se celebram nestas Ilhas revivem uma tradição que muito nos orgulha. Um forte dique contra o secularismo. Aliás, gostamos de comparar os nossos festejos, manifestamente idiossincráticos, a uma Europa continental que se esqueceu do Espírito Santo. No entanto, avaliar estas vivências deste modo pode ser um perigo ou tentar tapar o sol com a peneira. Pensamos que os outros não têm o Espírito Santo e que O possuímos em plenitude. Precisamente, um dos problemas da nossa vivência cristã está nessa convicção: «eu tenho razão e isso basta-me». Sem pretender fazer juízos de valor, penso que há muitas opções que têm mais papel de carta do que línguas de fogo, e razões que não deixam receber a língua de fogo, a lei do Pentecostes, a lei do amor!

As línguas deixaram de ser barreira depois do Pentecostes. Os oriundos de fora ouviram os discípulos «proclamar nas suas línguas as maravilhas de Deus». O tempo presente da nossa Igreja Diocesana é de mudança. É natural existir apreensão, medo do futuro, inseguranças, mas também expectativas desmedidas. Penso que é tempo de acabar com divisões e línguas viperinas. Mais do que nunca, o povo de Deus espera de nós o anúncio destas maravilhas. O abbé francês Paul Couturier (†1953), fundador do movimento ecuménico espiritual, falou de um mosteiro invisível, que é a Igreja, no qual se reza incessantemente pela vinda do Espírito da unidade. Que o Espírito Santo seja o vencedor deste caminho!