Pelo padre José Júlio Rocha

A missa terminou e o cortejo fúnebre prepara-se para rumar ao cemitério. Dentro da urna jaz um jovem de trinta e um anos cuja morte acinzentou a beleza do rosto. Último momento para a despedida, antes de se fechar para sempre. Uma mulher pequenina aproxima-se do corpo e abraça o rosto do rapaz, beijando-o muito demoradamente, soluçando quase em silêncio perante os lamentos e as lágrimas da assembleia. Agarra-se ao esquife e ali permanece, como quem quer atrasar a eternidade e nunca mais deixar de beijar aquele corpo. E a eternidade atrasa-se, prolonga-se por vários minutos, até que fica apenas o doloroso silêncio dos soluços desamparados da mulher. É a mãe. Nada no mundo se pode comparar à maternidade traída pela morte.

Cada vez que assisto ao funeral de um filho lembro-me daquela passagem de Mateus, que conta da chacina das crianças de Belém às mãos de Herodes: «Ouviu-se um grito em Ramá, lamentos e gemidos que não têm fim: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem». Mãe nenhuma quer ser consolada na morte de um filho. Precisa de chorar, precisa morrer um pouco, expiar em si própria o crime que a natureza cometeu contra ela, pagar até ao último centavo a dívida que acarreta a mais absoluta derrota: a da mãe que deixou de o ser. Foi ontem, quinta-feira.

Graziela Ribeiro é um nome que não tem a ver com o que acabei de contar. Fomos crianças juntos e embarcámos, muitas vezes, em aventuras de crianças. Professora exemplar e mãe de dois filhos, há cerca de um ano e meio conversámos aprofundadamente sobre um projeto de pastoral social na Fonte do Bastardo. Estava entusiasmada e decidida a andar para a frente com a iniciativa. Algumas semanas depois soube que ela tinha partido de urgência para Lisboa, vítima de uma doença extremamente agressiva e eventualmente mortal. A comunidade docente e a freguesia entraram em clima de consternação. Aquilo não podia acontecer à Graziela, 46 anos, bonita por dentro e por fora, com um mundo inteiro para dar.

No fim do ano passado um agravamento repentino da doença atirou-a para as vizinhanças da morte. Ninguém ficou indiferente. Correntes de oração multiplicaram-se nas redes sociais, missas celebradas pela sua saúde, mensagens de força e esperança enviadas enquanto a Graziela agonizava.

Organizou-se uma vigília de oração na freguesia. Diante de mim a igreja cheia de paroquianos, professores, familiares, amigos. A Graziela recuperou forças e vitalidade. Respirámos de alívio, alguém falou em milagre. Todos os dias, ou quase todos, chegavam até mim notícias encorajadoras e a esperança tornou-se um refúgio para todos os que a amavam.

A Graziela morreu na passada segunda-feira. Talvez o silêncio pudesse ter sido o melhor discurso, mas apetece-me escrever, lutar com Deus, como Jacob, chorar o silêncio do Pai Eterno, enquanto recordo o corpo da Graziela, outrora belo, reduzido a uma magreza onde se podiam contar todos os ossos. Um ano inteiro de sofrimento atroz, de vida a fugir por entre os dedos para chegar a uma meta a que damos o triste nome de morte.

“Vaidade das vaidades, diz Cohelet, vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” Esta é a introdução à primeira leitura da missa de ontem. A vaidade é a característica daquilo que é vão, vazio, oco. Eventualmente belo ou entusiasmante por fora, mas vazio. Nada por dentro. É assim a vida se não a preenchemos de sentido. Para que serve viver se apostamos em tudo menos no amor?

O livro do Cântico dos Cânticos, na Bíblia, tem uma expressão que engloba tudo aquilo a que aspiramos: “o amor é mais forte do que a morte”. Ou acreditamos nisto ou a vida é uma espécie de vaidade, de fuga, de nada, um átomo de luz num infinito de escuridão.

A morte da Graziela deixou-nos um descampado de dúvidas, revoltas, um imenso ponto de interrogação sem pergunta sequer. Só o Amor é digno de fé.

  • Este texto foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rúbrica Rua do Palácio