Por Renato Moura

Tornou-se público que um pai, alertado para a necessidade de assinar o consentimento para administração de anestesia a uma filhinha que necessitava de cirurgia urgente e vital, conduzia em transgressão, por excesso de velocidade. Um agente de trânsito da PSP seguiu-o e fê-lo parar. Posto ao corrente da razão apresentada pelo transgressor, no papel de pai em aflição, o agente recomendou-lhe que respirasse fundo, procurasse acalmar-se na medida do possível e pediu-lhe para o seguir. Escoltou-o em velocidade e segurança até ao Hospital de Santa Maria. O agente imediatamente regressou ao cumprimento das suas funções sem se identificar e nem registou a ocorrência.

Para o pai, que justificadamente tornou pública esta acção, o agente quis ser apenas “o Senhor Polícia da mota” e “foi apenas a instituição que representa; e eu a minha filha, os cidadãos que ele jurou defender”.

Esta atitude, para além de humanitária e nobre, merece a honra de ser considerada institucional. Já obteve milhares de partilhas nas redes sociais e tem emocionado quantos dela tomaram conhecimento pelos meios de comunicação.

Recentemente um meio de comunicação social descobriu que um deputado da Assembleia da República, com altas responsabilidades num partido político, teve presenças registadas, apesar de ter faltado, como o próprio já reconheceu. A notícia – serviço prestado à democracia e à verdade – provocou estilhaços e consequentes tentativas de explicação ou apagamento. Apesar de cada deputado ter a sua password pessoal e intransmissível, vão-se avançando justificações como partilha de ficheiros num mesmo terminal. Responsáveis partidários procuram desvalorizar com a classificação de “questiúncula” ou abafar com “o caso está encerrado”, o que não acontecerá se houver abertura de inquérito pela Procuradoria-Geral da República.

Como contrastam as duas atitudes! Uma de um homem que soube fazer bom uso da autoridade confiada como agente da PSP, com discrição e no anonimato. Outra de pessoas que gostam de se exibir na praça pública, de ocupar as primeiras posições, com responsabilidades institucionais de soberania e partidária, que nunca mais percebem o descrédito que estão a provocar na política! É isto o prometido e ansiado “banho de ética?!

Segundo o Evangelho de S. Marcos, já naquele tempo Jesus ensinava a multidão, dizendo: “Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes”.