Por Renato Moura.

Após o 25 de Abril de 74, o povo estava ávido de conhecer a política; depois os partidos e as propostas que apresentavam. As sessões de esclarecimento proliferaram – promovidas pelo Movimento das Forças Armadas ou pelos partidos – e chegaram aos mais recônditos povoados.

Mais tarde, na proximidade dos actos eleitorais; então eram sobretudo os candidatos a tomar a palavra. Durante anos não apenas propostas eleitorais, mas a ideologia da força política e os respectivos fundamentos, desde a origem histórica aos resultados da sua aplicação noutros países.

As sessões, realizadas nos mais diversos espaços, invariavelmente enchiam-se de gente com o intuito de perceber e aprender, para fundamentar o que viriam a ser as suas futuras opções políticas. Quem já tinha feito a escolha ideológica continuava a participar, que não apenas com intuito de engrossar o número de apoiantes do seu partido, como também para questionar os oradores de outros partidos, ou mesmo contestar as suas afirmações. Houve uma fase, já mais sofisticada, em que se preparavam participantes para fazer “baquear” oradores tidos como menos honestos, por esconderem verdades comprometedoras. A política chegava a todos em directo, submetia-se ao diálogo, era testada pela verdade, tolerava a contestação, até suportava a repulsa.

O povo não via as eleições apenas como uma forma de apurar quem iria governar, mas também como uma apreciação – ao vivo e em directo – daqueles que poderiam vir a desempenhar os cargos. Os candidatos consolidavam a teoria ideológica, estudavam os programas, preparavam-se para falar de improviso, de modo a poderem assegurar uma boa participação que os distinguisse no confronto com os demais. A participação dos candidatos era um tirocínio para o futuro exercício dos cargos.

Mas nem os já eleitos se eximiam do confronto com os eleitores. Faziam-no para prestar contas do trabalho realizado, para se submeter a novas eleições; ou para ajudar candidatos noutros actos eleitorais, ocasião onde eram “apanhados” e sem hipótese de fuga “obrigados” a se explicarem sobre os seus actos.

No presente as grandes realizações de campanha eleitoral ocorrem nos grandes centros; os comícios enchem-se com os da cor, transportados para o número e aplausos; os grandes jantares têm muito de estômago e pouco de sabor no apoio. Tudo junto para a televisão fazer chegar a imagem de força e o slogan, supostamente arrebatador, encomendado à empresa de marketing e colocado na boca do líder.     

Que virtuosas e saudosas as velhas sessões!