Por Francisco Maduro Dias

Domingo passado não sucedeu, como é costume, a Procissão de Passos de Angra do Heroísmo. Não foi a única, das de Passos, nem a única, de todas as manifestações públicas de Fé que os cristãos católicos dos Açores colocam nas ruas, todos os anos.

Por via da pandemia da Covid 19 elas ficaram como que suspensas, numa espécie de não tempo ou de Limbo, que atinge a própria memória que guardamos de todos esses dias e meses, atirando para o nevoeiro do esquecimento um ano de muito má memória e fazendo-nos colar os dias deste 2021 aos de 2019.

Curiosamente, nesse 2020, esta mesma Procissão ainda atravessou as ruas de Angra, pouco tempo antes de ficarmos fechados em casa, cortando o quotidiano da Quaresma angrense, tão abruptamente, que já a Procissão do Senhor Morto não se realizou.

Este ano apenas foram abertas as portas dos dois Passos ainda existentes na cidade, dos vários construídos que existiam em Angra, e assim ficaram no Domingo, assinalando suave e silenciosamente, a procissão que não houve, a passagem das imagens, do cortejo, da música e das reflexões de rua, que não aconteceu.

Mas, afinal, porque é que uma pessoa anda com aquela imagem, linda e barroca, aos ombros, durante uma hora e tal?

O andor do Senhor dos Passos de Angra, embora pesado, não pesa, agora, nem metade do que já foi, quando era de sólidos tabuões de pinho resinoso. Não sendo o quase pesadelo que já foi, não é fácil, mas será, então, pelo sacrifício? No meu caso, cada vez menos.

Essencialmente, cada vez mais essencialmente, a questão que me costuma bailar no espírito enquanto vou cumprindo o trajecto, transportando a Imagem de Cristo com a Cruz, é o pensar no modo como alguém se sacrifica pelos outros, até aquele ponto e, olhando em volta, tentar perceber quantos humanos entendem a vida, nessa perspectiva.

É que este mundo, ocidental, confortável, benévolo para com as múltiplas misérias humanas, não é, de facto, o mundo inteiro. É, apenas, o mundo deste lado de cá, habituado a ter, a usar e a abusar, porque o resto do planeta não vive, em largas extensões, com essa mesma regra de vida, e tendemos a esquecer-nos disso, e de que maneira.

Enquanto olhava a fotografia, que me mandaram, dos Passos de Angra, de portas abertas e vazios, pensei nos muitos humanos que, desde há um ano, cortaram com a família, meses a fio, para poderem permanecer nos hospitais, tratando e cuidando de outros, nos muitos que, em múltiplas situações e no limite das forças, ainda encontraram um bocadinho de energia para fazerem um bocadinho mais por algum outro, dos que tinham defronte de si.

Nestes tempos contraditórios em que vivemos, abundantes de egoísmo e narcisismo, ainda que em nome de uma liberdade mal compreendida e assumida, aqueles Passos não ficaram vazios, esta outra procissão aconteceu!

*Este artigo foi publicado na edição deste sábado do Diário Insular